Mãe de Jesus, Mãe da Igreja e nossa Mãe

Prof.Felipe

Prof. Felipe Aquino. Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Já que Jesus, ao assumir nossa natureza humana, pela Encarnação no seio de Maria, fez-se irmão de cada um de nós, Ele quis que Sua Mãe fosse também a Mãe de todos nós.

“Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, Sua Mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse ela: “Senhora, eis aí teu filho”. Depois, disse ao discípulo: “Eis aí tua Mãe”. O Apóstolo nos revela que “a partir daquela hora a levou para sua casa” (Jo 19,25-27).

Que momento extraordinário! Que cena transcendente!

Jesus deu-se inteiramente a nós: Sua vida, Suas forças, graças e milagres. Ele nos deu Seu Sangue, sofrimento e méritos. O Senhor nos deu tudo! Ao fim, deu-nos também Sua Santíssima Mãe. Ele avisara antes: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18). Agora, providenciava para que Seus discípulos não ficassem órfãos e perdidos.

João representava ali cada um de nós, ensina a Igreja. No discípulo amado, estava cada irmão amado que Jesus acabara de resgatar com o preço de Seu Sangue. João compreendeu tão bem que, de imediato, levou Maria para sua casa. É isso o que cada um de nós tem de fazer também: levar Maria, como Mãe, para nossa casa, muito agradecidos a Jesus e a ela.

Que Mãe melhor poderíamos receber das mãos do Senhor?

A partir do Calvário, Maria passou a ser a mãe “dos novos viventes”. Que honra é para nós poder chamar de “nossa mãe” a Mãe de nosso Senhor! Você já pensou nisso profundamente?

São Paulo ensina que “quem está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho, eis que tudo se fez novo” (2Cor 5,17). Maria é agora a Mãe dessa “nova criatura” que Jesus resgatou da morte, do pecado e do demônio para “a liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8,21).

No Calvário, realiza-se o maior acontecimento de todos os tempos. E é tão grande a Maternidade Espiritual de Maria e tão ligada à aplicação dos méritos infinitos que seu Filho nos conquistou com Sua Morte e Deus a quis proclamada naquele momento especial de nossa salvação. Podemos dizer que a Maternidade Espiritual de Maria foi um testamento de Jesus escrito com letras de sangue.

Como a melhor de todas as mães, Maria intercede sem cessar por cada um de nós, mesmo quando é invocada. Muitos que não a conhecem se salvam por sua maternal intercessão.

O mesmo Papa Leão XIII diz na encíclica Magnae Dei Matris, de 8 de dezembro de 1892: “Maria, muito melhor que qualquer outra mãe, conhece e vê os socorros de que necessitamos para viver, os perigos públicos e particulares que nos ameaçam, as angústias e males que nos oprimem, e, sobretudo, a luta encarniçada que havemos de sustentar com os inimigos da salvação. Nessas e noutras dificuldades da vida, melhor do que ninguém, pode ela generosamente e deseja ardentemente proporcionar a seus filhos queridos consolação, força e toda espécie de auxílios”.

O último Concílio tem uma bela expressão para mostrar a maternidade espiritual de Maria:

“Por sua maternal caridade cuida dos irmãos de seu Filho, que peregrinam rodeados de perigos e dificuldades, até que sejam conduzidos à feliz pátria (LG, n.61).

São Luiz de Montfort assim explica a maternidade espiritual de Maria: “Assim como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, há, na geração sobrenatural, um pai que é Deus e uma mãe, Maria Santíssima. Todos os verdadeiros filhos de Deus e os predestinados têm Deus por Pai e Maria por Mãe; e quem não tem Maria por mãe não tem Deus por Pai” (Tvd, n. 30).

E continua: “O desejo de Deus Filho é formar-se e, por assim dizer, encarnar-se todos os dias por meio de Sua Mãe, em seus membros. Se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasceu nela, os predestinados, membros desse chefe, devem também nascer nela por uma consequência necessária. Não há mãe que dê à luz a cabeça sem seus membros ou os membros sem a cabeça: seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem da mesma mãe, e se um membro do corpo místico de Jesus Cristo, isto é, um predestinado, nascesse de outra mãe que não Maria, que produziu a Cabeça, não seria um predestinado nem membro de Jesus Cristo, mas um monstro na ordem da graça” (Tratado da Verdadeira devoção a Virgem Maria, n. 32).

Santo Agostinho também afirma que “todos os predestinados, para serem conformes à imagem do Filho (Rm, 8,30) são neste mundo ocultos no seio da Santíssima Virgem, e aí guardados, alimentados, mantidos e engrandecidos por essa boa Mãe, até que ela os dê à glória” (Tvd, n. 33).

