Pe. Adriano Zandoná

A ação de Deus e os "guarda-chuvas" da alma

A ação de Deus impedida pelo perigo da rotina

Um padre jovem com barba usando vestes litúrgicas douradas e vermelhas fala ao microfone em um púlpito de madeira. Ele gesticula com a mão direita em frente a vitrais coloridos. Tema: "A ação de Deus e os guarda-chuvas da alma"

Pe. Adriano Zandoná / Acampamento Fé Católica – Foto: Bruno Marques / Canção Nova

Muitas vezes, em nossa caminhada cristã, nos pegamos pedindo fervorosamente que Deus derrame Suas bênçãos e Sua graça sobre nossas vidas. É como alguém em um dia escaldante e sem água que clama aos céus: “Senhor, manda uma chuva!”. Contudo, quando a chuva divina finalmente começa a cair, saímos com um guarda-chuva aberto para não nos molharmos. Sem perceber, pedimos o dom da fé, mas erguemos barreiras invisíveis que impedem que essa graça frutifique e transforme o nosso interior.

A Carta aos Hebreus nos recorda de maneira categórica que “sem a fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11, 6). A fé é o canal pelo qual a graça se manifesta. Todavia, ao olharmos para o Evangelho e para a tradição da Igreja, percebemos que existem impeditivos, “guarda-chuvas” que nós mesmos abrimos e que travam a ação de Deus em nossa jornada.

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A ação de Deus e os obstáculos que criamos

Ao recorrer aos relatos evangélicos, deparamos-nos com uma realidade impressionante: o demônio jamais foi capaz de impedir a autoridade de Jesus; onde quer que o maligno estivesse, Cristo exercia Seu poder soberano. O pecado do homem também não barrou o Salvador: ao ver Mateus, um cobrador de impostos, ou Zaqueu, um pecador público, Jesus não recuou, mas ofereceu-lhes a salvação. Tampouco a arrogância dos fariseus ou a força política de Herodes e Pilatos puderam proibir os milagres de Cristo.

No entanto, ao visitar a Sua própria terra, Nazaré, o Evangelho nos apresenta uma das passagens mais profundas e dolorosas de toda a Escritura: ali, Jesus não pôde realizar muitos milagres  (Mt 13, 58). Não porque Lhe faltasse poder ou força divina, mas porque faltou a daquele povo.

“O Deus que te criou sem ti, não pode te salvar sem ti.”

— Santo Agostinho

Como ensina Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, Deus respeita profundamente a liberdade humana. Ele não cura, liberta ou converte ninguém contra a sua própria vontade. A graça exige o consentimento livre da alma. A fé, portanto, é o verdadeiro combustível do milagre.

A barreira do orgulho e familiaridade espiritual

Os habitantes de Nazaré não duvidavam que Jesus era sábio ou capaz de realizar prodígios. No entanto, recusaram-se a acolhê-Lo por conta de dois grandes obstáculos interiores:

  • O Orgulho: A soberba que impede o coração de reconhecer a grandeza divina quando ela se manifesta na simplicidade ou por meio daqueles que nos são próximos. O orgulhoso exige o espetacular e rejeita a humildade.
  • A Familiaridade Espiritual (Rotineira): A ilusão de “saber informações” sobre Deus sem verdadeiramente conheê-Lo.

“Muitos estão dentro da igreja corporalmente, mas permanecem fora dela com o coração.” — Santo Agostinho (Sermão 137)

Os nazarenos conheciam a profissão de Jesus, a família do Senhor e a Sua história diária, mas ignoravam a Sua identidade divina. Essa familiaridade nociva afeta casamentos, vocações e a própria vida cristã. Quando o encanto e a admiração terminam, instala-se a rotina que destrói as relações. Na vida espiritual, corremos o risco de frequentar a igreja por anos, ouvir sermões e ler o Catecismo, mas sem jamais permitir que o coração seja verdadeiramente tocado e transformado. O Céu, de tão próximo, torna-se comum.

A ação de Deus no ordinário

Jesus viveu trinta anos no silêncio e no trabalho simples da carpintaria para pregar durante três anos em Sua vida pública. As pessoas de Sua comunidade viram o menino crescer e realizar tarefas cotidianas. Contudo, foram incapazes de enxergar o Eterno escondido no presente, o Infinito velado no comum.

“Não rejeitaram Cristo por falta de sinais, mas porque a humildade de Cristo ofendia a soberba deles.” — São João Crisóstomo (Homilia 44 sobre o Evangelho de Mateus)

Às vezes, pedimos a Deus uma floresta inteira, mas Ele nos concede apenas uma pequena semente. É no cultivo dessa semente simples, no dia a dia, que a árvore cresce e a floresta se forma. Como recordava São Josemaria Escrivá, há algo de divino escondido nas situações mais comuns da vida diária, e cabe a nós descobri-lo.

Renovando a paixão e o encanto pela fé

Não podemos permitir que a fé perca a sua beleza e o seu encanto. Se não vigiarmos, a proximidade com os sacramentos pode se tornar um hábito mecânico. É preciso redescobrir a admiração diária pela Eucaristia, pela Palavra de Deus e pela Igreja. O antídoto para a soberba de Nazaré é a humildade de se apaixonar por Jesus todos os dias.

O segredo para as nossas vidas e famílias: Quer renovar o seu matrimônio ou a sua caminhada espiritual? Apaixone-se por Jesus. Quando marido e mulher estão verdadeiramente apaixonados por Cristo, o amor conjugal se renova, o orgulho é vencido e a graça volta a fluir no lar. Não seja um “nazareno”. Feche o guarda-chuva do orgulho, do preconceito e da rotina espiritual. Abra o seu coração sem reservas para acolher a graça divina, mesmo quando ela vier de forma simples ou por meio de quem você menos espera.

Oração de entrega e renovação

Senhor Jesus, com toda a sinceridade do meu coração, eu quero me apaixonar por Ti. Quero me encantar contigo e te admirar cada vez mais. Apaixonar-me pelos sacramentos, pela Igreja, pela oração, pela Adoração Eucarística e pela Tua Palavra. Liberta-me, Senhor, de todo orgulho e de toda familiaridade espiritual que me faz acreditar que já sei tudo, que não preciso melhorar ou abandonar o pecado.

Batiza-me no Teu Espírito Santo! Dá-me um coração humilde e a graça de reconhecer e celebrar o bem que existe nos outros. Muda a minha mentalidade, cura minhas feridas e desfaça os meus preconceitos. Como disse o profeta Jeremias: “Seduza-me, Senhor, e eu me deixarei seduzir” pelo Teu amor. Amém.

Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin

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