Homilia da Santa Missa

Padre Roberto Lettieri
Foto: Wesley Almeida / Fotos CN

A passagem bíblica dos discípulos de Emaús é sem dúvida uma das passagens mais conhecidas do Evangelho. Ela fala muito ao nosso coração, pois, se prestarmos atenção, perceberemos que aquilo que aconteceu com eles faz parte das nossas vidas. Primeiro a dureza de coração, que é um dos nossos pecados, o que permite que Jesus fique triste, embora Ele não seja triste, pois Ele é o Senhor da alegria plena. A dureza de coração faz mal a nós mesmos, seja ela diante do Senhor ou diante dos outros. Na verdade, o orgulho faz endurecer o coração, causa cegueira, as pessoas nos falam, nos orientam, insistem com aquilo que Deus quer, porém não queremos enxergar e isso vai causando em nós uma cegueira e nos fechamos em nosso mundo. Passa a existir somente uma realidade: a do nosso pequeno mundo, não há mais um olhar para a Ressurreição, não há mais um ato de esperança.

Podemos crer ou não que Jesus celebrou a Missa para os discípulos de Emaús. Alguns teólogos dizem que sim, outros dizem que não, porém, isso não é o mais importante. O fundamento está exatamente no amor com que Jesus se revela, no ato, na entrega e na sinceridade em que o Senhor fala a eles. No seguimento de Jesus não podemos deixar de escutar as palavras duras que o Senhor nos fala, para que voltemos a ter um coração de carne, sensível. E entre a dureza de coração está a insensibilidade com a presença de Jesus, com Ele na presença de seu Espírito. Quantas vezes na vida sentimos o Senhor falando conosco em diversos momentos e ocasiões e teimamos em manter nossos corações duros!

O túmulo vazio não é a prova maior de que o Senhor está vivo, a prova maior é nosso testemunho, a nossa obediência ao Espírito de Jesus Cristo, a sensibilidade de perceber que o Senhor Jesus está ao nosso lado e que não podemos viver como se Ele estivesse morto. O auge de um coração duro é rejeitar Jesus, mas a dureza maior em relação ao Senhor é daqueles que fingem e não querem escutá-Lo; quando alguém se fecha em seu mundo para não escutá-Lo.

Como não falar dos oprimidos, se eles estão pelas estradas da vida, sem rumo, sem esperança; e quando falamos deles, como não nos lembrar dos discípulos de Emaús, também andando com tristeza, pois esperavam por um líder politico que os libertasse da opressão romana, e não foi assim que aconteceu.
Não acreditar que Jesus está conosco é muito doloroso, pois Ele está conosco. Jesus foi uma presença extraordinária de amor, de esperança e de paciência para eles, Ele foi explicando as Sagradas Escrituras; foi o Senhor também quem tirou a água da rocha para Moisés dar ao povo de beber; assim como foi Ele quem abriu o Mar Vermelho. Foi Ele quem realizou todas as maravilhas, então, Ele vai explicando as Escrituras a eles, mas os corações estavam duros.

'Não acreditar que Jesus está conosco é muito doloroso, pois Ele está conosco'
Foto: Wesley Almeida / Fotos CN

A Ressurreição de Jesus não consiste em colocar em prática suas obras, não depende de nós, Ele está vivo. A graça de poder ver Jesus, de poder reconhecê-Lo é extraordinária.
Quantas vezes Jesus se manifestou e nós não O reconhecemos, e mesmo assim, Ele continua conosco até o momento em que deixemos de ter o coração endurecido.

Sem Ele não podemos mais viver e na "nossa estrada", no "nosso caminho de Emaús", Jesus estará conosco. Neste mundo de exclusão, muitos esperam que nós sejamos a esperança de Jesus na vida deles, que proclamemos a eles: "Meu filho, minha filha, Jesus está vivo e eu estou entrando em sua vida por causa d'Ele". Sair do egoísmo é ter coragem de entrar na vida de uma pessoa, sem querer possuí-la, sem querer manipulá-la, devemos entrar na vida das pessoas e comunicar este Jesus que conhecemos.
Como é belo perceber que Jesus se manifesta no coração dos que crêem, para salvá-los! Há pessoas que precisam de que entremos na vida delas com Jesus, com a salutar presença do Senhor, para lhes dar a luz da vida. Pois somos cristãos, e cristão é todo aquele que tem o Cristo dentro de si e que tem coragem de entrar na vida dos mais pobres.

