Do discípulo nasce o missionário

Jesus Cristo chama e forma seus seguidores, seus discípulos. \”Vinde e Vede\”, ele disse aos dois discípulos de João Batista que o procuraram, estimulados pelo próprio Batista. Jesus se encontra por algumas horas e os transforma em seus discípulos. Deste encontro eles saem entusiasmados com o que viram, ouviram e experimentaram. Esta experiência intensa os impele a ir contar a outros o que viveram e assim procuram levar a esses por sua vez a Jesus para que eles também possam conhecê-lo, sentirem-se amados, descobrirem que ele é o verdadeiro Messias prometido ao mundo e seu projeto. Ou seja, o discípulo, pela intensidade da experiência feita com Cristo e pela adesão forte a ele que disso resultou, transforma-se em missionário, em testemunha de Jesus, missionário que vai em busca de outros e os conduz a Jesus Cristo. O missionário é isto desde o tempo de Jesus e ainda hoje esta é a missão da Igreja e de todo seguidor(a) de Jesus: ir em busca das pessoas, das comunidades, dos povos, da humanidade inteira e conduzi-los a Jesus Cristo para que este os transforme e os salve. De fato, o verdadeiro discípulo transforma-se em missionário permanente e ardoroso. Quanto mais intensamente ele é discípulo, mais ardoroso missionário é.

Na medida em que Jesus foi encontrando e formando mais e mais discípulos, ele os reúne em comunidade ao seu redor e prossegue na sua transformação também na dimensão comunitária. Jesus quer uma comunidade, um povo, que será sua Igreja, uma Igreja de discípulos de Cristo.. Durante seus três anos de vida pública ele mantém seus discípulos junto a si e os vai transformando, ao mesmo tempo em que aos poucos os vai em missão, para, finalmente, no momento de voltar ao Pai, após sua ressurreição, Ele os envia definitivamente em missão: \”Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Fazei que todas as nações se tornem discípulos\”(cf. Mc 16,15 e Mt 28,19).

Portanto, é a Igreja que vai em missão e cada missionário fará sua missão em comunhão com a Igreja. De fato, Jesus, desde o início de sua vida pública, mostra que seu projeto é reunir os filhos de Deus dispersos e reuni-los como comunidade e povo de Deus. Esse povo terá como lei o amor, o amor a Deus e ao próximo. \”Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros\” (Jo 13,35). É na comunidade de Jesus que seus discípulos, em especial o grupo do Doze, inicia e vive este projeto. Assim como o próprio Deus é uma comunidade divina de três Pessoas que se amam infinitamente e nisto consiste seus ser, sua vida e sua felicidade, assim também a humanidade toda deverá constituir-se num grande povo que vive o amor mútuo no horizonte de seu amor a Deus, à luz de sua comunhão com Deus.

A comunidade que Jesus fundara, essa comunidade de seus discípulos, após a volta de Jesus ao Pai, por sua vez faz novos discípulos e, por sua vez, os reúne em novas comunidades. Assim se desenvolve a Igreja nascente: um povo de comunidades e um mistério de comunhão. Esta Igreja nascente foi profundamente missionária, atendendo ao mandato missionário de Jesus no momento em que Ele voltou ao Pai. Ora, este mandato atravessa os tempos e chega até nós. Somos nós hoje os portadores deste mandato. Este é nosso desafio e nossa tarefa, ser missionários hoje. A Igreja é missionária primeiro através de seus pastores, mas também de todos os seus demais membros, guiados e animados por seus pastores. Está aqui o nosso desafio atual: até que ponto nós, bispos, e nossos padres, somos missionários que saímos em busca de quem está longe de Jesus Cristo? Até que ponto estamos transformando nossas comunidades em comunidades missionárias, chamando leigos e leigas, formando-os para a missão e enviando-os com coragem e ânimo, dando-lhes também uma adequada autonomia de trabalho, pois são adultos na fé e receberam o Espírito Santo para a missão, nos sacramentos do batismo e da crisma?

