Seqüestrados e seqüestradores

Padre Fábio de Melo
Foto: Wesley Almeida / Fotos CN
Toda vez que falamos de seqüestro falamos da subjetividade, estamos evocando o contexto de risco que está situada constantemente a nossa singularidade. No caso do seqüestro do corpo, o que há é o roubo da materialidade. O corpo é trancafiado num cativeiro e vive as limitações que são próprias dessa forma de prisão. Mas quando falamos de seqüestro da subjetividade, não há a necessidade de um cativeiro material. O roubo é mais profundo, pois é levado muito mais à materialidade da vida.

Trata-se de uma invasão suave, mas nem por isso violenta, de territórios que pertencem ao singular. É a profanação da subjetividade, o acesso inescrupuloso àquelas realidades do sujeito particular, forçando-o a desprender-se de si mesmo para viver uma foma estranha e socializada de escravidão e dependência.

Os cativeiros não podem ser localizados, nem há 'pedido de resgate'. O que há é um movimento silencioso de posse de tudo aquilo que o outro é. Posse que se transmuda aos poucos em processo destrutivo e irremediável.

Num primeiro momento, o seqüestro tem as mesmas características da conquista. O traficante, por exemplo, nunca aborda violentamente seu futuro dependente. Ele o seduz com gentileza, atenção. Não cobra pelas primeiras porções, porque sabe que a vítima precisa ser conquistada. Depois de firmada a dependência, o que se vê é a intolerância, a relação desumana. Depois que a relação se estreita, o que se percebe é o estabelecimento de um processo semelhante ao seqüestro do corpo: a condição da vítima. O outro exige o que não é seu direito exigir. Ultrapassa os limites que deveriam ser preservados e pisa com os pés sujos na dignidade que merece reverência.

Seqüestro e subjetividade acontecem o tempo todo. Todos nós estamos expostos aos riscos. Não é necessário muito tempo para que nos levem de nós. Uma palavra, um olhar, uma opinião, tudo pode ser laço que nos prende e aos poucos nos leva de nós.

Foi o que aconteceu com aquela menina…

Ela chegou em mim com os olhos cheios de medo. Bonita, nascida em uma família bem estruturada, a menina começou a relacionar-se com um amigo do colégio. No inicio, era apenas uma aproximação despretensiosa, e por isso a família não viu a necessidade de intervir. 'Coisas de adolescente' como dizem os mais velhos.

Os encontros eram ocasionais e o rapaz nem chegou a conhecer os familiares dela. Ele não se interessava em conhecer o seu mundo, confessou-me ela na tentativa de vencer o medo.

A história começou a ficar mais séria quando, meses depois, os pais perceberam os maus resultados no colégio. Pela primeira vez, a menina tinha um rendimento insatisfatório, fora brilhante até então. Com tais resultados, surgiu também uma tristeza desoladora. A menina mergulhou num processo terrível. Tentou duas vezes o suicídio.

'É Jesus quem socorre os nossos limites'
Foto: Wesley Almeida / Fotos CN

Aquela menina que, até então, tinha uma vida tranqüila, cheia de sonhos e amigos, agora tinha que enfrentar um quadro depressivo profundamente perigoso.

Levada a uma terapeuta, finalmente, as razões do sofrimento foram conhecidas. A menina estava apaixonada pelo rapaz há mais de um ano e, desde que ficaram juntos pela primeira vez, ele a transformará num objeto de prazer. Ao contrério do que ela sempre dizia; nunca namorou o rapaz. Ele mantinha um relacionamento de mais de dois anos com uma outra menina. Ela era 'outra' sem saber disso.

Com apenas dezesseis anos, aquela menina já tinha enfrentado, sem o conhecimento de seus pais, os perigos de um aborto caseiro, feito por meio de ingestão de comprimidos, com intuito de expulsar o filho indesejado em seu ventre. Ele a obrigara a fazer tudo isso.

As humilhações eram comuns. Ela confessou-me que o rapaz a tratou carinhosamente nas primeiras semanas. Assim que ele percebeu o sucesso de sua conquista, seu comportamento mudou. Ele não tinha o menor respeito por ela. Não a procurava senão para sua satisfação pessoal. A menina cumpria o papel de 'prostitua socializada'.

Ela sabia de tudo isso. Mas não adiantava saber. A razão de seu sofrimento era essa. Ela não conseguia romper com ele. Ela havia perdido a capacidade de dizer 'não' aos pedidos dele. Por mais que reprovasse o seu próprio comportamento, ela temia fechar o único acesso a vida dele à sua vida.

O conflito ficou estabelecido e naturalmente a angústia e o sofrimento chegaram. Aquele rapaz mantinha aquela pobre menina em um cativeiro afetivo. Tratava-a da pior maneira, mas como a vitima desaprendeu a dizer 'não', consentia uma espécie de invasão, uma violência velada que tinha o poder de minar e fragilizar sua subjetividade. Colocando-a, novamente, nas mãos de seu seqüestrador.

Retirado do livro: "Quem me roubou de mim?", de padre Fábio de Melo.



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