O sacerdócio da amizade

O Sacerdócio da amizade

Padre Fábio de Melo. Foto: Daniel Machado/cancaonova.com

Não basta ser servo do Altíssimo; é preciso ser amigo d’Ele

“Eis o meu mandamento: Amai-vos uns aos outros como eu te amei, vos sois os meus amigos se fizerdes o que eu vos mando. Já não vos chamo servo, mas de amigos” (São João 15, 12-15).

Veja que revolução que Jesus faz com a relação que o povo tinha com Deus. O povo se comparava aos servos de Jesus. Existe um valor no servir, é uma forma de mostrar a nossa diligência. Você vai ao médico e é beneficiado pelo que a medicina lhe oferece, é uma relação interessante. No entanto, Jesus acredita e nos ensina que, na relação com Deus, é preciso um pouco mais do que o serviço, é muito mais que isso. É como se Jesus nos ensinasse que, se não colocarmos alma naquilo que fazemos, este serviço não tocará nas profundidades daquilo que Ele é.

O culto religioso também é uma dimensão física por meio do qual o nosso corpo se coloca de joelhos, e Jesus quer que, além dos nossos joelhos dobrados, nosso coração também se coloque de joelhos.

Cristo nos ensina que o amor a Deus toca na totalidade daquilo que somos e fazemos. Pode ser que, no seu serviço, você não coloque o seu coração. A filosofia diz que faltou o elã, isto é, disposição, entusiasmo, porque você não colocou o seu todo. Por isso o Senhor Jesus afirma que não basta ser servo do Altíssimo; que é preciso ser amigo d’Ele. Eu não tenho como renunciar a tudo o que me foi oferecido; e aprendi com o reitor da congregação, da qual eu fazia parte, que Deus não pode fazer absolutamente nada com as minhas obras se antes Ele não possuir o meu coração. Essa frase serve tanto para você que é um doutor como para quem não estudou nada. A qualidade da nossa vida depende da qualidade de afeto que nós colocamos em tudo o que realizamos.

Qualquer pessoa pode tocar um violão e uma música, mas é diferente quando ela coloca a sua alma ao fazer isso. Não basta ser servo da Comunidade Canção Nova e da Igreja se não formos amigo delas. Quando trabalhamos apenas por trabalhar, matamos o nosso corpo, mas quando somos amigos do trabalho e colocamos a nossa alma nele, ele tem vida.

Todas as vezes em que amamos alguém, um vínculo silencioso se constrói dentro de nós. Este é o Evangelho, o verdadeiro cristão é aquele que descobre o ofício de dar a vida pelos seus amigos. Não estou falando apenas dos amigos que colocamos dentro de casa, mas daqueles que descobrimos ao longo do caminho, que não conhecemos, mas que talvez sejam nossos amigos. Para nós não basta respeitar o limite da dignidade humana, é preciso amar a cada um. Somos convidados a trazer todos para dentro do coração. Desse modo, tiramos o pé da palavra “servo” e entramos no sentido da verdadeira amizade. Ainda que eu nunca entre na sua casa, e que você seja uma prostituta ou homossexual, eu preciso ser um irmão que o ama.

Eu não tenho o direito de lhe dizer que você não é meu irmão por causa da maldade que você fez! Assim como muitos ateus lutam pela dignidade dos homossexuais, nós devemos lutar pelo amor que precisamos ter por eles. Nós cristãos precisamos sair da “antessala” que nos faz querer só a dignidade humana, nós precisamos sair para amar as pessoas em todas as realidades em que elas se encontram de dor e de pecado. Talvez você diga: “Ai! Mas eu não consigo!”, e eu lhe digo que ninguém o amarrou na cruz, você é livre.

Ao construir o Santuário do Pai das Misericórdias a Canção Nova está nos dizendo: “Venha quem quiser”. E se alguém aqui lhe disser que você não é digno da misericórdia de Deus, não lhe dê ouvidos, porque foi um homem como o monsenhor Jonas, que não foi servo, mas amigo da humanidade e que tem a face da misericórdia, que o convidou. O monsenhor Jonas nunca enxergou o seu sacerdócio com uma vaidade. O nosso sacerdócio é para nos fazer mais amigos das pessoas.

