Os nossos pecados não são maiores que a misericórdia de Deus

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Bispo emérito Dom Benedito Beni. Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Estamos na oitava semana do período litúrgico, chamado Tempo Comum. A liturgia nos mostra Cristo como o missionário do Pai.

São Mateus, em seu Evangelho, resume toda a atividade missionária de Cristo com as palavras de Jesus, que ia ensinando pelas sinagogas, andava por todas as regiões, curando todas as espécies de doenças e enfermidades.

O Evangelho de São Marcos nos mostra Jesus, em Jerusalém, no fim do Seu ministério. Na Primeira Leitura do livro de Eclesiástico, escrito no século II antes de Cristo, ano 180, há dois nomes: Sabedoria (Desirate), que é o seu autor; e Eclesiástico, que significa livro da Igreja. O livro fala de um fato é muito importante, porque, de modo profundo, fala sobre Deus e contém diversas orações que alimentam a vida da Igreja.

Em Eclesiástico, Deus é um grande mistério, um ser perfeitíssimo, nada Lhe foi tirado, nada Lhe foi acrescentado. O Senhor não envelhece. Para este livro, Deus é sapientíssimo, conhece todas as coisas, conhece o abismo do universo e do ser humano. Ele não é um ser distante de nós. Afirma o livro ainda que o Senhor se torna presente no mundo, Ele age na história, é o fundamento de tudo: do universo, da reta conduta humana, pessoal, social, planetária e universal. Uma vida sem Ele é uma vida sem fundamento. O livro do Eclesiástico termina com um poema dedicado a Deus.

Nós ouvimos, na Primeira Leitura, o autor referir-se à primeira etapa da sua juventude. Ele andava perdido e procurava um caminho que lhe desse firmeza para seguir. Na segunda etapa da juventude, ele descobriu a sabedoria que procurava. Esse poema nos ensina que, quando procuramos a felicidade fora da sabedoria da Palavra de Deus, fora dos Seus mandamentos, caímos na ilusão. Repetimos o gesto do filho pródigo que procura a felicidade fora da casa do pai.

O Salmo afirma que a Palavra de Deus é conforto para nossa alma e alegria para nosso coração, é sabedoria para os humildes e para aqueles que a acolhem. Afirma ainda que a  Palavra de Deus é mais doce que o mel, é suave, é a força que recebemos para que a coloquemos em prática.

O Evangelho nos mostra Cristo, que é a Sabedoria Divina presente no mundo. O episódio narrado diz que Jesus se encontra em Jerusalém, no fim do Seu ministério; e quando Ele subia para Jerusalém,  por três vezes mostrou o anúncio de Sua morte, de Seu sofrimento. E o último anúncio é de Sua entrega aos sacerdotes, aos doutores da Lei, quando sofre muito, é injuriado, cuspido, batido e morto. Mas ressuscita no fim do terceiro dia.

De fato, não passava pela cabeça dos discípulos a ideia de um Messias sofredor e crucificado. Isso seria para eles e para os judeus um escândalo e grande contradição. Por isso, ficaram tristes e abatidos, seguiram Jesus de longe. Quando Cristo chegou a Jerusalém, viu que a casa de Deus tinha se transformado em um mercado de exploração, uma casa de ladrões. Ele, então, com autoridade moral e divina, expulsou todos do Templo. Jesus disse: “Esta casa será para todos os povos uma casa de oração”. Com essas palavras, o Senhor mostrou que Ele era o Messias não só dos judeus, mas o Salvador de todos os povos.

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“Nenhum pecado é limite para a misericórdia de Deus”, afirma Dom Benedito Beni. Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Depois que Jesus expulsou todos do Templo, os representantes do Sinédrio e os sacerdotes da lei quiseram matá-Lo. No outro dia, Jesus voltou ao Templo e os sacerdotes Lhe perguntaram: “Quem lhe deu a autoridade para expulsar as pessoas e pregar no templo?”. Jesus disse: “Eu só vou responder se vocês me disserem: “O batismo de João veio do céu ou da terra?”. João Batista, por meio de sua pregação e do batismo, procurava converter o povo a fim de que este acolhesse o Messias. João Batista disse: “Eis o cordeiro de Deus, que veio para tirar o pecado do mundo!”.

Se os doutores da lei dissessem que o batismo de João Batista viera do céu, eles teriam de acolher Jesus como o Messias; por isso disseram que não sabiam. Na verdade, não quiseram responder. Mas há uma outra razão que explica essa atitude falsa. Na Sagrada Escritura, há três imagens para designar o povo de Israel: “rebanho de Deus” ou “vinho de Deus”, que serve para produzir uvas doces e não azedas. O povo é chamado também de “figueira”, que era para dar frutos saborosos.

Quando Jesus estava perto de Jerusalém, São Marcos afirmava que aquele povo era como uma figueira seca. São Marcos conta a passagem da figueira a fim de fazer um advertência à sua comunidade, à Igreja e a todos nós. O pecado tem diversas consequências; a pior delas é fazer com que nos tornemos figueiras secas. Essa figueira à qual Jesus se refere é o nosso coração.

No início da Quaresma do ano passado, Papa Francisco afirmou: “A Igreja está vivendo um tempo de misericórdia, que deve iluminar os passos dela neste século. Este tempo de misericórdia teve início, há trinta anos, com o Papa João Paulo II, este grande santo que conservamos em nossa memória, que escreveu a Encíclica Dives in Misericórdia (Deus rico em misericórdia)”.

Depois no ano 2000, na celebração do grande jubileu da redenção da encarnação, o Papa João Paulo II canonizou a freira polonesa irmã Faustina, a qual viveu toda sua vida para divulgar a misericórdia divina. Essa freira viveu entre as duas guerras mundiais e acreditava que a misericórdia era o remédio para acabar com todas as guerras. Finalmente, o Papa São João Paulo II determinou que a Festa da Misericórdia fosse comemorada no segundo domingo  da Páscoa.

No Antigo Testamento, a palavra “misericórdia” significa “amor de mãe”. O profeta Isaías afirma que Deus nos ama com misericórdia, ou seja, com amor de mãe. Os nossos pecados podem ser muitos, mas a misericórdia de Deus é infinita. Nenhum pecado é limite para ela.

No Antigo Testamento, “misericórdia” tem o significado de “amor liberado”, o amor que não rejeita a carne do irmão. Meus irmãos, quando o próximo peca, não devemos jogar-lhe pedras, mas manifestar misericórdia. O fato de jogarmos pedras não mudará o coração de ninguém, por isso Jesus não joga pedras em ninguém, mas ama a todos com misericórdia.

A lógica dos homens é “dente por dente e olho por olho”, mas essa não é a lógica de Deus. Que a misericórdia ilumine os passos da Igreja neste século e os de cada um de nós.

Transcrição e adaptação: Jakeline Megda D’Onofrio. 

Adquira esta pregação pelo telefone: (012) 3186-2600

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Dom Benedito Beni


Bispo emérito da diocese de Lorena (SP)

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