Quanto aos destinatários da nossa missão, é preciso que sejamos muito concretos e realistas. Na verdade, muitas vezes nos refugiamos num belo discurso sobre a natureza missionária da Igreja ou falamos de missões longínquas, para as quais enviamos algum missionário, mas nem sempre arregaçamos as mangas e abrimos os olhos para ver como está o nosso próprio povo, aquele povo que nos foi confiado concretamente, aquele da nossa diocese, das nossas paróquias, das cidades e campos em nosso território, ali aonde fomos enviados para sermos pastores e missionários. Como está este povo, que na sua quase totalidade foi batizado por nós ou nossos antecessores. Este povo católico, que foi batizado e por esta razão tem o direito de ser evangelizado por nós. É claro que ele tem o direito também de optar por outra religião, pois a liberdade religiosa e de consciência é direito sagrado. Mas no dia em que batizamos essas pessoas, assumimos o dever de conduzi-las a Jesus Cristo e reuni-las em comunidade eclesial. Mas agora constatamos que uma grande parcela, geralmente mais da metade, está afastada da prática religiosa, não participa de nossas comunidades nem foi de verdade evangelizada. Outros por um tempo participaram e se sentiram felizes em sua Igreja de origem, mas depois por diversas razões acabaram se perdendo no meio do caminho e nós não fomos buscar a ovelha perdida.

Talvez alguns de nós, pastores, ao darem-se conta que são tantos os que se afastaram ou sempre viveram afastados, estejam meio desiludidos da missão, prefiram não enfrentar o problema e se conformem, infelizmente, procurando tal ou qual justificativa.

Mas não! É preciso reverter este desânimo. Pois, a Igreja é essencialmente missionária. Nós, pastores, somos missionários por vocação. Sem esquecer que todos os membros de nossas comunidades, os leigos, são chamados a serem missionários, segundo seu estado de vida. Felizmente, muitos deles hoje estão pedindo para serem convocados, melhor evangelizados, renovados como discípulos, formados e finalmente enviados como missionários. Urge, portanto, estimular a consciência e a prática missionárias, em primeiro lugar em nossos próprios e respectivos territórios e comunidades. Urge ir em busca dos católicos afastados e de todos que pouco ou nada conhecem de Jesus Cristo. Urge conduzi-los a um encontro pessoal com Jesus Cristo. O bispo é e deve ser o grande animador desta Igreja missionária, sendo ele mesmo missionário e estimulando a formação e envio de mais e mais missionários, em primeiro lugar no território de sua própria Igreja Particular, sem esquecer da ajuda missionária a outras Igrejas Particulares carentes.

Não poderíamos deixar de lembrar mais uma vez a grande evasão de católicos que vem ocorrendo no Brasil e na América Latina, em geral, sobretudo nas periferias pobres urbanas. Estamos perdendo justamente os pobres, porque não conseguimos chegar adequadamente a eles e evangelizá-los. Mas, repito, a maioria deles foram batizados por nós e certamente esperaram muito tempo por nós, antes de passarem a outras confissões religiosas ou a uma total indiferença religiosa. Neste contexto, o problema dos jovens das periferias pobres tem certamente especial relevância, porque deles depende o futuro da Igreja na periferia. Desse modo, a missão nas periferias pobres apresenta uma urgência especial. Como realizar essa missão na periferia? Certamente, será necessário conjugar muito bem a evangelização religiosa propriamente dita com a solidariedade, o combate à desigualdade, à miséria e à fome, numa ampla promoção da justiça social.

Uma forma de missão eficaz são as visitas domiciliares missionárias, em especial no meio dos pobres, mas também das outras classes sociais. Essas visitas missionárias têm mostrado sua eficácia em muitos lugares em que são bem preparadas e bem conduzidas. Elas conseguem também conjugar a evangelização com a solidariedade, a caridade. Há metodologias já provadas e até publicadas em livros. Mas cada um pode reinventá-las, segundo as características da sua região e das pessoas a serem visitadas. Fundamentalmente trata-se de preparar bem um grupo de missionários(as) e depois enviá-los. Ao voltarem das visitas, será preciso revisar o que foi feito e aprofundar as questões colocadas. Portanto, trata-se de formação na ação.

Nas próprias visitas, começa-se por ouvir as pessoas ou famílias visitadas. Elas falarão na medida em que tiverem confiança nos visitadores. Falarão de seus sofrimentos e de suas aspirações e projetos. A partir daí os visitadores devem ser capazes de consolar e então abrir o livro dos Evangelhos para ler algum trecho que leve as pessoas visitadas a ter um contato com Jesus Cristo, sua mensagem, suas atitudes e seu amor. Será um pequeno encontro com Jesus Cristo. Será imprescindível também analisar durante a visita a questão das causas do sofrimento dessas pessoas, principalmente se são pobres, saber orientá-las onde poderão receber ajuda e solidariedade e manifestar-lhes que a Igreja quer lutar junto com os pobres para vencer a pobreza. As pessoas devem sentir que Deus as ama e não as quer perder e que a Igreja também as ama e quer acolhê-las e acompanhá-las. Não deixar de rezar junto com as pessoas e finalmente, prometer voltar dentro de algumas semanas ou a qualquer momento em que a pessoa ou a família visitada precise. Depois, será preciso cumprir a promessa e realmente voltar e acompanhar a vida de quem foi visitado.

