A cura para os medos e para a ansiedade é a fé

A liturgia da Palavra de hoje nos fala da fé. Na primeira leitura, Abraão é apresentado como modelo de fé, pois ele ouve a voz de Deus. Talvez não compreendamos o ato revolucionário que acontece com a saída deste profeta [ Abraão] de sua terra. Podemos imaginá-lo dizendo à Sara que eles sairiam de sua terra porque Deus lhe pediu, mas quando o Senhor falou com ele, não havia revelado ainda o nome a ele.

Por que Moisés queria saber o nome de Deus? Na mentalidade antiga, ao se pronunciar o nome de uma divindade, esta seria forçaria a se fazer presente. Sabendo o nome, Moisés poderia, a qualquer momento, fazer com que Deus se fizesse presente, uma forma de controlá-Lo. Deus então responde que já está presente, e não pode ser controlado por ninguém.

A liturgia da Igreja chama Abraão de “nosso pai na fé”, pois ele começa algo novo que não existia antes dele: um Deus que não controlamos, mas que nos controla. A partir de Abraão, Deus quer nos modelar. Ele é o oleiro e nós somos o barro, por isso somos nós quem precisamos ouvi-Lo e obedecê-Lo.

O Evangelho nos coloca também diante da fé. Jesus convida os discípulos a passar para a outra margem, ou seja, a sair da margem deste mundo e passar para a margem da fé. O mundo perece dia a dia. Não só por causa da nossa decadência e dos nossos pecados, mas esta é a sua realidade. A cura para os medos e para a ansiedade é a fé.

Ouça "A Doença espiritual dos cristãos"


Sejamos bem sinceros: temos uma tendência materialista para não ter fé. Dentro de mim e de cada um de nós existe um homem que não tem uma fé suficiente. Se você é medíocre, como eu, que não consegue ser extraordinário no pecado nem nas virtudes, você sofre de uma doença espiritual chamada dipsiquia que é uma duplicidade, uma ambigüidade espiritual.

O Papa Bento XVI, o maior teólogo vivo da atualidade, diz no livro “Introdução ao Cristianismo“: “A fé é a conversão na qual o homem descobre que está seguindo uma ilusão ao se comprometer apenas com o palpável e o sensível”.

Se você quer ter fé, precisa mudar seu jeito de pensar. Estou dizendo que a falta de fé é contrária ao estado saudável. Santo Tomás de Aquino diz que a falta de fé é contrária à natureza humana. Um ser humano que não tem fé está num estado de anormalidade. Padecem desta doença os que não têm fé nenhuma, mas também os que não têm uma fé suficiente.

Quando você crê somente no que é palpável, começa a seguir ilusões. O mundo atual crê somente no que é palpável, sensível e, portanto, lhe dá prazer. E muitos já dizem que os que crêem são alucinados. Mas não existem pessoas mais alucinadas do que aqueles que colocaram sua confiança nas coisas materiais, pois tudo isso passa. Tudo o que é sensível passará. É um dado concreto e científico que até o planeta terra desaparecerá.

Você foi feito para Deus, não queira preencher sua vida com as coisas visíveis e sensíveis. Se você busca o paraíso sexual, também isso passará.

Você é cristão? Se você tem fé, fez a opção de que o invisível é mais real que o visível. O visível passa, o invisível não passará. O amor verdadeiro não passará, a atração física passará. O amor não é um sentimento, os sentimentos passam, evaporam. Nós descobrimos o que é o amor na cruz de Cristo, foi nela que Ele revelou o amor verdadeiro. Não fazíamos idéia do que era o amor, até que este fosse revelado na cruz.

Os cachorrinhos também sentem atração sexual pelas cachorrinhas, mas não amam. Não são capazes de ir renunciar ao alimento pelo outro. Quem ama é capaz de esquecer de si pelo bem do outro. A sua alma não pode ser medida, nem pode ser vista.

Nós vivemos uma vida praticamente escrava das coisas visíveis, colocamos nossa esperança num "barquinho" que vai afundar. Onde você tem colocado sua esperança? As coisas visíveis todas passarão e provocarão em você o mesmo desespero que os discípulos sentiram no Evangelho de hoje. Eles começam a se preocupar quando as ondas se levantam contra o barco e vão acordar Jesus. Mas Jesus era a única pessoa acordada naquele barco, pois os outros estavam preocupados em segurar apenas uma existência que passará.

Se você quer firmar o seu "barco", jogue a "âncora" dele no céu, o único jeito é optar pelo que não passa. Digo isso porque, como professor universitário, eu sei qual formação vocês têm recebido nas faculdades – totalmente materialista, preocupada somente com este mundo que passa. Nosso mundo é valioso e importante, mas ele passará.

Todos querem construir um paraíso aqui na terra, mas neste esforço, só conseguimos construir um inferno. Só existe um jeito para uma família ser feliz: desistir de construir um paraíso aqui para caminhar para o paraíso eterno.
Somos estrangeiros aqui, não há nada de sensível que possa nos saciar. Você é jovem e pode tentar saciar seu coração com as coisas deste mundo, mas saiba: não vai dar certo, pois você foi feito para Deus.

A pregação de padre Léo no 'Hosana Brasil 2006' foi um testemunho extraordinário, pois nos ensina a viver. Os cristãos antigos diziam que a arte do bem viver é aprender a morrer. Pense que tudo lhe será tirado e sua vida será diferente.

Papa Bento XVI nos ensina que o invisível é mais real que o visível porque não passa. Por isso precisamos de uma mudança de vida. Nós vivemos, infelizmente, uma vida cheia de pecados que são principalmente fruto do apego às coisas visíveis e palpáveis. Padre Léo nos disse “Quando eu era mais novo, eu tinha pena de quem era feio; agora, tenho pena de quem não tem fé”. São Domingos de Gusmão passava horas na igreja chorando e dizendo “Senhor, o que será dos pecadores?”. Se para nós, que temos fé, é duro perder tudo para dar o salto na fé, imagine como é terrível alguém sem fé se deparar com sua morte certa.

Ouça "O que é a vida?"


Quem já foi tocado por Deus sabe que se este mundo aqui não é a única realidade, ele na verdade é uma piada de mau gosto. As felicidades que nos oferecem não valem a pena, isso já foi constatado até mesmo por ateus.
O filósofo pessimista, Arthur Shopenhauerm, dizia que a vida é como uma semana “seis dias de dor e sofrimento no trabalho e um dia de tédio” e que as alegrias da vida são como uma esmola colocada num prato de um mendigo. Com elas, o mendigo consegue sobreviver, mas não o tira da miséria, é suficiente para que ele continue sofrendo. O mundo não é capaz de nos saciar completamente.

A visão cristã diz que qualquer coisa boa é uma promessa de céu. Se você é sábio o suficiente para desfrutar as belezas dessa vida, sabendo que são promessas de céu, então, a vida adquire uma cor diferente. Agradeça a Deus pois se conseguimos vislumbrar a alegria nesta terra, como não será no céu!

Esta não é nossa morada definitiva, nosso lugar é o céu. Lutemos contra a opressão, a pobreza e a injustiça, mas não caiamos na ilusão de construir o paraíso aqui na terra. Todos que tentaram fazer isso só produziram um inferno, por isso Hittler e Stalin mataram tantos. Esta terra não é capaz de ser paraíso para nós. 

Transcrição: Tatiana Gomes
Fotos: Natalino Ueda


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