Caridade, obra de misericórdia espiritual

Professor Felipe Aquino
Foto: Wesley Almeida/CN

Deus conhece os nossos sofrimentos, sabe que cada um de nós sofre. Ele é Todo-poderoso, onipotente, pode tudo! 

O pecado é a grande ação do demônio; ele quer nos fazer pecar, quer que não obedeçamos a Deus. Quando preferimos fazer a nossa vontade a fazer a vontade d'Ele, estamos pecando; e o salário do pecado é a morte.

Deus é Pai, mas não é paternalista. Ele não fica consertando os erros dos filhos; se estes erraram, terão de pagar por seus erros. Para isso existe o purgatório. Se Deus tirasse de nós todo o sofrimento, nós não nos lembraríamos d'Ele. Quando a "coisa está feia" nós nos lembramos d'Ele, agarramo-nos em Suas mãos. O Senhor utiliza-se do sofrimento como matéria de salvação. Quando levamos o filho para tomar uma injeção, para fazer uma cirurgia, o fazemos por amor; assim também é Deus, Ele corta no corpo para salvar a alma.

Estamos muito preocupados com o corpo, mas o Senhor se preocupa com a alma. O pecado original faz com que fiquemos agarrados à terra. O homem espiritual é aquele que tirou os olhos da terra e começou a olhar para o céu.

A Quaresma é o tempo em que nos recolhemos para Deus. A Igreja nos chama a viver o jejum, a esmola e a caridade. Ele nos convida a jejuar de diversas formas, a orar e dedicar mais tempo a Ele. Hoje, vamos falar da esmola, que não é aquele dinheiro que você dá ao necessitado, mas a caridade.

Existem dois tipos de caridade: a particular, que fazemos com o que é nosso; e a caridade que cabe ao Estado. A Igreja diz que a política é a arte de fazer a caridade, o bem para todos.

A justiça é dar ao outro o que é dele, já a caridade é dar aos outros o que pertence a nós. A caridade é mais importante que a justiça. O Papa João Paulo II afirmava que “a misericórdia é o braço direito de Deus”. Existem coisas que nem a justiça e o direito podem resolver, somente o amor.

A esmola é o remédio contra a ganância e a avareza. O avarento não gasta dinheiro consigo, muito menos com os outros. São Paulo afirma a Timóteo que: “A raiz de todos os males é o dinheiro”. Como aconteceu com Judas, que era o tesoureiro e se deixou tomar pelo dinheiro.

Se você é preguiçoso, o remédio que você precisará é acordar cedo e ir trabalhar. Se você é guloso, seu remédio será o jejum. Mas se você é avarento, seu remédio será a esmola.

Seremos julgados. Está escrito, várias vezes, na Bíblia. “Está determinado que cada um morra uma vez e em seguida seja julgado”. É claro que, depois da morte, tudo o que tivermos confessado não será revelado; esses pecados foram apagados no sacramento da reconciliação.

"A revolução que precisa acontecer, no Brasil, não é a das armas, mas a do voto!", exorta o professor
Foto: Wesley Almeida/CN

A Palavra de Deus também diz: “Guardai-vos, cuidadosamente da avareza”. A riqueza não é o mal, ruim é colocar a confiança nela. O bem ou o mal não consistem na riqueza, mas no uso dela.

"Perde o teu dinheiro em favor de teu irmão e de teu amigo; não o escondas debaixo de uma pedra para ficar perdido. Gasta o teu tesouro segundo o preceito do Altíssimo, e isso te aproveitará mais do que o ouro. Encerra a esmola no coração do pobre, e ela rogará por ti a fim de te preservar de todo o mal. Para combater o teu inimigo, ela será uma arma mais poderosa do que o escudo e a lança de um homem valente" (Eclesiástico 29,13-18)

O Papa Francisco, no dia 1° de janeiro, disse que só há um jeito de existir fraternidade no mundo, quando todos se sentirem filhos do mesmo Pai. Toda a Lei de Deus está resumida em dois mandamentos: amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Quando perguntaram a Jesus quem era o próximo, Ele contou a história do Samaritano:

“Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu de estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar, pagarei todas as despesas que você tiver'. 'Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?', perguntou Jesus. 'Aquele que teve misericórdia dele', respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: 'Vá e faça o mesmo.'" 

Quem é o nosso próximo? É aquele que está à sua frente sofrendo. A caridade precisa ser feita para aquele que está próximo, pode ser o vizinho, a esposa, o filho, o empregado, o patrão. Fazer o bem faz bem. Dom Bosco diz que “Deus nos colocou neste mundo para os outros”.

