Padre Donizete Heleno

O caminho da constância na fé

Provação, tentação e a “hypomoné

Na primeira leitura, São Tiago nos diz algo que parece um contraste: “Considerai uma grande alegria quando tiverdes de passar por diversas provações. A provação é diferente da tentação. A tentação quer nos separar de Deus, mas a provação é a oportunidade de dizer ao Senhor a qualidade do nosso amor por Ele.

São Tiago ensina que a prova da fé produz a constância. No original grego, a palavra é hypomoné (grego: ὑπομονή): estar em algo até o fim, “não arredar o pé”, ter estabilidade e não desistir em meio às lutas. Quantos de nós precisamos desse dom hoje? Muitas vezes começamos bem os nossos propósitos, mas logo a coisa desce “ladeira abaixo” e voltamos à vida velha.
Padre Donizete celebra a Santa Missa no Rebanhão da Canção Nova em Cachoeira Paulista.

Padre Donizete / Rebanhão 2026 – Canção Nova – Foto: TV Canção Nova

O perigo da ambiguidade (dipsychos)

A Bíblia diz que somos ambíguos e inconstantes. O termo usado é dipsychos: aquele que tem a mente dupla ou o interesse dividido. Queremos o Senhor, mas compactuamos com coisas que nos afastam d’Ele. Queremos ser santos, mas nossos comportamentos destoam desse propósito. Precisamos pedir: “Senhor, tira de mim esta ambiguidade, dá-me a graça de ser um cristão íntegro e inteiro”.

O “Bloco dos Fariseus” e o espetáculo da fé

Jesus tinha acabado de multiplicar pães para 10 mil pessoas — um sinal maravilhoso de cuidado. Mesmo assim, os fariseus aparecem para pedir “um sinal do céu”. Isso é um absurdo!
Quando os fariseus aparecem na Bíblia, é para nossa autorreflexão. Daqui a pouco, o maior milagre da terra vai acontecer: a Eucaristia. O maior espetáculo do mundo não está na Sapucaí, está aqui sobre o altar! Como voltamos para casa depois de presenciar esse sinal? Se não mudamos, corremos o risco de entrar no “bloco farisaico”.

Os fariseus gostavam de:

Máscaras: Jesus os chamou de hipócritas porque falavam, mas não faziam. Se não arrancarmos nossas máscaras, podemos estar “pulando carnaval” dentro da igreja.

Abadás de aparência: Eles usavam faixas largas e franjas longas para aparecer. Às vezes, usamos terços e crucifixos como meros “penduricalhos” ou joias, mas não honramos o que eles representam na nossa vida prática.

Camarotes: Gostavam dos lugares de honra e de serem cumprimentados. Mas nós somos a comunidade dos que lutam para ocupar o último lugar, pois os últimos serão os primeiros.

Eu até pensei em chamar esse bloco de “Unidos do Peroba”. Conhecem o óleo de peroba? É para passar na “cara de pau” de quem vive na duplicidade. Que o Senhor nos livre disso!

No “desfile” de Lucas 18, dois homens sobem ao templo: um fariseu e um publicano. O fariseu reza de pé, contando vantagem: “Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros… pago o dízimo… jejuo”. Aparentemente nota 10, mas diante do Senhor, nota zero!

Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. Humildade vem de humus (terra). É tocar na sua verdade, no seu barro, e parar de jogar pedra no telhado do outro.

O convite à conversão

Jesus foi embora daquele lugar porque só viu aparência nos fariseus, e não consistência. Não deixemos Jesus ir embora! É hora de sair desse bloco, lavar as vestes no Sangue do Cordeiro e purificar nossas intenções para a Quaresma.

Não viva de aparências. Diga ao Senhor: “Eu quero ser de verdade, no mais íntimo do meu coração”. Não tenha medo das provações ou de ser chamado de “conservador” por estar “preso” ao altar, ao sacrário e ao rosário. É aí que nossa vida está segura.

 

Transcrição e adaptação Amanda Martins

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