Ressuscitados na Igreja

Padre Paulo Ricardo
Foto: Wesley Almeida

Neste acampamento de oração em que estamos falando da figura grandiosa que é São Paulo, a celebração da Eucarística, na festa do martírio de Santa Cecília, as leituras falam duas vezes da ressurreição. O livro do Apocalipse poderia ser dividido em 7 partes. Na parte central, na quarta parte, no centro, essa leitura, as testemunhas que atestam a ressurreição de Jesus. Duas testemunhas que são martirizadas no centro da cidade. Roma, que era a capital do império. Nossa mente já liga direto a São Pedro e São Paulo, que banharam a cidade de Roma com seus sangues. Na primeira leitura é por essas duas figuras que vemos sendo testemunhada a ressurreição de Jesus. No Evangelho, Jesus defende a ressurreição diante dos saduceus.

As cartas de Paulo foram escritas muito antes dos Evangelhos. As primeiras cartas de Paulo começaram a ser escritas no ano de 50 depois de Cristo. Existe uma certa unanimidade entre os estudiosos que os Evangelhos foram escritos em torno do ano 70, quando a maioria das cartas de Paulo já tinha sido escrita. Se tivéssemos só as Cartas de Paulo, como os primeiros cristãos tinham, saberíamos muito pouco da vida de Jesus.

Mas quando São Paulo escreveu suas cartas, ele não se preocupou com os detalhes da vida de Cristo, a história da vida de Jesus. Ele apenas se concentra em duas realidades: no fato de que Jesus é o filho de Deus feito Homem, que já existia no céu antes de existir na terra e, o segundo fato é o mistério pascal: paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. São os dois pontos principais das cartas de Paulo, que é exatamente o centro da nossa fé. Se perdêssemos todos os detalhes da vida de Jesus, teríamos o mais importante para as nossas vidas: o mistério pascal. São Paulo relata tudo isso numa consciência perfeita de que é apostolo e precisa estar em comunhão com os apóstolos. Ninguém de nós viu Jesus ressuscitado. Ninguém de nós teve a oportunidade, como Tomé, de tocar suas chagas. Mas cremos na ressurreição porque recebemos essa fé dos apóstolos. "O que eu vos transmiti é aquilo que eu também recebi", diz São Paulo.

Nossos irmãos evangélicos crêem somente na Bíblia. Nós, católicos, cremos na fé da Igreja, na fé dos apóstolos, por isso aceitamos a Bíblia. Cremos primeiro na fé da Igreja. De todos os livros do antigo testamento, a carta aos coríntios é uma das primeiras cartas. Ainda não havia o Novo Testamento. É a tradição. "O que eu vos transmiti é aquilo que eu também recebi". Paulo faz questão de testemunhar aos coríntios a fé que recebeu dos apóstolos. E começa a relatar: Jesus morreu por nossos pecados, ressuscitou no terceiro dia, depois apareceu para alguns dos irmãos e, finalmente, apareceu a ele. Essa é a grande realidade da Igreja. É esta multidão de fiéis que tem fé na fé dos apóstolos, que transmite aquilo que também recebeu.

'Um bom padre é sempre um padre conservador', afirma padre Paulo Ricardo
Foto: Wesley Almeida

Precisamos compreender que o mundo atual está doente de algo chamado: pruridos (coceira) de novidade. Vamos à Missa com a mesma disposição de quem vai ao cinema, em busca de novidades. Quando as equipes de liturgia se reúnem já pensam logo em fazer algo diferente, como se a Missa fosse um cinema. Isso é pruridos de novidade. Se continuarmos com isso, nossa geração será uma geração maldita, porque seremos nós, em 2 mil anos de cristianismo, os únicos que traíram a fé. Porque hoje cremos no Cristianismo? Porque homens e mulheres de fé não quiseram mudar uma vírgula daquilo que receberam da fé e tiveram o cuidado de transmitir a nós. Se os mártires se recusassem a passar pelo que passaram e resolvessem mudar a fé, adaptá-la ao mundo moderno, não teríamos a fé que temos hoje. A Igreja tem que criar mecanismos de fidelidade, de forma que a Palavra que pregamos hoje seja a mesma Palavra que os apóstolos pregaram.

O sacramento que celebramos hoje não é inventado por mim, padre Paulo Ricardo. Se fosse assim, não valeria a pena. Um bom padre é sempre um padre conservador. Padre que quer se adaptar à novidade não é bom padre. Bom padre é aquele que conserva a Palavra de Deus a mesma Palavra que receberam os apóstolos. Precisamos nos preocupar de que a Palavra que pregamos seja a mesma Palavra que os mártires pregaram, que santificou tanta gente antes de nós.

São Paulo é o homem da Tradição: "o que eu recebi eu também vos transmito." Quem dera tivéssemos o mesmo amor pela fidelidade: transmitir somente o que recebemos. É claro que podemos falar isso com uma linguagem moderna, de forma que o mundo compreenda, mas sem trair a tradição, num ritmo que mundo entenda. Hoje, dia da padroeira dos músicos, vocês músicos precisam pegar a palavra que receberam, adaptá-la numa música moderna, cantar uma canção nova, mas sem cantar novidades, sem ser "novidadeiros".