Quer sair da depressão? Saia da sua casa e ajude os outros. A melhor maneira de encontrar a nossa felicidade é fazer a felicidade de alguém. Precisamos olhar ao nosso lado, olhar atrás de nós. Antes de chorar o que não temos, devemos agradecer o que temos. Ser rico não é ter muito, mas precisar de pouco.

"Ser político é a arte de fazer caridade para o bem comum", afirma prof. Felipe.
Foto: Wesley Almeida/CN

A caridade é critério do juízo final: “Todas as vezes que você deu de comer ao pequenino, foi a mim que destes de comer”. Se não tivermos essa sensibilidade com o irmão, seremos cobrados.

João Paulo II diz que: “O povo tem mais sede de Deus do que de pão”. O sofrimento da alma é mais doloroso do que o sofrimento do corpo. Quando alguém falece ou quando uma pessoa está aflita, triste, sofrendo com um filho, porque este está nas drogas, e você dedica um tempo a esta pessoa, sendo presente, ouvindo-a, orientando-a, isso é uma obra de misericórdia espiritual.

Cabe ao Estado a caridade social. Estamos com uma mentalidade de que política não presta, mas, na verdade, o que não presta é a politicagem. Há o político honesto, aquele que é de Deus, que se preocupa com o bem comum. O politiqueiro dá uma cesta básica. Isso não está certo, porque não podemos vender nossa consciência.

Segundo o Papa Francisco: “Envolvermo-nos na política é uma obrigação, pois ela é uma forma de caridade”.

O Catecismo da Igreja afirma: “Um sistema que sacrifique os direitos fundamentais das pessoas e dos grupos à organização colectiva da produção é contrário à dignidade humana. Toda prática que reduza as pessoas a não serem mais que simples meios com vista ao lucro, escraviza o homem, conduz à idolatria do dinheiro e contribui para propagar o ateísmo. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” (Parágrafo 2424)

O Papa Francisco dá uma ordem aos fiéis: “Os leigos cristãos devem trabalhar na política, porque ela está muito suja. E por que está suja? Porque os cristãos não entraram nela com espírito evangélico”. 

João Paulo II, no documento Christifideles laici, parágrafo 42, sobre a política: “A caridade que ama e serve a pessoa nunca poderá estar dissociada da justiça: uma e outra, cada qual à sua maneira, exigem o pleno reconhecimento efetivo dos direitos da pessoa, a que é ordenada a sociedade com todas as suas estruturas e instituições”.  Não devemos ter medo da política, ela é de Deus. O bom político pega o nosso dinheiro, por meio dos impostos, e o redistribui para quem precisa dele na saúde, nas escolas, etc. Temos de perder o medo da política, precisamos ser conscientes do nosso voto, porque somos nós quem escolhemos os políticos. O Brasil é um dos países mais corruptos do mundo, e é o país que mais cobra impostos.

Ser político é saber administrar bem, é a arte de fazer caridade para o bem comum. Temos de viver a política de maneira correta! Não podemos dar nosso voto para quem não o merece. Procure saber se o candidato é uma pessoa que cumpre os princípios morais da Igreja, se ele tem um passado limpo. Depois de eleito, temos de acompanhar se ele está trabalhando direito, pois nós o pagamos para trabalhar. Se o político perceber que vai perder o seu voto, ele muda.

Se não mudarmos o país em termos de administração, o pobre não vai receber o que precisa. A revolução que precisa acontecer, no Brasil, não é a das armas, mas a do voto! Precisamos mudar a cultura do povo. É necessário santidade e caridade na política.

A Igreja tem sua doutrina social em várias Encíclicas, desde Leão XIII com a Rerum novarum. Ela ensina a caridade cristã. No Catecismo, parágrafo 2424, vemos: “Uma teoria que faça do lucro a regra exclusiva e o fim último da atividade econômica é moralmente inaceitável. O apetite desordenado do dinheiro não deixa de produzir os seus efeitos perversos e é uma das causas dos numerosos conflitos que perturbam a ordem social” . A Igreja diz que se deve ter lucro, sobretudo preservando a dignidade humana.

A Campanha da Fraternidade, deste ano, aborda o tráfico humano e o trabalho escravo. Na era do celular, há pessoas trabalhando em troca de um prato de comida e uma cama para dormir; crianças trabalhando para ganhar alguns "trocados". É um absurdo! O maior tráfico é o de mulheres, que são traficadas para ser objeto sexual. Isso não vem de Deus. Precisamos mudar nossa cultura.

Transcrição e adaptação: Rogéria Nair

 


Prof. Felipe Aquino


Doutor em engenharia mecânica, pregador e escritor

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