A influência da espiritualidade no processo de curar

Professor José Vitor
Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com
Dando continuição ao segundo dia de palestras do Simpósio Interdisciplinar o professor José Vitor falou sobre “A influência da espiritualidade no processo de cura”.

Confira a palestra:

Frequentemente me perguntam: por que tenho me dedicado ao estudo destes temas? A Bioética e a qualidade de vida das pessoas idosas têm sido meu objeto de estudo por muito tempo; se pararmos um pouco e analisarmos o século XX e início do XXI, vamos perceber que a Ciência e a Tecnologia têm sido assuntos muito abordados.

O homem do século passado acreditava que suas angústias, dúvidas e inquietações seriam sanadas com estas duas variáveis: Ciência e Tecnologia. Como não alcançou esse objetivo, optou por se aprofundar na busca de questões pessoais e subjetivas. O homem de hoje procura se entender do ponto de vista particular, individual, pessoal.

No sentido de se entender como pessoa, o homem tem se perguntado: Quem sou? Quais os meus objetivos? Quais minhas metas? Neste contexto, a dimensão espiritual tem feito com que o homem se encontre, se entenda melhor.

Quando falamos de espiritualidade encontramos muitas divergências. No Brasil, este tema agora tem tomado vulto; o interesse por essa área tem crescido progressivamente. Ainda encontramos certa confusão no desvendar do tema, que, de fato, por ser novo, muitas vezes, é classificado conforme referências pessoais de cada pesquisador.

Usuários dos serviços de saúde, profissionais de saúde e cuidadores familiares têm se caracterizado como os mais interessados na discussão da inflûencia da espiritualidade, pois esta remete à vida e à saúde, ao passo que a doença e o sofrimento culminam na morte.

A situação atual de envelhecimento populacional brasileira pode ser considerada alta, e caminhamos para uma inversão da pirâmide populacional. Fato este que interfere na saúde, produção econômica e social e, principlmente, familiar.

Nesta dinâmica, o mais importante é acrescentar anos à vida ou vida aos anos? A reflexão atual nos conduz a dirigir nosso olhar não para a quantidade, mas a qualidade de vida. Hoje o homem quer viver mais, mas, sobretudo, quer viver feliz, bem. Caso contrário, o aumento da longevidade não é satisfatório. “Prolongar a vida sem propiciar um significado para a existência não é a melhor resposta para o desafio do envelhecimento (…) a vida necessita de um significado” (NERI, 2001, p. 102).

A questão da espiritualidade é uma questão importante para o entendimento do homem. Estudos sobre a relação religiosidade/espiritualidade e saúde mental entre pessoas idosas nos mostram que os níveis mais elevados de participação religiosa colaboram positivamente para uma vida mais saudável.

Partindo do princípio de que a espiritualidade está interligada com a palavra "relacionamento", podemos acrescentar que ela é:

" O ser humano é um ser de existência, que consegue se dirigir para algo muito além de si."
1- Transcedental: relação vertical; relação que acontece entre o homem e Deus. Em nossas limitações humanas, sempre buscamos alguém superior, mais forte, que nos traga segurança. Necessidade humana, de vida e saúde.

2- Intrapessoal: relação horizontal; fonte, força e capacidade interior. Muitas vezes, não damos o devido valor a nós mesmos, desta forma, não podemos dar cuidado adequado ao outro. O cuidado que o outro merece só pode ser oferecido quando cuidamos, em primeiro lugar, de nós mesmos. O que faz a diferença em nossos serviços de saúde.

3- Transpessoal: em equilibrio comigo mesmo posso dar passos em relação ao outro.

4- Associação: uma vez alcançada a harmonia entre eu-Deus-outro, conquistamos o real alcance do conceito de espiritualidade atual.

Trabalhei num hospital que tinha por diretor uma pessoa idosa, que, ao se submeter a uma intervenção cirúrgica, encontrou complicações. Certo dia, fui visitá-lo na UTI e em nossa conversa ele me escreveu: “Como é dificil morrer no meio de tanta tecnologia! Nesse momento só queria ter comigo minha Úrsula (sua esposa)”. Todos os dias, ela só podia vê-lo por meio de um visor por 15 minutos.

Para os profissionais de saúde envolvidos estava tudo muito bem, ele tinha todo o aparato necessário, mas faltou a eles sensibilidade para perceber o que era o mais importante para o paciente. Precisei ir a 15 pessoas diferentes até conseguir que a esposa fosse visitá-lo. Depois dessa longa jornada, consegui aproximá-los; e após poucas horas ele veio a falecer.

Precisamos entender que o mais importante é o bem-estar do paciente. A espiritualidade é uma necessidade da pessoa e precisamos ser instruídos para ser mais sensíveis a essa realidade. Aprender a ouvir e ver aqueles que nos cercam e, consequentemente, atendê-los. A tecnologia não pode nos afastar deste ato essencial para o bem-estar interior e pessoal.

Para as pessoas espiritualidade é: algo inerente ao ser humano, acreditar em Deus, algo sobrenatural, sentir-se bem consigo mesmo e ligação com Deus.

“A espiritualidade é algo que faz você compreender o papel do homem neste planeta ou no universo; é algo que lhe traz a tranquilidade de vida, a projeção do seu dia a dia e do seu futuro. Assim como a necessidade da transcedência e imanência”.

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