O Amor que dá a vida

Padre Demétrio
Foto: Wesley Almeida/FotoCN

Mais um ano estamos, aqui, no Acampamento "Revolução Jesus". E dentro desse tema, que ilumina todas as pregações – "Livre para amar" – nós abordaremos um tema interessante: o amor que dá a vida. É próprio do amor ser fecundo, gerar vidas novas.

A Trindade Santíssima é um mistério inalcançável por todos nós seres humanos e até mesmo pelos anjos. Como pensar na existência de um Ser que não tem princípio, que não tem fim? Num ser que tudo sabe? Como imaginar isso? Deus não cabe na nossa concepção humana, Ele é infinitamente superior! Mas algo, sim, podemos falar da Santíssima Trindade, porque o próprio Deus quis se revelar a cada um de nós. Se Ele não se revelasse, jamais poderíamos afirmar que Ele é Uno e Trino. Se o Senhor não nos revelasse isso, até hoje não saberíamos que Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. No entanto, não são três deuses, mas um único Deus.

Deus é amor. A partir do encontro com uma pessoa que, em essência, é Amor, começamos a entender o que é ser cristão: um encontro de intimidade com Deus. O Filho é gerado eternamente pelo Pai, é amado por Ele. O Filho é amado, constantemente, pelo Pai e se entrega inteiramente a Ele. Deus, no Seu mistério mais íntimo, não é uma solidão, mas uma trindade amorosa que se ama eternamente. Ele não é solitário, mas tem paternidade, tem filiação e tem o Espírito Santo, que é amor. Deus cria, porque quer fazer com que outros seres participem desse mesmo amor. 

Lutero dizia: “Não me importa o que Deus é em si mesmo, não me importa se Deus é Pai, Filho e Espírito Santo”. Não importa o que Ele é em si mesmo, senão o que Ele é para mim, o meu Salvador. O que importa é o que Deus faz para mim. Se nós não iluminamos nossa razão com a luz da fé, toda a nossa vida se torna um voluntarismo.

Nós somos seres racionais e queremos entender os porquês, claro, mas dentro dos nossos limites racionais. Se quisermos entender o que é o amor precisaremos ir à origem de tudo. 

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.” (Gênesis 1,26-28).

O homem é a única criatura que Deus criou à Sua imagem. Mas por que Ele nos criou? Por que Ele cria? Porque Ele quer. Por que Deus fez o homem e a mulher? Porque Ele quis. Deus é realizado em si mesmo. Ele não nos criou, porque se sentia sozinho, mas porque há n'Ele uma efusão de amor, que faz com que outras criaturas participem do Seu amor. Se estamos na existência, é porque Deus nos amou. Se nós não fôssemos amados, hoje, por Deus, não estaríamos aqui.

Descartes dizia: "Penso, logo existo". Poderíamos dizer: "Existo, logo sou amado". E mesmo que você tenha vindo à existência por uma "falha" dos seus pais, hoje, a Igreja diz a você que, mesmo que seu pai e sua mãe não tenham programado sua existência, Deus diz: "Eu o amo com amor eterno". Somos amados infinitamente por Deus, e o que nos diz isso é a nossa existência. Ele nos ama e, por isso, estamos aqui.

O homem não se equipara a qualquer outra criatura. Ele é a única criatura, que é a imagem de Deus. O homem só se encontra a partir do momento em que ele se doa, assim como a Trindade, quando o Pai se dá ao Filho e o Filho se dá ao Pai.

“E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2,18).

"O homem é a única criatura que Deus cria à Sua imagem."
Foto: Wesley Almeida/FotoCN

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João Paulo II disse: "Nós somos um dom do amor para o Amor. Deus veio do amor e veio para amar". 

O problema do pecado é quando começamos a dialogar com satanás. Não chegue perto dele, porque ele é muito mais esperto do que você. Quem quiser ser mais esperto do que satanás, vai se perder, porque ele é muito mais astuto! Adão e Eva se escondem de Deus. Aqui está a desarmonia do ser humano, pois eles tiram os olhos de Deus e começam a olhar para si mesmos. Acabou a harmonia, pois esta é rompida pelo pecado. 

O pecado, no fundo, é sempre um pecado de egoísmo. Os homens querem tirar Deus da sociedade para se colocarem no lugar do Criador. Santo Agostinho disse: “Aversão a Deus e às criaturas”. Nós fomos chamados à entrega, a sairmos de nós mesmos. O pecado é sempre realizado na atitude de si mesmo, no egoísmo. Quanto mais sozinhos, mais inclinados somos ao pecado.

O pecado é sempre o oposto da nossa vocação original à santidade, à abertura do amor, é um ato de egoísmo. Amar é dar-se; pecar é fechar-se.

A inclinação ao egoísmo afeta nossa relação com Deus. Hoje, é comum vermos pessoas que querem obrigar a Deus, exigir d'Ele aquilo que elas pensam ser melhor para elas. Nós queremos insistir que o Senhor faça o que nós queremos. Quando nós queremos exigir que Ele faça a nossa vontade, nós deixamos de ser cristãos e passamos a adorar a nós mesmos.

"Nós fomos chamados à entrega, a sair de nós mesmos."
Foto: Wesley Almeida/FotoCN


Vale muito mais aquela adoração em que você não sentiu nada do que aquela em que você chorou e se arrepiou, mas ficou consigo mesmo.

“A verdade é aquilo que penso que é”. Quando nós queremos buscar o amor para nossa autossatisfação, ele se torna instrumento de benefício pessoal. Enquanto o outro me faz bem, eu o amo; quando já não me satisfaz, eu troco de pessoa. Isso não é amor; o amor é amar-se e doar-se ao outro. Sentimento não é amor, porque ele vai e volta. Nós somos homens iluminados, guiados e voltados para a inteligência.

Quem mais confia em si mesmo não vai chegar a lugar nenhum. São Filipe Neri dizia: “Senhor, não podes confiar em mim, porque, a qualquer momento, eu posso Te trair”. Nós, confiando em nós mesmos, vamos sempre nos frustrar. Nós não podemos nos autoajudar, o homem não é capaz de salvar-se por si mesmo. Precisamos uns dos outros, precisamos de um Redentor.

Depois do pecado, não sabemos mais o que é amar. Por isso, Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, veio nos ensinar a amar. Ele quer nos ensinar o amor extremo através da cruz. Mais do que amor em Belém, mais do que amor no Calvário, Jesus quis mostrar a humilhação na Eucaristia. Nós precisamos aprender a perder.

Jesus teve compaixão, sofreu com os outros. Quando o padre confessa, ele está, constantemente, no Calvário; ele carrega o pecado das pessoas.

Quando você para de pensar nos seus problemas e se preocupa com o outro, você se torna feliz. Quanto mais você se entrega, mais é feliz. Enquanto o projeto da sua vida for querer buscar a sua própria felicidade, menos você será feliz. Se quiser realizar essa vocação ao amor, só o encontrará na doação sincera de si mesmo.

Foi ordem Vossa, Senhor: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Dai-nos a graça de que não tenhamos medo de perder, como o grão caído na terra, que produz muito fruto, que não se perde em si mesmo.

Transcrição e adaptação: Jakeline Megda D'Onofrio


Padre Demétrio Gomes da Silva


Sacerdote da Arquidiocese de Niterói – RJ

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