Julgamento como fonte de esperança

Padre Paulo Ricardo
Foto: Camila Diniz

Com alegria estamos celebrando hoje a solenidade de Cristo Rei do Universo. O Evangelho fala do juízo final. Muitos pensam que o juízo final é algo para se desesperar. O Papa Bento XVI escreveu sobre isso na encíclica Spe Salvi. Ele diz exatamente o contrário: o juízo de Deus é fonte de esperança e de grande consolação.

O mundo começou com a Palavra de Deus. No livro do Gênesis, o Senhor diz: “faça-se a luz.” É a Palavra de Deus que cria as coisas, que faz o Universo. Essa Palavra, entretanto, é pronunciada com um propósito. Não fomos deixados nesse mundo por acaso. Deus pronuncia uma palavra e essa palavra põe o mundo em movimento. Mas no meio disso tudo existe a liberdade do homem e também a dos anjos. Tanto os homens como os anjos usaram mal sua liberdade e foram escravizados.

Nesses milhões de anos de história nos acostumamos com tudo: com o calor dos grandes desertos e com o frio das grandes geleiras. O ser humano se adaptou aos ambientes mais inóspitos. Mas tem algo a que o ser humano não se adaptou: o pecado, a injustiça. Nunca iremos nos acostumar com isso. Sempre que acontece o pecado e a maldade, algo dentro de nós se revolta e queremos que aconteça a justiça de Deus. É por isso que o juízo final é fonte de esperança. Porque Ele virá para destruir a maldade. Uma Palavra Sua apenas irá restaurar as coisas.

Um teólogo famoso diz: é verdade, Deus virá para julgar o Universo, mas o Universo inteiro clama, suplica por justiça. Desde o sangue de Abel, derramado injustamente. Todas as fibras do nosso ser, cada canto da nossa alma suspira justiça, suspira que Deus venha para acabar com a iniqüidade. Ao mesmo tempo em que pedimos justiça, como os filhos do trovão pediram justiça, se Deus vier fazer justiça, temos que compreender que também nós estamos perdidos. É evidente que dentro de nós também há injustiça, algo que precisa ser purificado. É por isso que não existem somente as duas possibilidades extremas: céu e inferno.

O Papa ressalta isso na Spe Salvi: existem pessoas muito boas, um coração boníssimo. Padre Roger me dizia que está lendo as cartas de Madre Teresa de Calcutá, dizendo que é algo extraordinário. Quem de nós duvida que Madre Teresa de Calcutá, aquela alma cheia de bondade está no céu? Ninguém de nós. Ao mesmo tempo que existem corações tão maravilhosos, existem corações terríveis, que nos fazem pensar: o inferno existe.

O Papa lembrou hoje no Angelus uma das maiores tragédias da história da humanidade, uma fome terrível há 75 anos atrás. Simplesmente 3 milhões de pessoas morreram de fome na Ucrânia. Fome causada pelos comunistas, que propositalmente castigaram o povo, porque este não queria se dobrar diante do regime injusto. Foram 3 milhões de pessoas mortas por causa de um regime, que achava que iria trazer o paraíso para a terra, que iria acudir os trabalhadores necessitados e matam 3 milhões de pessoas. O Papa pediu que todos os católicos rezem para que não voltem a ser cometidas atrocidades como esta.

Fiéis participam da Santa Missa na Canção Nova, presidida por padre Paulo Ricardo
Foto: Camila Diniz

Quando olhamos para uma maldade como essa começamos a suspeitar que o inferno existe, a maldade existe. Mas o Papa, nessa encíclica (Spe Salvi) diz: não existem somente corações maravilhosos e puros, nem somente corações teimosos e perversos. A maior parte dos corações é como os nossos: uma mistura de bondade e de maldade, egoísmo e generosidade, de perdão e de rancor… Somos uma mistura. É por isso que nos enche de esperança o purgatório. Porque Ele virá fazer justiça no nosso coração. Ele será purificado. Toda maldade se dissolverá para que entremos no céu purificados. Que alegria ser católico, que alegria crer no purgatório.

É bom saber que não irão entrar para o céu comente corações santos. Irá entrar o coração que todos os dias cai e se levanta. Um dia o Senhor virá nos levantar definitivamente. Enquanto isso, Ele vem para julgar. É terrível, mas nos enche de esperança. O livro do Apocalipse diz que a multidão dos inocentes que foram martirizados está debaixo do altar de Deus pedindo justiça.

Os injustiçados do mundo inteiro clama por justiça. Mas é preciso ressaltar que esse juízo final será feito por Deus e não por algum ser humano. Tem gente que quer ser o justiceiro e fazer justiça aqui na terra. Como Hitler, que decidiu pela morte de tantos judeus, ou mesmo o país que acha que embriões humanos podem ser usados para pesquisas de celulas tronco, quando a ciência já mostrou que as pesquisas são mais eficazes com células adultas. Mas a vontade de matar criancinhas é tão grande que vão levando pesquisas à frente. As crianças abortadas nesse país clamam por justiça. Se existem movimentos na sua paróquia, na sua cidade a favor da vida, você precisa se manifestar. Você precisa ver no seu Estado quem são os deputados que assinaram pedindo o aborto e fazer alguma coisa. Precisamos nos mobilizar, tomar atitudes. Como um sujeito diz que é católico e assina uma petição para a legalização do aborto? O nome dessa pessoa é “assassino.” Mas o juízo de Deus virá.