Na medida em que as pessoas visitadas se prontificarem a novamente participar da comunidade, cumpre recebê-las adequadamente na comunidade, de forma que elas se sintam bem integradas e amadas. Será importante criar, para essas pessoas, pequenas comunidades de apoio ou encaminhá-las a outras organizações de leigos que as possam apoiar. Não esquecer que a paróquia deve organizar-se para visitar não apenas algumas famílias de seu território, mas todas. Além disso, esta missão nunca tem encerramento. Será um processo permanente, que deverá fazer parte da vida e da dinâmica quotidiana da paróquia.

Não poderia deixar de recordar também a questão especial da evangelização dos jovens, vista a sua importância e porque é tema central desta nossa assembléia. Como fazer deles discípulos e missionários de Jesus Cristo? Que os jovens são uma prioridade para a Igreja, já se disse muitas vezes. Mas freqüentemente não passou de um discurso de boa vontade, mas que não teve conseqüência suficiente. Hoje, precisam ser mais analisadas e conhecidas a realidade dos jovens e a importância de evangeliza-los. Isso faz-me lembrar da \”Marcha para Jesus\”, que é promovida por uma das novas Igrejas neo-pentecostais e em São Paulo cada ano consegue reunir centenas de milhares, senão um milhão, de jovens e adolescentes. Não podemos concordar com toda sua metodologia nem com todos os conteúdos de sua pregação. Mas impressiona o fato que tantos jovens se sentem atraídos e sempre voltam de novo a esta marcha. Nós, se temos um pequeno grupo de jovens nas nossas paróquias já estamos felizes, quando na verdade em cada paróquia há dezenas de milhares de jovens que foram batizados por nós, mas não participam de nossa comunidade. Hoje, graças a Deus, já se procura um trabalho conjunto entre Pastoral da Juventude e Movimentos Eclesiais de Leigos que às vezes reúnem milhares de jovens e procuram evangelizá-los. Isso mostra que novos caminhos deverão ser procurados, sem perder as experiências positivas do passado.

Como levar os jovens e adolescentes a ter um encontro forte e pessoal com Jesus Cristo? É disso que se trata em primeiro lugar. Os jovens de hoje estão famintos de encontros pessoais, que alimentem sua subjetividade e busca de felicidade. Jesus Cristo os busca para este encontro, mas espera que nós os conduzamos a ele. Recordo de quando o Papa João Paulo II, no Jubileu dos Jovens, no ano 2000, em Roma (eu estava lá), recebeu os mais de dois milhões de jovens e clamou alto para a multidão que o ouvia atenta e silenciosa: “O que vocês vieram procurar em Roma?” E então, depois de um pequeno silêncio, clamou e disse: “Não é isso. O que pergunto é: a quem vocês vieram procurar em Roma?”. E então refletiu com os jovens que eles não vieram a Roma para procurar alguma coisa, algumas idéias, um projeto teórico ou diversão e consumismo. Não! Eles vieram procurar não uma coisa, mas alguém, a saber, Jesus Cristo e o papa queria conduzi-los a este encontro com Jesus.

Entre as dificuldades que temos de evangelizar os jovens parece estar o fato de não procurarmos saber melhor o que eles desejariam encontrar na Igreja que os convoca. Temos talvez a tentação de preparar propostas prontas, sem ouvi-los suficientemente. Às vezes, parece que não somos bastante atentos ao fato que os jovens buscam na religião em primeiro lugar luz para seus problemas subjetivos, suas aspirações pessoais e seus questionamentos existenciais. Às vezes, temos pressa demasiada em torná-los militantes de alguma causa social e política, por mais nobre que esta seja.

Como então adequar bem estes dois aspectos em nossa abordagem dos jovens. Ambas as coisas são importantes para um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, mas o caminho pedagógico deve levar em conta a peculiaridade da idade juvenil e de suas carências e buscas religiosas. O importante é que eles se abram e se deixem conduzir a um encontro forte e pessoal com Jesus Cristo, que se deixem invadir por Jesus Cristo, que se deixem encantar e seduzir por Jesus Cristo, para que ele os possa transformar em discípulos prontos a segui-lo, prontos a reunir-se com os demais discípulos de Jesus na comunidade dele, uma comunidade de fraternidade e amor, que é a Igreja, prontos a segui-lo também na obra da construção de um mundo mais humano, fraterno, justo, solidário com os pobres e pacífico, construção essa que passa também necessariamente pela política.

