A Eucaristia contém tudo

É-nos difícil aceder à inteligência intima do sacramento da Eucaristia. Regressemos ao interior de nós mesmos e coloquemo-nos perante o mistério da nossa própria vida. Esse mistério a que nos esquivamos tantas vezes para nos atirarmos ao corre-corre da vida quotidiana ou aos calmantes dos nossos prazeres. Deixemos elevar do fundo de nós mesmos, sem lhe impor silêncio, a aspiração infinita do nosso coração. Demos atenção à voz secreta da morte que ressoa no interior de nós mesmos.

Perguntemo-nos por uma vez e da maneira mais séria do mundo, se a nossa insensibilidade em relação a Deus, na qual nós seriamos tentados a ver uma ocasião de O acusar, até mesmo uma prova já meia aceita da sua não-existência, não encontra um cúmplice na parte mais secreta de nós mesmos, tanto medo que temos de ser homens do amor infinito, homens da eternidade, homens que aceitam que sua felicidade está em Deus lhe pedir cada vez mais.

Se tivermos coragem de nos encontrarmos lealmente com nós mesmos, tal como somos, receberemos como paga uma melhor compreensão da Eucaristia.

É então, com efeito, que o ensinamento da Fé nos aparece bruscamente como sendo a resposta à questão que surgiu em nós, a questão de saber quem somos nós, aos nossos próprios olhos.

O afastamento de Deus atormenta-nos. Mas a Eucaristia dá-nos Aquele que envolvido pelas trevas absolutas da morte, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito; e ele está lá com a sua morte. Nós ficamos desolados de não podermos amar. Mas a Eucaristia dá-nos Aquele, que na noite em que foi entregue – entregue por nós – amou os seus até ao fim. Queremos ser fiéis à terra, não ver escoar-se a obra das nossas mãos? Mas a Eucaristia mostra-nos na carne glorificada do Ressuscitado o mundo já transfigurado e ela inaugura a economia definitiva das coisas desta terra, a economia da glória.

Vai minha alma, toma e come o penhor da salvação e da glória de toda a carne. Somos atormentados pela ambigüidade, a fragilidade a vacuidade da nossa própria natureza, pela sua condição pecadora, as suas falhas, a sua pavorosa mediocridade? Mas a Eucaristia dá-nos Aquele que, sendo sem pecado, pôde tomar dolorosamente sobre Si a realidade abissal das nossas faltas, fazendo-se maldição por nós; a Eucaristia dá-nos Aquele, que nos conhecendo até ao mais profundo de nós mesmos, nos acolheu, amou e curou.

O medo de ver desabar de maneira absurda o que edificamos causa-nos um verdadeiro martírio? Mas a Eucaristia dá-nos Aquele que precedeu todas as ruínas, que as resgatou e que nos dá mesmo no seio da impotência mais total, força para as aceitar.

Na verdade, a Eucaristia contém tudo: o sentido da nossa existência, o seu lado doloroso e a sua beatitude. Tudo isto de maneira escondida, acessível apenas à Fé. Mas sempre verdadeira e realmente.

Karl Rahner

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