Não somos aqueles que irão fazer justiça. Nenhum ser humano nem presidente, nenhum imperador ou rei tem o direito de julgar ou tomar o lugar de Deus, nenhum partido político, nem mesmo religião tem o direito de escolher quem vai viver ou quem vai morrer. A Igreja Católica já cometeu erros em sua história, por quê? Porque a Igreja se esqueceu que a fé é algo pelo qual a gente morre e não pelo qual a gente mata. A Igreja condenava, o Estado matava. A Igreja tem parte nesse erro. São pessoas da Igreja que fizeram isso. São culpadas diante de Deus. Ao mesmo tempo, nós que somos cristãos, devemos lembrar que a fé é algo pelo qual devemos morrer, e não matar.

Precisamos fazer de tudo para que as pessoas parem de matar, deter as pessoas que acham que têm o poder divino de decidir quem vai viver e quem vai morrer. É ao Senhor que cabe tudo isso. Não podemos julgá-las. Não posso dizer que Hitler está no inferno. Posso dizer que o que ele fez foi uma abominação. Por isso a Igreja pede a cada um de nós que espere com fervor a vinda do Cristo juiz. Estamos na 34ª semana do tempo comum. Nesta semana quem reza a Liturgia das Horas, é convidado a rezar um hino antigo, da Idade Média, chamado Dies Ire (Dia da Ira), recordando o Dia do Justo Juiz, que nos enche de temor e de confiança ao mesmo tempo.

Quero ler alguns trechos desse hino e comentar rapidamente. Começa assim: Dia da Ira. Aquele dia será tudo cinza fria. Aqui diz que o juízo era previsto por Davi, mas também pelas religiões pagãs. Tudo para dizer que o ser humano sempre esperou por um juízo final, que desse sentido à historia da humanidade.

Mais à frente o hino diz: um som admirável de uma trombeta vai recolher todas as pessoas diante do trono de Deus. A morte e a natureza vão ficar de “boca aberta”, porque vai acontecer algo que ninguém nunca viu. O homem vai ressuscitar. A morte vai ficar se perguntando: onde está minha vitória? A natureza também, porque não é da natureza do homem ressuscitar, é graça de Deus. Quando a criatura humana ressurgir, Deus vai chegar para julgar e vai fazer uma pergunta. O homem ficará em pé para responder. Imagine a cena num cemitério: Deus se levanta para julgar e diz: “Quem fez isso?” E os cadáveres se levantam para responder.

'Somente a confiança cristão é capaz de, na hora de tal esplendor, não se sentir aterrado'
Foto: Camila Diniz

O simples fato de Deus me dirigir a palavra já me dá a vida. Vejam como o julgamento é fonte de esperança. Ele vai se dirigir para mim e dizer: “Paulo, o que você fez?” Só isso já me dará a vida. Não estarei julgado ainda, mas a ressurreição já vai acontecer. Vejam que maravilha. Será trazido um livro escrito, onde estão contidas todas as coisas e a partir desse livro que o mundo será julgado. É algo simbólico, mas é a memória.

Não há injustiça que não será julgada no último dia. Quando o juiz se sentar, aquilo que estiver escondido vai aparecer. Nada ficará sem vingança. Deus vai destruir a morte e punir a maldade. O que eu, miserável, vou dizer, então? Quem chamarei como advogado? Jesus e o Espírito Santo irão nos defender na hora, mas quem chamarei se nem mesmo o justo estará seguro nesta hora? Isso porque todo mundo, exceto Maria e Jesus, tem algo na conta a pagar.

Monsenhor Jonas sabe o quanto gosto de Mozart. Numa música, Mozart conseguiu colocar um comentário que foi feito pelo fundador do Movimento Comunhão e Libertação: “O rei de tremenda majestade, que salvas de graça aqueles que devem ser salvos, salva-me oh fonte de piedade”. Mozart então coloca o coral inteiro cantando essa invocação, que ecoa de forma maravilhosa. A orquestra inteira tocando. Você sente a majestade divina. Rei de tremenda majestade. De repente, a orquestra pára. De repente uma voz pequena, débil, frágil, ao fundo diz: “salva-me.”

Este é o ser humano diante de Deus, da majestade divina, da grandeza extraordinária de Deus, somos essa voz frágil, pequena, mas confiante que diz: “salva-me.” É a confiança cristã. Somente a confiança cristão é capaz de, na hora de tal esplendor, não se sentir aterrado, mas dizer: “salva-me.” Clamor de misericórdia.

Nós, nessa vida, ensaiamos para este pedido de perdão final. Devemos estar prontos para ele. Se diante da majestade de Deus não tivermos coragem de pedir perdão, o que será de nós? Assim como Moisés não conseguia rezar e tinha duas pessoas que sustentavam seus braços, teremos dois paráclitos que irão nos sustentar: Jesus e o Espírito Santo. E então iremos clamar: “salva-me”. Virá o justo juiz. Tememos e trememos diante Dele, mas ao mesmo tempo confiamos. Ele virá destruir o mau, mas não virá para nos destruir, porque somos suas criaturas, seus filhos. Nossa esperança é que ele virá para destruir a maldade em nós, e não para nos destruir. Parece contraditório, mas é a nossa fé.

O juízo final não é uma bobagem , é um grande drama. É nisso que esperamos. Que Deus tenha piedade de tantas pessoas más e cruéis na história da humanidade. Que Ele destrua a maldade em seus corações, para que elas possam partilhar conosco o banquete final no Reino dos Céus. Amém!

Transcrição: Thaysi Santos


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