A fé autêntica e o poder da dependência total de Deus
A liturgia de hoje nos oferece uma direção clara que aponta para a nossa finalidade última: o céu e o encontro definitivo com o Senhor. No Evangelho de Marcos, vemos o enredo de uma mãe que clama desesperadamente pela libertação de sua filha, revelando-nos que, por trás de sua súplica, existe alguém que confia totalmente no Senhor.
Precisamos compreender que a fé, antes de tudo, é uma atitude de total dependência de Deus; se a nossa fé é algo que exige segurança humana para caminhar, ela não é verdadeira nem autêntica, pois a fé autêntica requer um abandono total nas mãos do Senhor. Jesus sai para a região de Tiro e Sidônia e tenta manter-se escondido, mas aquela mulher pagã, nascida na Fenícia da Síria, ouve falar d’Ele e cai aos seus pés, suplicando pelo milagre que ninguém mais poderia realizar.

Padre Elenildo Pereira
A lição da mulher pagã
Esta mulher nos ensina que a fé não confia em méritos próprios ou na própria bagagem, mas exclusivamente no poder de Jesus. Mesmo sendo pagã e vivendo em um contexto onde judeus não tinham contato com seu povo, ela teve a iniciativa de ir até Aquele que resolve casos impossíveis.
A fé exige a virtude da humildade e a coragem de ultrapassar as barreiras culturais, religiosas e sociais da época. A fé autêntica é justamente aquela que sempre ultrapassa os limites humanos, agindo na dimensão onde o “eu” não pode, não consegue e não é capaz, mas onde sabemos com convicção que Deus é plenamente capaz.
Não podemos selecionar em que confiar; o itinerário cristão exige confiança em tudo e para tudo, aproximando-nos do Senhor não com a arrogância de quem merece algo, mas com a confiança de quem depende da Sua misericórdia.
A misericórdia como único recurso
Muitas vezes, diante das nossas necessidades, criamos justificativas para não rezar ou não confiar, culpando o trabalho, os filhos ou os afazeres. No entanto, se cremos no Senhor auxiliados pela Sua graça, as coisas acontecem não por nosso mérito, mas pela Sua bondade que vai além de qualquer obstáculo. No Santuário do Pai das Misericórdias, aprendemos que o clamor deve ser sempre fundamentado nessa dimensão que ultrapassa o que é meramente humano.
O silêncio de Deus como pedagogia da fé
Ao ouvir a súplica da mulher, a resposta de Jesus parece um “banho de água fria”: “Deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos”. Jesus não estava sendo grosso ou mal-educado, mas sim pedagógico, utilizando o silêncio e o adiamento para amadurecer a fé daquela mãe.
O silêncio de Deus é uma metodologia necessária para o nosso crescimento espiritual, pois a demora do Senhor não significa ausência, mas sim preparação. Se fosse um de nós, talvez tivéssemos voltado para casa irritados, achando que fomos insultados, mas aquela mulher soube esperar o tempo oportuno e não se desesperou diante da pausa divina. Ela entendeu que a fé verdadeira é aquela de total dependência, que aceita esperar até que o Senhor diga: “Pode ir, a graça te foi concedida”.
Amadurecendo na prova
Aprendemos errado que Deus deve nos dar respostas imediatas e do nosso jeito, mas a fé autêntica aceita que o Senhor sabe o que é melhor. O silêncio nos treina para que não sejamos dependentes apenas de sinais e sentimentos, mas unicamente da palavra d’Ele.
O perigo do “cristão birrento” e a necessidade de humildade
Um grande mal que enfrentamos hoje é a enfermidade de querer um Deus moldado à nossa vontade, que fale apenas o que agrada aos nossos ouvidos. Quando o Evangelho nos contraria ou quando um padre diz algo que nos desafia, a tendência do “cristão birrento” é abandonar a pastoral, a igreja e a confiança. Birra é coisa de criança mimada, e infelizmente há muitos adultos com atitudes infantis na fé, que batem o pé e desistem de Deus porque Ele não realizou sua vontade no tempo cronológico que eles estabeleceram.
A oração eficaz é aquela acompanhada de profunda humildade.
A oração eficaz é aquela acompanhada de profunda humildade, como a daquela mulher que reconheceu não ter privilégios na aliança, aceitando até as migalhas que caíam da mesa. Deus rejeita os arrogantes, mas se submete aos simples; por isso, nossas preces não podem ser ordens ou cobranças prepotentes, mas pedidos submissos ao querer divino.
Graça, mérito e a oração que arranca milagres
Precisamos entender que ninguém “merece” nada de Deus por direito; tudo o que recebemos é dom, é graça e é misericórdia. Não importa se você é da pastoral do dízimo, ministro, cantor ou leitor; o seu serviço na igreja não lhe dá um contrato de direitos sobre os milagres de Deus. A fé madura se lança totalmente na vontade do Senhor, mesmo sem segurança ou sinais visíveis, confiando que Ele é o Senhor do céu e da terra.
Ser insistente na fé não é ordenar que Deus faça o que queremos, mas sim continuar acreditando no Seu poder mesmo quando a resposta é diferente da nossa expectativa. Devemos pedir perdão pela nossa prepotência e pela mania de querer que as coisas aconteçam “agora”, aprendendo a respeitar a forma pedagógica de Deus nos ensinar através da espera.
Entrega e ao reacendimento da fé
Convido você a não ser um filho mimado, mas um católico autêntico que diz: “Senhor, independente da Tua resposta, continuarei a crer, pois sei que o Teu querer é o melhor para mim”. Vamos consagrar nossas famílias, nossos ministérios e toda a nossa vida a Jesus, confiando não em estruturas ou técnicas humanas, mas exclusivamente na Sua graça.
Que a fé recebida no dia do nosso batismo seja reacesa em nossos corações, para que não vivamos mais dependendo de nós mesmos, mas exclusivamente d’Aquele que pode todas as coisas. Mesmo que a primeira resposta seja o silêncio, sabemos que esperar é um ato de fé e que o milagre acontece à medida que confiamos plenamente. Sob a proteção da Virgem Maria, entregamos tudo o que somos:
Ave Maria, cheia de graça…




