Senhor, confio na sua misericórdia

Dom Antonio Tourinho no Acampamento Pastoral da Sobriedade. Foto: Weskey Almeida/cancaonova.com

Dom Antonio Tourinho no Acampamento Pastoral da Sobriedade. Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Devemos confiar e ser praticantes da misericórdia do Senhor

Onde abunda a desgraça, superabunda a graça de Deus! Não que Deus tenha prazer na desgraça, mas nela Deus é capaz de realizar uma graça maior. A existência de pessoas empenhadas na luta contra as drogas e o álcool, que são flagelos humanos, é uma prova da manifestação da graça de Deus.

Devemos construir um marco de misericórdia

Estamos comemorando o ano da misericórdia e o Papa Francisco proclama a cada diocese, cada paróquia, cada comunidade, que não encerre este ano sem formar um marco da misericórdia. A pastoral da sobriedade tem feito o seu marco.

Frei Hans, fundador da comunidade terapêutica Nova Esperança, diz que os dependentes químicos são os leprosos dos tempos modernos. Como na narrativa bíblica os leprosos eram isolados da sociedade, marginalizados e hostilizados, assim também é o quadro dos dependentes químicos nos dias de hoje. Hoje, nós, pastoral da sobriedade, precisamos ter uma atitude diferente, fazer o papel que é escrito por Lucas na parábola do bom samaritano.

A Igreja segundo o Papa Francisco deve ter 3 rostos: Pastora, Pescadora e Boa Samaritana.

Pastora – ou seja, é uma Igreja que cuida do rebanho, alimenta o rebanho e protege o rebanho. E ao olhar para a pastoral da sobriedade vemos este rosto, cuidando daqueles que são vitimados pelos vícios, sendo alimentados e protegidos enquanto recebem suporte para se libertar.

Pescadora – pois o próprio Cristo foi pescador de homens, logo sendo imitadores d’Ele devemos seguir o ‘ide e ir para águas mais profundas’. Como pastoral precisamos nos esforçar, cansados, com poucas pessoas e tendo de superar obstáculos e falta de recursos, mas é nosso dever pescar em águas mais profundas.

Boa Samaritana – leiamos o que está escrito em Lucas 10, 25 – 37:

“ Levantou-se um doutor da lei e, para pô-lo à prova, perguntou: Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como é que lês? Respondeu ele: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento; e a teu próximo como a ti mesmo. Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo? Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo”

Não somente conhecer a palavra, mas praticantes dela

O rapaz tinha a lei na ponta da língua, mas não tinha na ponta da vida. Se você quer fazer parte do time da pastoral da sobriedade você precisa deixar de lado todas as suas ressalvas, todos os seus nojos e os seus medos e viver a misericórdia.

Precisamos ter a palavra na ponta de nossas vidas, mais do que na ponta de nossas línguas. Foto: Wesley Almeida/canacaonova.com

Com consciência da misericórdia de Deus, somos convidados a arregaçar as mangas como igreja pescadora e boa samaritana. Foto: Wesley Almeida/canacaonova.com

Muitos pensam que o sacerdote deixou de prestar socorro ao homem caído a beira da estrada, pois estava atrasado para um culto, mas não era esse o motivo. Haviam muitas leis, muitas tradições humanas, e para aquele sacerdote, se ele ajudasse aquele homem ele ficaria impuro e impedido de celebrar o culto, então entre socorrer o homem e realizar o culto, ele optou pelo culto. Já o levita, por uma interpretação particular minha, este sim estava atrasado, ele tinha de ter preparado tudo para que o sacerdote realizar o culto, e sua própria falha fez com que ele não pudesse oferecer ajuda.

Um genuíno cristão deve construir pontes

A ironia é que quem vai parar e socorrer o homem, que era um judeu, foi um samaritano, um homem considerado arqui-inimigo dos judeus. Mas este, mesmo tendo todos os motivos para ser indiferente, se compadeceu e foi um agente de misericórdia. Aí vemos a sabedoria das palavras do Papa Francisco que diz que um genuíno cristão não cria muro, não acha desculpas para não fazer, ele faz pontes! Quem faz pontes não faz por que o outro merece, mas faz-se instrumento da graça e misericórdia de Deus.

O samaritano não quis saber se o homem era ou não seu arqui-inimigo, se ele ficaria ou não imundo com isso, se aquilo traria custos ou não. Antes ele prestou os primeiros socorros, tratou de suas feridas e o encaminhou para que ele pudesse se recuperar, levando-o a uma hospedaria. Interessante que ele, o samaritano, foi a pé, pois ele colocou o desconhecido na montaria. Lá ele fez o que para muitos é o mais difícil sacrifício, ele doou dinheiro para pagar os gastos da recuperação do homem.

Esse acidentado somos eu e você, é cada um de nós, Jesus é para nós o bom samaritano, que mesmo não precisando, mesmo nós não merecendo, nos salvou e cuidou de nós. Por isso, com consciência da misericórdia de Deus, somos convidados a arregaçar as mangas como Igreja pescadora e boa samaritana, para salvar os acidentados que estão caídos pelo caminho.

Transcrição e adaptação por Jonatas Passos

Assista essa pregação pelo Canção Nova Play

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Dom Antonio Tourinho


Bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife

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