"Queres mesmo ficar curado?"

João 5, 01-16

Vamos pouco a pouco fazer uma \”leitura vicentina\” do texto. Primeiro vamos falar da piscina de Betesda onde se ajuntavam os pobres, onde havia muitos doentes. Este é o contexto do milagre de Jesus para o paralítico. Jesus se desloca, movido pela compaixão, e chega aos doentes. Seguramente é um lugar ao qual ninguém quereria ir, mas esse era o lugar ao qual Jesus ia. Este é o contexto do vicentino, que também se desloca como Jesus e vai até os lugares de sofrimento.

Hoje estão se multiplicando os lugares de compaixão. São muitos os lugares onde se ajuntam os pobres e onde nós somos chamados a ir, como Jesus, para os lugares onde os pobres precisam de nossa ajuda e nem todos querem ir a esses lugares. A visita a esses lugares mostra que amamos a Deus e que estamos seguindo São Vicente e Frederico Ozanam.

A nós foi confiado o carisma de fazer com que o homem fique de pé. Jesus se põe à frente do homem que está na piscina e começa com um diálogo que termina em libertação. Jesus se aproxima dele e cura sua mente e coração.

A pergunta de Jesus foi: \”Queres ficar curado?\” E o homem começa a dar explicação: \”Eu não tenho quem me leve a piscina para ficar curado\”. Esse lugar era de competição, pois somente quem chegava primeiro ficava curado. Então Jesus chega e olha para aquele mais necessitado. Jesus toma conta daquele que não tem ajuda.

O homem vivia da esmola, ele sabia que nunca chegaria a piscina, pois há 38 anos ele estava ali e sempre alguém chegava antes dele. Era um homem vencido, que precisava de ajuda, e Jesus perguntou para ele: \”Queres ficar curado?\”

Vamos perguntar bem forte para o Brasil, e que a nossa pergunta chegue até os contextos de fome e pobreza, onde é requerida a paixão e a misericórdia. \”Queres mesmo ficar curado?\”

Aconteceu uma coisa muito bonita neste texto, o Senhor tinha que convencê-lo que ele estava curado. Eu acho que a primeira cura foi a da mente, ele foi convencido pelo Senhor que ele podia caminhar. Ele era levado pela maca por 38 anos, mas agora ele estava levando a maca com ele. De um momento para outro ele ficou em pé, já não era do mundo dos doentes, mas o que fazer agora?

O texto diz que Jesus o encontrou depois, mas a cura ainda não tinha terminado. Os fariseus queriam saber quem o tinha curado em dia de sábado, eles tinham tantas leis que não eram capazes de ver os milagres. Dizendo que homem não poderia carregar a maca em dia de sábado.

Depois desse diálogo Jesus o encontrou no templo. Seguramente o homem estava agradecendo, e estava pedindo a Deus ajuda para caminhar e fazer algo. A condição humana sempre é uma condição de necessidade, sempre estaremos precisando de mais. O grito humano é esse: Ajuda-me!

Somos convocados, como cristãos e vicentinos, a ajudar os necessitados. Mas, neste serviço precisamos ter compreensão que nós também precisamos de ajuda. Sou sacerdote há 13 anos, mas sou humano, como toda pessoa, e minha oração é esta: \”Ajuda-me Senhor\”! E quando me sinto ajudado eu digo novamente: \”Ajuda-me Senhor!\”

O homem há 38 anos não tinha ido ao templo, e pela primeira vez foi ao templo e seguramente estava fazendo uma oração humilde ao Senhor. E foi no templo que o Senhor o encontrou pela segunda vez. Na primeira vez o encontrou prostrado, já na segunda estava em pé, mas agora o que fazer da vida? Muitas vezes não queremos ficar curados porque temos medo do compromisso que devemos assumir depois da cura.

Como vicentino, trabalho com os pobres e o mais difícil é convencê-los de que eles podem ter uma vida digna, olhar para novos horizontes, ir adiante. A miséria não vem de Deus. Precisamos globalizar a misericórdia e a compaixão. Somos vicentinos e temos que ajudar as pessoas a ficarem em pé e começarem uma vida nova.

Os vicentinos são contemplativos na ação. Os vicentinos são contemplativos diante de Deus e do homem, da sociedade machucada. O vicentino tem as mãos para louvar a Deus e servir ao pobre.

Os cristãos são chamados há duas conversões:
– A primeira conversão é a comunhão. Precisamos criar comunidade, não há serviço ao pobre se não há comunhão. Você precisa converter seu coração à comunhão que brota do coração de Deus.


Hoje, nós vicentinos queremos nos converter para a comunhão, pois a compaixão passa através da comunhão.
– A segunda é a conversão é a conversão para a misericórdia. Nós queremos assumir a dor da humanidade. O nosso carisma nos faz estar à frente da dor do outro. Hoje, nós vicentinos, queremos nos converter para a misericórdia, para abraçar a dor da humanidade em nome de Deus.

Irmãos e irmãs não sejam indiferentes frente à violência, sejam sinais de comunhão nas conferências, no serviço ao povo. Vocês são chamados a prestarem ao mundo o serviço da comunhão. Não sejam indiferentes frente à dor do pobre. Temos que nos converter para a misericórdia e a solidariedade. Solidariedade é quando um cristão mexido pelo amor chega até ao pobre. Mas não criemos dependência temos que ajudá-los a caminhar sozinho.

Vicentino, não tenha medo de ser o primeiro a precisar cura. Sejam sérios e assumam com seriedade o carisma, assumam com amor e com uma profunda graça.

No profundo do coração, diga ao Senhor \”ajuda-me\”. Peça ajuda para sua família. Abra suas mãos e diga a Deus eu estou a teu serviço e ao serviço do pobre. Sou cristão e vicentino, amo a Deus e ao pobre.

Transcrição: Willieny Isaías
Fotos: Tatiana Gomes


Padre Guilhermo C. Vélez


Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.

↑ topo