Experiência de um missionário

Eu queria conhecer a Canção Nova há muito tempo, então, telefonei para o padre Jonas e ele me convidou para vir até aqui e falar um pouco da minha experiência missionária.

Desde criança, eu gostava de ler revistas que falassem das missões. Quando falei que queria ir para o seminário, meus pais disseram que não. Havia um irmão mais velho que já havia pedido isso, então, esta era prioridade dele. Eu disse-lhes que se soubesse disso teria nascido primeiro. Meu irmão entrou para o seminário, mas viu que não tinha vocação e saiu e hoje é casado.

Entrei para os salesianos, pelo interesse na vida de Dom Bosco, e lá manifestei minha vontade de sair em missão fora do país. Primeiro, interessei-me pela China, depois pela África do Sul, mas não pude ir para nenhum desses países. Mas meu interesse pela África só aumentou com o passar dos anos. E fui enviado para este continente em 1974, para o Burundi. Este país tem entre seis e sete milhões de habitantes. Foi protetorado da Alemanha, mas depois da Segunda Guerra Mundial, passou para a Bélgica.

Os primeiros missionários chegaram ao Burundi em 1898. Eram os "padres brancos" e eram chamados assim porque usavam batinas brancas. Eles chegaram de navio, e além de enfrentarem as doenças, tinham de conviver com os feiticeiros, os quais buscavam proteger a sua crença. Quando eles começaram a falar de Jesus, esses feiticeiros começaram a persegui-los, e muitos deles foram assassinados ou envenenados. Depois os perseguidores foram os árabes, que também ficavam muito incomodados com a pregação do Evangelho.

O regime republicano trouxe muitas guerras para o país. Houve tentativas de revolução. Assim, foi proclamada a 2ª República de Borundi. E entre 1984 e 1987, a perseguição aos católicos se acirrou, e muitos deles foram presos. As missas não podiam ser celebradas em horário de trabalho, não se podia ter grupo de jovens, todas as cruzes foram arrancadas e não podiam mais ficar à mostra.

Em 1992, houve o Multipartidarismo, que permitiu as eleições livres. O primeiro presidente foi assassinado, com isso, toda a perseguição começou novamente. Crianças queimadas, pessoas baleadas, há uma grande dor naquele povo. É um país muito pobre e miserável, há muita dificuldade para conseguir comida. Existem pessoas lá que se alimentam apenas uma vez por dia.

Os católicos são a maioria da população no local. Lá, os bispos são todos africanos. O povo faz longas caminhadas para participar da santa Missa, muitos chegam a andar duas horas a pé. É um povo fiel, na chuva ou no sol, mesmo com essa longa distância, participa da Celebração Eucarística.

Uma doença muito difundida no Burundi é a AIDS. O maior fator de contaminação é devido a agulhas contaminadas. Não havia no país agulhas desinfetadas, elas eram reutilizadas para vários pacientes. Além dessa enfermidade, a malária e o câncer são outros grandes fatores de doença.

Mas acima de tudo, é um povo dedicado e afetivo. Há neles uma doçura peculiar.

Que vocês possam rezar pelas nossas missões nesse país tão sofrido, mas tão bonito.


Padre Vicente Gonçalves, SDB


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