Por essas razões, Santo Irineu chamava Maria “a Virgem que nos regenerou para Deus”, e Santo Epifânio com São Pedro Crisólogo chamam-na “Mãe de todos os que vivem pela graça”. Santo Agostinho diz que foi “Mãe natural da cabeça e Mãe espiritual dos membros”. São Leão Magno completa: “A geração de Jesus Cristo é a de todo o corpo”. São Alberto Magno afirma nesta mesma linha: “Maria gerou um só Filho natural, no qual regenerou espiritualmente todos os filhos, porque o Senhor uniu-os a si nas entranhas da Virgem”.

Também nosso amadíssimo Papa João Paulo II, na encíclica Redemptoris Mater, que escreveu por ocasião do Ano Mariano, por ele proclamado, em 25 de março de 1987, diz:
“Esta ‘nova maternidade de Maria’, portanto, gerada pela fé, e fruto do ‘novo amor’, que nela amadureceu definitivamente aos pés da Cruz, mediante sua participação no amor redentor do Filho” (n. 23).

“Maria não é só modelo e figura da Igreja, mas é muito mais do que isso! Com efeito, ‘ela coopera com amor de mãe para a regeneração e formação’ dos filhos e filhas da Mãe Igreja. A maternidade da Igreja realiza-se não só segundo o modelo e a figura da Mãe de Deus, mas também com sua cooperação” (n. 44).

“A maternidade de Maria que se torna herança do homem é um dom que o próprio Cristo faz a cada homem pessoalmente” (n. 45).

“Maria, com essa sua fé de esposa e de mãe quer atuar em favor dos que a ela se entregam como filhos. E é sabido que quanto mais esses filhos perseveram na atitude de entrega e mais progridem nela, tanto mais Maria os aproxima das ‘insondáveis riquezas de Cristo’ (Ef 3,8)” (n.46).

O Concílio Vaticano II, ao citar Santo Agostinho, ensina que Maria “é verdadeiramente a Mãe dos membros de Cristo, porque cooperou pela caridade para que na Igreja nascêssemos os fiéis que são filhos da Cabeça” (LG, n. 53).

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Felipe Aquinp/Foto: Arquivo Canção Nova.

Nossa Senhora da América

Um exemplo marcante dessa verdade ocorreu com Cristóvão Colombo, o famoso descobridor da América, em 1942. Ele tinha uma intuição muito forte de que além dos mares outros continentes existiam, e a ideia de descobri-los o acompanhava. Contudo, Colombo não conseguia meios para realizar a ousada viagem pelos mares desconhecidos. Ninguém acreditava que seus sonhos pudessem se realizar, e o desânimo já o dominava. Junto dos homens e reis da terra não havia mais esperança. Restava-lhe apenas a esperança do Céu, Naquele que é o socorro dos aflitos.

Soluçando, Colombo se ajoelhou diante da imagem da Santíssima Virgem, em Sevilha, na Espanha, e rezou: “Ao menos vós, Senhora do mundo, atendei-me. Todos me desprezaram. Ninguém me quis dar ouvidos, ninguém me quis auxiliar. Senhora, auxiliai-me e vos prometo, voltando dos continentes descobertos, trazer-vos aqui as primícias das novas terras”. E a Senhora das Américas o atendeu.

Três meses depois, Colombo zarpava de Palos, com três caravelas, rumo aos novos mundos que queria descobrir. Em agradecimento à Virgem, batizou a nau capitânia com o nome de “Santa Maria”. E toda a longa viagem pelos mares desconhecidos foi uma verdadeira epopeia de heroísmo e de proteção da Virgem Maria, impedindo que as tempestades destruíssem aquela pequena esquadra liderada pela “Santa Maria”. Quando os marujos, já desesperados de tanto sofrer, se revoltaram a ameaçaram destruir a coragem de Colombo, a Virgem o protegeu.

Enfim, ao amanhecer do dia 12 de outubro de 1492, a capitânia “Santa Maria” tocou o solo bendito das Américas. Colombo, fiel a Maria, converteu seis índios, tomou um pouco de ouro da nova terra e voltou a Sevilha. Diante da mesma imagem da Virgem, fez sua oferta:
“Senhora, prometi voltar e trazer-vos as primícias das terras que me auxiliastes a descobrir: aqui as tendes, são vossas”.

Jamais Colombo teria chegado aqui em nossa América, hoje o maior continente católico do mundo, não fosse o auxílio indispensável dessa boa Mãe àquele bravo filho que soube confiar-se, absolutamente, em suas mãos.

Maria é também Mãe da Igreja, pois esta é o Corpo Místico de Cristo. A Igreja é Jesus. São Paulo afirma, bem claro, essa grande verdade aos coríntios: “Vós sois o Corpo de Cristo, e cada um, de sua parte, é um de seus membros (1Cor 12,27). Trata-se da unidade dos membros com a Cabeça divina. Aos romanos o apóstolo diz: “Porque, assim como num só corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de nós membros uns dos outros” (Rm 12,4-6).

Portanto, fica assim claro que somos o “Corpo de Cristo”, e Maria, Mãe de Cristo, logo é também a Mãe de seu Corpo que é a Igreja.


Prof. Felipe Aquino


Doutor em engenharia mecânica, pregador e escritor

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