Ser discípulo de Jesus Cristo

Irmãos e irmãs! Fui escolhido pelo Conselho Permanente para pregar este retiro. Muitos outros estariam igualmente ou até melhor habilitados a fazê-lo. Estou tranqüilamente convencido disso. Mas aceitei, em espírito de serviço, mesmo tendo sempre a agenda muito lotada com tantos compromissos pastorais, o que me exigiu um esforço especial para preparar as palestras e homilias. Contudo, estou consciente que o pregador apenas ajuda. Quem faz o retiro são os próprios retirantes, iluminados pelo Espírito Santo. Contudo, essa iluminação é preciso que a peçamos ao Espírito Santo, a Ele que renova todas as coisas, que renova também a nós, se o acolhermos e o deixarmos agir.


É preciso orar e pedir, com humildade e insistência, que o Espírito Santo seja derramado em nosso coração, com novo vigor e unção. Ao falar da unção do Espírito Santo, estamos falando da unção espiritual pela qual, ao sermos escolhidos por Jesus Cristo para nossa missão na Igreja e no mundo, o Espírito Santo nos é dado e Ele nos qualifica para esta missão, nos santifica, nos inspira e acompanha na missão. Peçamos, portanto, este novo vigor do Espírito, uma renovada unção para sermos pastores dedicados de Jesus Cristo, hoje. Ao mesmo tempo, peço a Deus que abençoe este retiro e o faça frutificar. Sim; que Ele abençoe. Bênção vem da palavra \”bendizer\”, dizer uma boa palavra. Peço a Deus que diga essa boa palavra sobre todos os retirantes. Quando Ele a diz, ela se realiza.

Para este retiro o Conselho Permanente indicou o seguinte tema: \”Bispo, discípulo e missionário de Jesus Cristo\”. Remete-nos assim ao tema da 5a. Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, no próximo ano em Aparecida, tema indicado pelo papa Bento XVI, isto é: \”Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nossos povos n’Ele tenham vida. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida(Jo 14,6)\”.

Vou iniciar o tema, fixando-me sobre o ser discípulo de Jesus. Nos Evangelhos encontramos os primeiros discípulos de Jesus. Por isso, é necessário abrir os Evangelhos, antes de mais nada. O texto de Mateus 5, 1-10, que acabamos de ouvir, nos apresenta Jesus e seus discípulos no Sermão da Montanha. Não vou fazer a exegese do texto, nem trazer novidades teológicas. Quero apenas que iniciemos nossa meditação inserindo-nos nesta cena do Sermão da Montanha.

Diz o texto de Mateus: \”Vendo Jesus as multidões, subiu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava, dizendo: \’Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus\’\” (5,1-3). O fato ocorreu bastante no início da vida pública de Jesus. Já, estavam sendo, então, espelhadas rapidamente notícias em toda a região de Cafarnaum, e nos arredores, notícias sobre um novo profeta, chamado Jesus, de Nazaré, que viera morar na região e pregava coisas maravilhosas sobre Deus e fazia grandes milagres. Ele já havia conquistado um grupo de discípulos, que o seguiam por toda parte.

A partir destas notícias, o povo começou a acorrer em multidões para ouvir Jesus e pedir-lhe a cura de suas doenças. Ele atendia a todos com grande carinho e atenção. O povo estava maravilhado e começava a sonhar sobre as sempre renovadas promessas bíblicas de um Messias, que seria enviado por Deus para libertá-los de seus males e iniciar um novo reino, o Reino de Deus.

Foi provavelmente neste clima que se desenrolou a cena do Sermão da Montanha. Estava ali Jesus, o Mestre, o Profeta, tendo ao seu redor os discípulos e toda a multidão de povo que se reunira para ouvi-lo. Jesus sentou-se. Todos sentaram-se ao redor. Ele começou a falar. Todos escutavam atentos e com grande esperança.

Eis a atitude fundamental do discípulo: OUVIR. Sentar-se diante do Mestre e ouvir, como que extasiado. Ouvir de coração aberto. Sem barreiras, deixar-se invadir pelas palavras do Mestre. Ali, Ele, o Mestre clamava para que todos pudessem escutar: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”, e assim por diante. Todos estavam com os olhos fixos em Jesus e bebiam cada palavra que saia de sua boca. Deixavam-se encantar. No final do grande Sermão da Montanha, o Evangelho de Mateus comenta e diz: \”Aconteceu que ao terminar Jesus essas palavras, as multidões ficaram extasiadas com o seu ensinamento, porque as ensinava com autoridade e não como os seus escribas\”(Mt 7,28-29).