Jesus entrou na vida de Cléofas, e este se tornou santo, pois derramou seu sangue por Cristo. O clamor dos dois discípulos era: “Senhor, fica conosco, porque o dia já declina”. Esse clamor dos dois, a alegria de reconhecer Jesus é algo que acontece até hoje. Quantas vezes isso se repete, em cada acampamento, aqui mesmo neste rincão [Rincão do Meu Senhor, na sede da Comunidade Canção Nova]! Quantas vidas foram mudadas neste lugar! Que lindo poder dizer, como o Espirito de Jesus vive, como o Espirito de Jesus atinge as pessoas, Ele não passa por nós, Ele permanece em nós, Ele está em nós!

Somos chamados a entrar na vida das pessoas com coragem, como Jesus entrou na vida de tantos. O que seria de nós se Cristo não entrasse no caminho da nossa história? O que seria se Jesus não levantasse um homem, uma mulher, um pregador para entrarem em nossa vida e mudarem nossa história? É por isso que devemos dizer como eles: "Fica comigo, Jesus! Leva-me também a encontrar tantos que estão aí pelas estradas da vida, sem direção, sem esperança".
Quantas vidas estão no "caminho de Emaús" esperando ver Jesus, esperando que alguém lhes fale que o Senhor está vivo, que Ele não é ilusão, que não é um Deus morto. O que nos faz entrar na vida de alguém é o amor que temos por este Jesus; e muitas pessoas se perdem, pois não há ninguém que se apresente para apresentar Jesus a elas.

'Devemos entrar na vida das pessoas e comunicar este Jesus que conhecemos'
Foto: Wesley Almeida / Fotos CN

O outro discípulo de Emaús somos nós, se não somos nós, são outros, e se não tivermos esta coragem de entrar na vida destas pessoas, elas vão se perder sem ter conhecido o Cristo. Quantos corações são salvos pela abertura de nossos corações, pois Deus nos dá seu Espirito e nos encoraja a entrar na vida dos outros.
Quando o dia declina, que desejemos a presença de alguém. Que possamos estar perto. É belíssimo o pedido de Cléofas e do outro discípulo: "Fica conosco, Senhor". E o Senhor disse "sim" a eles e ficou. Assim o Senhor está conosco. É necessário levarmos Jesus a tantos que estão por aí. Se nós cristãos nos fechamos e não fazemos como Jesus que entrou na vida dos discípulos, estas pessoas se perdem, pois o demônio se aproveita delas. Pela falta de esperança muitos se perdem, os discípulos de Emaús estavam sem esperança e o Senhor entrou na vida deles e eles fizeram essa oração ["Fica conosco, Jesus"]. Esta deve ser a nossa oração.
Devemos amar a Jesus e adorá-Lo com toda força da nossa alma, devemos agradecê-Lo diante daquilo que Jesus nos apresenta no dia-a-dia, no trabalho, na faculdade, devemos estar atentos, pois Jesus nos fala, há pessoas que precisam e se o Senhor disser vá àquele que necessita, é necessário irmos.

Católico, vá em busca daqueles que ainda precisam de conversão, não é necessário que falemos, apenas a vida, a vivência já mostra Jesus a estas pessoas.

Jesus não deixou de dar a correção fraterna, mas Ele amou os discípulos de Emaús profundamente e partiu o pão, a ponto de eles desejarem que Jesus ficasse com eles. Nunca podemos cair na tentação de achar que temos controle sobre nossa história, e não devemos ter medo de entrar na vida daqueles que entrarem em nossa história.

Que o Espírito Santo nos leve a viver profundamente o que Jesus viveu, pois só o Espírito Santo pode nos fazer isso.

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Transcrição: Flávio Costa


Padre Roberto Lettieri


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