Missão e vida comunitária

Dom Alberto Taveira
Foto: Mariana Lazarin/cancaonova.com
Nosso Senhor suscita, na Igreja, muitas realidades: dons, carismas, serviços, ministérios, mas não podemos prender o Espírito Santo, pretendendo que Ele fique segundo o nosso controle. Muitas pessoas fazem descobertas bonitas em suas vidas, q que pode lhes dar a impressão de que, ali, está a única solução para a Igreja. No entanto, perto delas, alguém descobre outra realidade. E, então, percebem: “Como Deus é criativo!”.

Temos de ter uma bússola que aponte para o Norte, que é Deus, mas precisamos dar passos neste caminho. Precisamos estar abertos para este grande jardim que é a Igreja.

Quem é de uma nova comunidade sabe que, para ela existir, realmente, dentro da Igreja, é preciso que ela seja portadora de um carisma. É preciso que haja a autenticidade do dom de Deus. Uma comunidade não pode nascer de pretensões humanas, pois, assim, não subsistirá.

Se alguém pretende ser inspirado por Deus, quando, na verdade, gosta apenas de se olhar no espelho, não terá futuro. Um carisma só é autêntico quando contribui para a edificação da Igreja. O carisma é para servir, não para vaidade ou orgulho próprio.

A razão de ser da Igreja é evangelizar, comunicar a Boa Nova, para isso Nosso Senhor suscita tantos dons. Um carisma está numa pessoa, num grupo para a Igreja. Olhem para ela, para a evangelização, para o mundo que tem sede do Senhor e aí vocês terão lugar.

A partir deste primeiro ponto de reflexão, trago algo para lhes oferecer. A Igreja no Brasil, no ano passado, na Assembleia dos Bispos da CNBB, mostrou cinco gritos, cinco urgências, cinco realidades:

– Igreja em estado permanente de missão;
– Igreja é casa de iniciação cristã;
Animação bíblica (a Bíblia como animação da vida pastoral);
– Igreja, comunidade de comunidades;
– Igreja a serviço da vida. São coisas muito ligadas, pois se referem à Igreja e a Jesus Cristo, diretrizes da ação evangelizadora da Igreja.

Nós temos de chegar em quem está longe da Igreja, marginalizado dela ou nas pessoas que assim se sentem. Os confins da Terra estão nas pessoas que abandonaram a Igreja, que precisam ser tocadas pela vida desta.

Missão e vida comunitária

Um carisma é dado para que você o coloque a serviço da Igreja. Quem se apaixona por Jesus Cristo tem de transbordá-Lo no anúncio de Sua verdade.

Não existe discípulo autêntico que não seja missionário. Se me tornei discípulo, faz parte do meu ser discípulo ser também missionário. A Igreja, portanto, é sempre missionária, pois existe para anunciar a mensagem de Jesus Cristo. Ela nunca deixou de ser missionária.

Se partilhamos a experiência cristã, é porque alguém nos apresentou a beleza da fé. Somos frutos de uma missão, do colo de nosso pai e de nossa mãe, da catequista, do sacerdote. Alguém foi missionário para você. Dê graças a Deus por isso! E essa chama está, agora, em suas mãos para que você a passe aos outros.

A missão é urgente, é gritante. A situação do mundo de hoje não nos permite perder tempo. A missão é importante por causa da amplidão deste mundo. Há pessoas que evangelizam pelos meios de comunicação, pela internet. É preciso pregar, levar a Palavra de todas as formas, por todos os meios.

"A missão é urgente, é gritante. A situação do mundo de hoje não nos permite perder tempo", alertou Dom Alberto.
Foto: Mariana Lazarin/cancaonova.com

Às vezes, penso que as pessoas terão de chegar a uma espécie de Sodoma e Gomorra para se assustar e começar a mudar. Percebemos isso pela redução do número de católicos, mas podemos ver isso também pelos enormes números de falta de respeito pela vida, de indiferença, exclusão, cultura de morte.

Nós não podemos fugir das nossas responsabilidades de anunciar a Palavra do Senhor oportuna e inoportunamente. O papel de cada pessoa, seu testemunho pessoal não podem ser atribuídos a outro. Cabe a nós essa tarefa.

Eu lhes pergunto: “As novas comunidades estão abertas aos novos desafios? Será que, em algumas situações, vocês não se apegaram a um tipo de serviço e não se abriram às novidades? Vocês têm coragem de escolher os campos mais difíceis? Têm coragem de evangelizar onde ninguém vai? Vocês têm coragem de sair sem dinheiro no bolso? As comunidade que mais cresceram foram as que começaram sem nada”.

Se as novas comunidades se colocarem à disposição da Igreja, após este Congresso, pedindo ao seu bispo um novo desafio, esse encontro já terá valido a pena. Se vocês querem emprego, não procurem o serviço da Igreja. Se quiserem missão, desafio, coloquem-se à disposição dela.

A novidade não está em inventar coisas, mas fazer de um jeito melhor aquilo que você pode fazer. O novo não está nos métodos; antes dele, é preciso haver o ardor. É preciso haver disposição, vigor missonário, zelo pela casa do Senhor.

Igreja, comunidade de comunidades

O discípulo missionário faz parte do povo de Deus e vive sua vida em comunidade. Ter uma experiência comunitária não é uma opção que faço para dizer que sou “bonzinho”. Se você descobriu o que é ser cristão, descobriu sua comunidade.

As comunidades novas são pessoas que receberam uma missão especial de Deus para ser sinal d'Ele no mundo. Assumiram um compromisso com o Senhor de ser sinal de uma vida comunitária, para que o mundo veja e diga: “Como eles se amam!”. A comunidade acolhe, forma, transforma, envia em missão, restaura, celebra, adverte, sustenta.

É curioso que nosso tempo tem uma tendência ao individualismo e, ao mesmo tempo, busca pela comunidade. Há outras formas de comunidades que vão além dos territórios, como as ambientais, afetivas, virtuais.

A Igreja precisa estar atenta à necessidade de comunhão, de relacionamentos dos cristãos. As paróquias tem um papel grande nessa evangelização.

Cada forma de vida comunitária, cada uma vivendo seu crisma, assumindo a missão evangelizadora de acordo coma realidade, articulando-se para atender a comunidade de acordo com a sua necessidade. As Diretrizes assim descrevem as características da comunidade: “Comunidade implica necessariamente convívio, vínculos profundos, afetividade, interesses comuns, estabilidade e solidariedade nos sonhos, nas alegrias e nas dores”.

Comunidades são escolas de diálogo interno e externo. As comunidades são pontos de partida, ela acolhe, purifica, gera comunhão e envia em missão.

Transcrição e adaptação: Michelle Mimoso


Dom Alberto Taveira Corrêa


Arcebispo de Belém – PA

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