Tomemos um outro exemplo do Evangelho: Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro. Diz o Evangelho de João: \”Jesus amava Marta e sua irmã e Lázaro\”(11,5). Eles moravam no povoado de Betânia. Mais vezes Jesus ali se hospedou. O Evangelho de Lucas conta: \”Estando em viagem, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, chamada Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, ficou sentada aos pés do Senhor, escutando-lhe a palavra. Marta estava ocupada pelo muito serviço. Parando, por fim, disse: \’Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe sozinha a fazer o serviço? Dize-lhe, pois, que me ajude\’. O Senhor, porém, respondeu: \’Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada\” (Lc 10,38-42).

Maria de Betânia é exemplo de uma verdadeira discípula. Ela senta diante do Mestre e o escuta. Deixa-se envolver por sua palavra. Nada a distrai deste momento extraordinário de intimidade com o Senhor. Jesus não reprova Marta, porque se ocupa dos serviços da casa, mas recorda-lhe que existe algo maior, mais importante, mais necessário, que tem prioridade. Uma só coisa é necessária, diz Jesus. O resto é secundário.

Essa única coisa necessária é tornar-se seu discípulo, ouvir sua palavra, que é a Palavra do Pai, para então segui-lo no seu amor à humanidade, amor que o levou em especial aos pobres e o fez dar sua vida na cruz para não perder ninguém. Essa é a única coisa necessária, que Maria estava iniciando a aprender e a viver, sentada aos pés do Mestre e deixando-se envolver pessoalmente com Ele e com sua missão. Ela num outro momento iria derramar perfume sobre os pés de Jesus, preparando-o, segundo a própria interpretação de Jesus, para sua morte e sepultura no sacrifício supremo, a que o levou seu amor por nós (cf. Jo 12,1-11 e Mt 26,6-13).

Nós também somos discípulos de Jesus, desde o nosso batismo. Fomos levados, como crianças recém-nascidas à pia batismal. Ali nos tornamos filhos de Deus e discípulos de Cristo. Começamos a ouvir falar dele, nos joelhos de nossos pais. Num daqueles dias da nossa primeira infância, nossa mãe ou nosso pai nos mostrou o crucifixo da casa e nos disse: \”Este é Jesus\”. Foi um momento extraordinário em que pela primeira vez fomos apresentados pessoalmente a Ele. Com certeza, não nos lembramos mais deste momento, porque éramos muito criança. Mas sem dúvida ele nos marcou. Aos poucos fomos ouvindo mais sobre Jesus em nossa vida familiar e compreendendo mais sobre Ele. Na família aprendemos as primeiras orações, em que se iniciava um primeiro contato de diálogo com ele. Éramos levados à igreja para a Missa e outras devoções. Um pouco mais crescidos, então fomos à catequese. Ali aprendemos muito mais sobre Jesus. Foi excelente. Mais tarde entramos no seminário e enfim cursamos a Escola de Teologia para nos preparar ao sacerdócio. Foi certamente um discipulado longo e aprimorado, que todos lembramos com gratidão e que não encerramos ali, mas continuamos pela vida afora, agora como bispos e mestres da fé para o povo de Deus.

Mas em todos estes anos de catequese e de estudo da teologia duas atitudes em relação a Jesus nos acompanharam: uma, a de ter mais conhecimentos sobre Jesus e sua doutrina e descobrirmos a racionalidade da nossa fé. A outra, a de nos relacionarmos pessoalmente com Ele. A primeira era mais a atitude de um aluno que busca conhecimentos e racionalidade, guiado por professores ou por pesquisa própria. A segunda é mais a atitude de um discípulo de Jesus, que busca aprofundar seu relacionamento pessoal e vivencial com Ele como Mestre. Certamente, uma atitude alimentava a outra.