Precisamos morrer pela fé, a mesma fé pela qual São Pedro e São Paulo morreram. Precisamos receber a fé, a fé é recebida. Cremos na fé da Igreja. Precisamos crer nisso de verdade. A conversão de Paulo se deu dentro da Igreja, Quando ele cai no chão iluminado pela luz de Cristo, o Senhor diz: "Paulo, porque me persegues?" É por isso que depois Paulo escreve: “somos membros do corpo de Cristo." Jesus mesmo disse: "é a mim que persegues, é o meu corpo."

São Paulo faz a experiência de Cristo ressuscitado, vivo na Igreja. E as palavras são do Papa Bento XVI nas catequeses: "Para São Paulo, Jesus não é um personagem da História, do passado, para ele Jesus é uma pessoa viva na Igreja hoje". Está vivo em primeiro lugar, na sua Igreja, na sua Santa Igreja, onde a Palavra de Cristo é proclamada, onde o sacramento de Cristo está presente no altar. Eu, com isso, não estou negando que as outras instituições cristas não possuam elementos de sacramentos, ou da Palavra, mas a Palavra inteira e os sacramento inteiros estão aqui. Alguém pode dizer: mas e os pecados dos bispos, dos padres? Sim, existem membros que pecam, mas a Igreja é imaculada.

É preciso crer na Igreja mesmo sabendo de absurdos. Papa Alexandre VI teve 12 filhos e era papa. Parece piada. Mas ainda assim creio que o Papa é infalível. A Igreja diz que o papa é infalível e não impecável. Imaginemos que Lutero fosse santo. Ele, porém, não ensinava santamente. O papa sim, ensina santamente, porque ensina a fé dos apóstolos. A Igreja, em seus ensinamentos, é infalível. Você pode vasculhar a história da Igreja e me trazer vários pecados dos papas, mas jamais encontrará um papa que contestou o outro. Não encontraremos papas hereges, porque o papa é dotado de assistência espiritual. Creio na presença imaculada de nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo na Igreja com seus membros sujos. A Igreja é corpo de Cristo.

Vista parcial do 'Rincão do meu Senhor' durante Santa Missa presidida por padre Paulo Ricardo
Foto: Wesley Almeida

Os únicos imaculados são Jesus, que é cabeça da Igreja e Maria, que é membro do corpo, os outros todos são manchados pelo pecado. Mas podemos crer que a Igreja é imaculada porque a fronteira da Igreja passa aqui dentro de mim. Aquela parte de mim que já pertence a Cristo é a Igreja de Cristo. Existe muita tranqueira em mim que não é Igreja. Portanto, eu também sou território de missão. Existe dentro de mim muitas partes que precisam ser conquistadas para Cristo. Preciso usar comigo mesmo uma pedagogia para trazer a Cristo aquilo que em mim ainda não pertence a Ele.

Quando escrevi "Um olhar que cura" foi exatamente para traçar um itinerário espiritual para ajudar as pessoas a, lentamente, conquistarem cada vez mais partes de si para Cristo. A terapia das doenças espirituais não foi inventada por mim. A finalidade é pegar a tradição da Igreja, que é o caminho de ir conquistando o terreno missionário que está dentro de nós. Existe uma parte em nós que ainda está doente. O núcleo que já pertence a Cristo precisa lentamente ir conquistando a outra parte que está doente.

Cada pecado que cometemos são atos que nos tiram da Igreja. Cada vez que Cristo me permite dar passos de cura, estou voltando para a Igreja. Existe um pedaço de mim que ainda se debate e quer estar fora da Igreja, mas existe um pedação de mim que já se entregou ao Cristo ressuscitado. Aquela parte em mim que proclama o Cristo ressuscitado, é a parte em mim que já está na Igreja e a outra parte que ainda se debate, está ainda “excomungada”. A cura plena, porém, somente na ressurreição dos mortos, na vida eterna.

O Papa Bento XVI fala na encíclica Spe Salvi: "o juízo de Deus que vem destruir a injustiça e o purgatório que queima as nossas iniqüidades são fontes de esperança cristã." Graças a Deus vamos entrar no céu imaculados. Deus virá para destruir em mim o último átomo de pecado. Mas quem está no purgatório já está salvo. A grande diferença entre os que estão no inferno e os que estão no purgatório é a esperança. Como diz na Divina Comédia, de Dante Alighiere: "deixai toda esperança vós que entrais." Quem entra no inferno deixa para trás toda esperança.

Imagina se entrássemos no céu com esse coração que temos, mistura de egoísmo e bondade, generoso e ganancioso, que perdoa, mas guarda magoa. Não somos gente, somos campo de batalha. Não queremos levar esse coração limitado para o céu. Mas nossa certeza é que seremos purificados. Renovemos a nossa fé na Igreja verdadeira e ofereçamos a Ele esse campo de batalhas. Coloquemos na patena essa luta interior que existe dentro de nós.

Semana passada eu estava nos EUA, fazia 0 graus. Depois voltei para o Mato Grosso, quase 40 graus. O choque térmico foi muito grande. Na primeira noite que voltei para o Brasil, eu acordei no meio da madrugada gritando por dentro. Em silêncio, parecia clamar misericórdia. Acordei em agonia. Não sabia nem porque. Somos assim. Somos essa luta. Enquanto estivermos nessa terra, estaremos num duelo entre a morte e a vida. Existe em mim algo que é santo e algo que ainda esperneia para se render. Ele virá, depois de não sei quanto tempo de purgatório, Ele virá para enxugar as minhas lágrimas e me chamar para a alegria da eternidade. É essa alegria que queremos celebrar no santo altar do Senhor.

Transcrição: Thaysi Santos


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