Sede de vida eterna

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Queridos irmãos e irmãs, pouco antes do episódio da cura do leproso no Evangelho de São Lucas, Jesus pede para que os pescadores levem a barca ao mar, e estes ficam impressionados com a pesca que fazem. Pedro, então, chega perto de Jesus e lhe diz: "Afasta-te de mim, porque eu sou um pecador". E Jesus – daquele pecador – o faz pescador de homens; Ele toca num homem que sente a sua limitação. Hoje, nós O encontramos tocando num homem carregado de uma enfermidade que traz consigo toda rejeição terrível.

'Que nenhum machucado, no mundo, encontre um padre, um seminarista indiferente'
Foto: Willieny Isaias

Ainda que explicável por todas as situações, porque isso era também uma norma de saúde pública, podemos imaginar o que era a separação desses homens leprosos, aqueles que tinham de sair com uma espécie de sininho, gritando quando entravam na cidade: "Impuro, impuro!" Doentes da alma pelo pecado, doentes do corpo, ou da alma e do corpo; nenhuma situação passa perto de Jesus deixando-O indiferente. Ele não rejeita nenhuma dessas situações.

O que existe no coração daquele leproso, que faz primeiro um ato de fé: "Senhor, se queres, tu podes curar-me". Ele professa a fé naquele que é Senhor, e Jesus lhe dá uma resposta tão simples: "Eu quero, sê curado".

Hoje, para os mais de 400 seminaristas que estiveram presentes no Renasem (Retiro Nacional de Seminaristas) na Canção Nova, eu me permito olhar para eles, pensando de forma especial nos que, este ano, serão ordenados padres ou diáconos. Quero dizer-lhes, tomando o povo presente nesta Santa Missa como testemunha, que o que existe no coração das pessoas – que serão atingidas pelo ministério de vocês quando forem feitos sacerdotes – é uma sede de vida eterna. Todas têm sede de Deus e de vida eterna.

Nós sacerdotes, diáconos ou bispos somos feitos para ser instrumentos, sinais para fazer as pessoas encontrarem-se com Aquele que pode dar a vida eterna: Nosso Senhor Jesus Cristo. Se vocês tiverem essa clareza dentro de seus corações, poderão adquirir uma sensibilidade especial para as pessoas.

Dom Alberto e sacerdotes rezam pelos futuros padres e diáconos da Igreja
Foto: Willieny Isaias

Quem de vocês já trabalhou com doentes, já foi a presídios acompanhar os que estão lá ou trabalhou com os marginalizados pelas drogas? Algum de vocês já percebeu, já sentiu o drama que é uma pessoa que está vivendo na prostituição? Você já ouviu, profundamente, uma pessoa que está nessa situação? Não sei onde nem como, mas cada um de vocês precisa ter a experiência do contato com os “leprosos” de todos os tipos. Uso a palavra “lepra” não para falar apenas da hanseníase, mas de todas as doenças do mundo – físicas, psicológicas, morais, espirituais. Penso que para ser padre você precisa começar pelo caminho do serviço, experimentar o contato com aqueles que são "últimos" na sociedade.

Os padres e vocês [seminaristas], que serão padres no futuro, são chamados, de uma forma muito especial, a não ficar apenas anunciando que os outros precisam praticar a caridade. O que digo serve para os bispos, para os padres, diáconos, seminaristas e, é claro, para todo o povo de Deus. Mas eu me permito dirigir-me especialmente aos jovens que querem ser padres: “botem a mão na massa”, na caridade! Que faça parte de sua formação, pelo menos uma vez por semana, um contato direto com alguma situação difícil na sociedade, na qual você possa fazer a experiência do “bom samaritano” que vai ao encontro daquele que está caído à beira do caminho. Em primeira pessoa: não ensinar os outros a fazer, mas fazer.

Não sei quem você vai encontrar, mas o Espírito Santo sabe. Quem já faz isso, sabe o que estou dizendo. O mundo não precisa de padres cheios de teorias na cabeça, mas da experiência do amor, de homens consagrados que não passem pelas estradas do mundo, mesmo aquelas que “descem de Jerusalém para Jericó”, o caminho da perdição, e mudam de lado. Ali, naquela pessoa, a pior que, aparentemente, possa existir; naquele homem chagado espiritual ou fisicamente há uma sede enorme de vida eterna.

Futuros padres e diáconos recebem oração de bispo e sacerdotes
Foto: Willieny Isaias

A Igreja, lembrada pela água, o sangue e o Espírito que dão testemunho, que envolve e faz com que você proclame quem é o Senhor, espera que você seja esse instrumento precioso de vida eterna.

Os sofredores do mundo não querem se encontrar apenas com vocês, mas esse é o valor que vocês têm. Quando oferecemos o nosso nada preenchido, experimentamos o tudo de Deus e a nossa dignidade, porque Ele não nos diminui. Ao contrário, Ele nos preenche, faz-nos viver em plena comunhão com Ele dando-nos a vida eterna.

Vocês são chamados a ser portadores da vida eterna. Que nenhum machucado, no mundo, encontre um padre, um seminarista indiferente. Deixemos que a Palavra de Deus cale bem dentro do coração de cada um de nós.

Transcrição: Michelle Mimoso


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Dom Alberto Taveira Corrêa


Arcebispo de Belém – PA

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