Mas a nossa missão deve alcançar todas as camadas sociais e todos os ambientes de que se compõe a sociedade. Cito as escolas e universidades, os hospitais, as indústrias e o comércio, os ambientes culturais e artísticos, o mundo das comunicações e da informática, o mundo dos que fazem a política e dos que detêm o poder político, o mundo do mercado e das finanças, o mundo dos empresários, dos trabalhadores, da segurança pública, do sistema penitenciário e assim por diante. São grandes campos de missão, areópagos do mundo moderno, como os chamava João Paulo II, na sua encíclica Redemptoris Missio. Para penetrar com o Evangelho nestes ambientes precisaremos muito de leigos e leigas, que já se tenham convertido em discípulos ardorosos de Cristo.

Outra questão importante para a missão é o diálogo. Hoje, talvez mais do que no passado, entendemos que o diálogo tem importância vital para o mundo. O diálogo se mostra como grande caminho de superação dos conflitos, inclusive religiosos. Contribui também para o enriquecimento mútuo das posições dos dialogantes.

A Igreja, por seu lado, tem se empenhado no diálogo com as outras confissões cristãs, com o judaísmo, com as demais grandes religiões do mundo, entre as quais hoje se tornou mais visível o islamismo. A Igreja também procura dialogar – e precisa aprofundar muito mais ainda esse diálogo – com as ciências, especialmente na área das biotecnologias e da bioética, com a cultura em geral, com a sociedade civil, enfim com o mundo.

Mas o diálogo não torna impossível a missão? Não, certamente. João Paulo II já respondeu magistralmente esta questão na sua Redemptoris Missio. Anúncio e diálogo não se contrapõem, não se contradizem. Na verdade, cada um dos dialogantes deve dar sua contribuição de conteúdos ao diálogo e este conteúdo é sempre um anúncio para o parceiro no diálogo. O anúncio na verdade é necessário para o diálogo, senão o diálogo se torna um monólogo a partir do outro lado. O anúncio também enriquece o diálogo e faz chegar a novos horizontes.

Finalmente, a missão deve ser inculturada. Esta será também a contribuição que a 5a. Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho quererá dar, ou seja, situar nossa missão na cultura latino-americana e no momento histórico desta cultura, bem como na cultura e no momento histórico do mundo, onde vivemos uma época de constantes mudanças culturais e uma nova cultura, a chamada pós-moderna, vai se alastrando, ao mesmo tempo em que uma nova ordem econômica mundial, globalizada e de mercados abertos e livres vai se impondo e excluindo centenas de milhões de pessoas e países inteiros, como Haiti e diversos países africanos. Essa exclusão trouxe desemprego colossal praticamente em todos os países, fez crescer a miséria e a fome, desencadeou terrorismos, guerras e violências de toda ordem. É neste mundo de hoje que devemos fazer missão e ser capazes de testemunhar a ressurreição de Jesus Cristo, testemunhar portanto a vitória de Deus sobre o mal e a morte, a vitória do valor sagrado da vida humana, testemunhar a justiça, o direito, o amor, a fraternidade e o perdão como forças de construção da paz e da dignidade humana de todos. É neste mundo agitado e dinâmico de hoje que devemos conduzir as pessoas, os grupos, as nações a um encontro com Cristo, como Ele mesmo nos mandou:
\”Ide por todo mundo, pregai o Evangelho a toda criatura (…) Fazei que todas as nações se tornem discípulos\” (Mc 16,15 e Mt 28,19).

Meus caros, procuremos neste retiro renovar em nós este espírito missionário. Se nossa Igreja aqui na América Latina e no Brasil não se tornar urgentemente muito mais missionária do que hoje, ela terá grandes problemas no futuro. Aliás, João Paulo II não se cansava de falar de uma nova evangelização em todo o mundo e na passagem do milênio nos encorajou fortemente, estimulando toda a Igreja e convidando-nos a levar o barco para o alto mar, sem medo e com esperança, porque o Senhor Jesus Cristo nos acompanhará na pesca, que será abundante. \”Duc in altum\”.

Mas para sermos missionários, devemos ser profundamente discípulos e o discípulo se forma no encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo.


Cardeal Dom Cláudio Hummes


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