A espiritualidade na recuperação da dependência química

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Mauricio Landre – Créditos: Wesley Almeida/Canção Nova

A espiritualidade ajuda a ciência curar e vice versa

Um pouco do testemunho de vida

Eu venho de uma cidade em que a bebida é muito comum e eu acabei desenvolvendo a dependência química.

E venho de um processo de muitos danos, em mim, na minha família. Nunca quis me tornar um dependente da bebida, e em minha família não tinhamos esse histórico, eu é que desenvolvi isso.

Hoje a dependência química não está só mais na periferia.

Três situações começaram a tocar meu coração para eu sair do vício da droga.

Certa vez, uma mãe com seus filhos, quando me viu, pegou nas mãos dos seus filhos e mudou de direção, nesse momento, essa pessoa que não me conhecia, e que não quis passar perto de mim, muito me tocou. Eu fiquei muito magoado, mais até que as lágrimas da minha mãe.

Noutra vez, em 1986 minha filha com 3 anos de idade, veio passar férias comigo, e a minha ex-esposa, dizia a minha filha: “ a gente tem que ir embora, porque o papai está doente”. E a minha filha disse que não queria ir embora porque queria cuidar de mim. A mãe deixou essa minha filha aos cuidados dos meus pais.

Um mês depois, minha filha chorando, uma menina de três anos me disse: “Papai eu quero voltar com a mamãe porque eu não consegui te ajudar”. E era verdade, choramos a noite toda. Isso tocou muito meu coração, levei ela embora para Goiania e voltei a Campo Grande.

Um terceiro momento, que muito me tocou foi quando, uma vez sentindo muito a necessidade da droga, eu sem dinheiro, pedi a um senhor que me conhecia, que me fornecia droga, mas ele não tinha como sustentar meu vício. Então ele chamou um traficante, e ele quando me olhou, me identificou, me conhecia de antes e ele me perguntou: “Você sabe como você está, você já se olhou no espelho?” Eu disse não. Daí ele me perguntou: “Você quer morrer?” Eu falei: “Quero!”.  Ele então disse: “Vou resolver uma parada aí, e depois volto aqui para resolver seu problema”.

Neste momento eu me abaixei e rezei “Senhor se o Senhor me tirar daqui hoje eu não uso mais droga”. Dois minutos depois eu, abaixado como estava vi pés chegando até mim. Era meu pai, que nunca tinha me procurado durante o dia, só nas noites. Para mim, não era meu pai, eram os pés de Jesus.

Meu pai me disse: “Filho, vem comigo, por favor!”.

Fui com meu pai, passei uns dias com síndrome de abstinência, foi terrível.

Dias depois, meu pai me disse que tinha um dentista que tinha passado por uma vida semelhante a minha e que tinha se recuperado, que ele queria conversar comigo.

Peregrinos

Peregrinos acompanham a pregação – Acampamento Pastoral Sobriedade. Créditos: Wesley Almeida/Canção Nova

Conversamos e ele me convidou para ir num lugar me tratar. No dia da viagem quando subi no ônibus, perguntei como chamava-se o nome do lugar que eu iria. Ele me respondeu que era a Fazendo do Senhor Jesus. Eu sai do inferno para o lugar de Jesus. 

Eu só tive forças para sair desta vida por causa dos meus filhos.

A luta pela vida nova

Em minha época a gente tinha um pensamento em que passávamos por aquilo porque estávamos pagando por tudo o que a gente fez de ruim.

E não existia forças dentro de mim para sair daquilo. Vocês não tem noção do que acontece com o dependente químico.

Hoje a ciência comprovou que existe um ponto no cérebro que Deus criou para lutarmos pela vida. Um único ponto do cérebro é responsável pelo gosto pela vida, a alegria, o prazer do sexo e da alimentação. E a droga atinge diretamente esse ponto.

Por isso que a gente vê o dependente que não tem vontade de comer, não tem vontade de namorar, não tem gosto pela vida, tem vontade de morrer.

Então meus filhos eram o motivo para eu querer sair daquela vida.

Tem uma música que foi muito importante para mim. “Eu quero ser um vaso novo”, eu já sou um vaso novo nas mãos de Deus.

Consegui me reconciliar com meus pais, meus irmãos, minha família, meus filhos, e conheci muita gente do bem. O mundo não é das pessoas más não, o mundo é cheio de gente do bem. tem gente que não segue uma espiritualidade, mas se observarmos, a maioria faz o que o samaritano faz.

Há pessoas que não acreditam em Jesus, mas Ele mesmo falou que devemos fazer as obras Dele, essas pessoas estão fazendo.

Corpo matéria

Mauricio Landre prega no Acampamento Pastoral Sobriedade – Créditos: Wesley Almeida/Canção Nova

Fui em muitas paróquias dar o meu testemunho, dizer que com Deus a gente consegue se recuperar. Fiz parte da Campanha da fraternidade que dizia “Vida sim, drogas não!”. Contribui para a recuperação de muita gente.

Ciência e espiritualidade

Tivemos um momento em que a ciência brigou com a religião. Faço mestrado em Conhecimento de Dependência Química e não deixei minha espiritualidade.

Gosto de algumas frases que ouvi: “A ciência quer ver para crer, a religião crê para ver”, “Fé é você dar o passo para Deus colocar o chão”.

Mas hoje, a ciência séria, tem descoberto a importância da espiritualidade no tratamento de qualquer tipo de doença. Existem muitas palestras, muitos simpósios nesse sentido.

O amor é propriedade de Deus. Qualquer pessoa que faz algo com amor, aquilo vem de Deus. Se tem amor, em algum momento, de alguma forma a pessoa será tocada por Deus.

Tenho lutado para trazer uma linguagem cientifica para uma linguagem mais acessível e espiritual. Mas tudo nasce de pessoas que gostam de pessoas.

Quero fazer a vontade Dele na minha vida.

Adaptação e transcrição: Sandro Arquejada

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Mauricio Landre


Instituto Padre Haroldo

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