O Sacerdócio da amizade

“Monsenhor Jonas Abib resolveu ser amigo da humanidade e dar a vida pelas ovelhas” ressaltou padre Fábio. Foto: Daniel Machado/cancaonova.com

São João Paulo II dizia que o povo participa diretamente do sacerdócio de Cristo. A Igreja nos ensina que o sacramento do batismo nos dá três múnus: sacerdote, profeta e rei. Esta palavra de João se refere à dimensão sacerdotal. Por intermédio do meu sacerdócio sou chamado a oferecer sacrifícios, além disso, devo oferecer no altar o meu orgulho, a minha vaidade e os meus pecados. Você também é chamado a oferecer, no altar da sua vida, a sua arrogância e o seu orgulho e tudo o que o distancia de Deus. Nós temos a oportunidade de ser sacerdotes nas pequenas coisas.

Em Mateus 25, quando Jesus fala do fim dos tempos, Ele elenca apenas atitudes amorosas, como esta: “Tive fome e me deste de come”. Se o rito do qual você participa, a Santa Missa para os católicos e o culto, para você que é evangélico, não o faz amar o outro, de nada isso valeu. De que vale participar de várias Missas e cultos se não houver um coração capaz de ser misericordioso?! Se a Eucaristia da qual eu participo não me ensina a viver a totalidade do amor, por mais difícil que este seja, é bem provável que eu seja um cristão “de carreira”. Se você não recrutar diariamente a sua vida para isso, de nada esta vai valer. Quando você se dispõe a ter um coração sacerdotal e misericordioso a sua vida muda na hora, assim como o seu casamento e seus filhos.

Quando as pessoas se casam elas têm toda aquela atração umas pelas outras, mas quando vai passando o tempo, esta atração vai acabando, e o que fica é o amor verdadeiro, que vai crescendo mesmo diante das imperfeições. Quando o vínculo amoroso nos ensina a dar a vida pelo outro, isso se torna amor fraterno, que é o único amor que não é capaz de acabar. Na eternidade nós somos todos irmãos e amigos e é este vínculo que nós precisamos buscar aqui e agora.

Eu tomei uma decisão: eu não quero ter contato com pessoas que não me ajudam a viver bem o meu sacerdócio. Eu vou orar por elas e amá-las, mas sem ter contato com elas. O mundo está cada vez pior. O inimigo de Deus e nosso tem nadado “de braçada” nas coisas do mundo. Por isso eu me pergunto: Quem são os amigos que têm me ensinado a ser sacerdote? A antropologia está cada vez mais modificada, porque o mundo está tirando o sacríficio das pessoas. O mundo está preguiçoso.

A propaganda enganosa não tem um mínimo de responsabilidade com as pessoas. O que vai ajudá-lo a emagrecer será sua disciplina e o cuidado com sua vida e não falsas promessas. Vir aqui gritar o “Hosana” é muito comprometedor. A nossa juventude está sendo ceifada pelas drogas, pelo álcool, porque, muitas vezes, falta um amigo sacerdote, e não me refiro a mim, mas a sacerdotes leigos. Precisamos zelar pela sacralidade dos outros. Os nossos filhos não têm amigos sacerdotes leigos que os salvem. Somos um território santo e precisamos ter amigos que sejam capazes de guardar a sacralidade que nós somos. Monsenhor Jonas Abib resolveu ser amigo da humanidade e dar a vida pelas ovelhas.

Antes de vir para cá, eu abraçava um amigo que sepultou a sua esposa há um mês, eles não tinham filhos, viviam vinte sete anos juntos. E ele me dizia: “Padre, eu não perdi só uma pessoa, tanta gente morreu naquela mulher”. Quando um se vai, é uma multidão que se vai com ela, porque o amor fraterno tem a condição de ser plural. Não se pode medir o valor de uma pessoa. Quando nós somos capazes de dar a nossa vida por alguém, nós saímos do lugar comum. Por isso o amor cristão é capaz de possuir as superfícies mais profundas do outro.

Quanto custa o que você ama? Quanto custam aqueles que você ama? Você não tem ideia do quanto custam aqueles que você ama, e por muitas vezes, por não assumir a graça do sacerdócio que nós recebemos do batismo, não damos valor às pessoas que estão do nosso lado.

Transcrição e adaptação: Jakeline Megda D’Onofrio


Padre Fábio de Melo


Sacerdote da Diocese de Taubaté – SP

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