Contudo, não podemos esquecer que fomos educados imersos na cultura moderna, que só aos poucos foi transformando-se na atual cultura pós-moderna. Na cultura moderna predominou o iluminismo racionalista. Era importante adquirir conhecimentos sempre mais amplos e mais profundos. No caso, ter conhecimentos sobre Jesus e sua doutrina e poder mostrar sua racionalidade. Isso é possível e até necessário, principalmente para quem vai ser mestre da fé na Igreja. Com efeito, o que a fé acolhe no seu crer não está fechado à razão, mas em si está aberto, é dado à razão, pois, esta, no próprio ato de crer, já está realizando uma forma peculiar de conhecimento. O apóstolo Paulo diz que a vida guiada pela fé é \”um culto racional\” a Deus (\”rationabile obsequium\”), santo e agradável a Deus (cf. Rm 12,1). Fé e razão não se contradizem.

O saudoso Papa João Paulo II escreveu mesmo uma encíclica, a Fides et Ratio (FR), sobre as relações entre fé e razão. Ele a inicia, dizendo: “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” (FR, início). Mais adiante, ele diz: “A Verdade divina (…) goza de uma inteligibilidade própria, logicamente tão coerente que se deve propor como um autêntico saber”(FR,66). Em relação à verdade que nos deve guiar ao fim último de nossa existência, João Paulo II diz: “O fim último da existência pessoal é objeto de estudo quer da filosofia, quer da teologia. Embora com meios e conteúdos diversos, ambas apontam para aquele \”caminho da vida\” (Sal 16/15,11) que, segundo nos diz a fé, tem o seu termo último de chegada na alegria plena e duradoura da contemplação de Deus Uno e Trino\” (FR,15).

Contudo, ter conhecimentos sobre Jesus Cristo ainda não significa necessariamente ter fé nele e ser seu discípulo. Daí porque, nem sempre o estudo da catequese e da teologia significam vida cristã mais profunda e coerente. Por outro lado, podem ser um alimento sólido para uma vida cristã. Para tanto, não devemos ser apenas alunos que estudam e aprendem sobre Jesus Cristo e sua doutrina, mas devemos tornar-nos discípulos dele.

O ser discípulo necessariamente inclui o conhecimento de Jesus Cristo. Um conhecimento vivencial, assim como conheço tal ou tal pessoa e na convivência vou conhecendo-a mais como pessoa e suas idéias, projetos e modo de entender a vida. Este conhecimento do discípulo pode tornar-se maior na catequese e no estudo da teologia. Portanto, ser discípulo de Jesus não contradiz o ser aluno que busca conhecimentos até mesmo teológicos sobre Jesus e sua mensagem. Ao contrário, este conhecimento maior e até mesmo científico pode ajudar o discípulo. Mas ser discípulo é muito mais do que ser estudioso de Jesus. E, ao inverso, para ser discípulo de Jesus não é necessário ter feito estudos especiais e escolares. Até um analfabeto pode ser um grande discípulo de Jesus.

Na verdade, ser discípulo envolve não apenas nossa inteligência, nossa razão, nosso conhecimento, mas envolve nossa pessoa toda. Aí reside uma das grandes diferenças entre ser discípulo ou ser apenas aluno, estudioso, conhecedor.

Procuremos, então neste retiro, reavivar em nós o ser discípulo de Jesus. Isso significa sentar-se diante dele e ouvi-lo. Deixar-se encantar por ele. Abrir-se e deixar-se invadir por Ele. Ouvi-lo como se fosse a primeira vez que temos a felicidade de estar com Ele e ouvi-lo. Deixar que o estupor e o assombro pela pessoa dele, suas palavras e atitudes inundem nosso coração. Deixar-se envolver de novo pessoalmente com Ele e com seu projeto de salvação do mundo. Isso significará que, ouvindo a Ele, teremos que ouvir também com Ele a realidade humana que Ele veio renovar e salvar, os seres humanos e todos os seus dramas, sofrimentos, esperanças e aspirações. Mas sobre isto quero lhes falar mais longamente amanhã. Hoje, inspirando-nos na atitude dos discípulos sentados ao redor do Mestre no Sermão da Montanha e de Maria em Betânia, procuremos abrir o Evangelho e sentar-nos com toda disponibilidade de coração diante de Jesus Cristo para ouvi-lo e por Ele nos sentir acolhidos e amados. Amém.


Cardeal Dom Cláudio Hummes


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