Concessões, as pequenas brechas que nos afastam do Pai
A Palavra de Deus é de uma clareza absoluta: a Ele, nada é impossível. Contudo, mesmo sendo o Deus do impossível, o Senhor respeita a nossa liberdade e não pode agir num coração que se recusa a crer. Ele acerta 100% na nossa necessidade e conhece perfeitamente cada uma das nossas dores.
A pergunta que precisamos nos fazer hoje é: se Deus é infinitamente fiel, por que tantas vezes nos encontramos caindo? A resposta é simples e profunda: Deus só deixa de realizar a Sua plenitude em nós quando começamos a abrir brechas e aceitar o que parecem ser “pequenos desvios”.
O perigo invisível das pequenas concessões
Muitas vezes, acreditamos que uma grande queda espiritual acontece de forma repentina ou por causa de um pecado mortal isolado. Pensamos que o sofrimento surge apenas quando alguém se entrega a grandes desvios morais ou práticas espirituais erradas.
No entanto, a verdade é que pequenas concessões podem levar você a grandes quedas. Em Lucas 16,10, Jesus ensina com autoridade: “Quem é fiel nas coisas pequenas será também fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas o será também nas grandes.”
Nas pequenas concessões o caminho para o abismo
Ninguém abandona a fé ou cai num abismo moral de um dia para o outro. Quando um cristão, um leigo ou até mesmo um sacerdote ou pregador enfrenta uma ruína espiritual, o processo quase sempre começou muito antes, numa brecha que não foi tratada no passado. É a lógica da pequena concessão:
- “É só dessa vez, Senhor”;
- “Todo mundo faz isso”;
- “Deus é amor e vai entender a minha fraqueza”;
- “Depois eu me confesso”.
Essas justificativas acalmam a mente por um instante, mas enfraquecem progressivamente a nossa vigilância. Como diz o Catecismo da Igreja Católica (Art. 1734), a liberdade torna o homem responsável por seus atos na medida em que são voluntários. Escolhas geram consequências inevitáveis.
Abolir as concessões para fechar as brechas
Jesus nos fez um alerta claro no Evangelho de Mateus: “Vigiai e orai para que não entreis em tentações”. O demônio anda ao redor como um leão que ruge, procurando a quem devorar. E é importante compreender: o inimigo costuma entrar exatamente pelas pequenas concessões, e não por grandes invasões ostensivas. Tudo começa no coração e na mente, como alerta Mateus 15,19: é de dentro que procedem os maus pensamentos. O processo da queda costuma seguir cinco etapas bem definidas:
- Atração: A ideia ou tentação surge no pensamento;
- Sedução: Começamos a dialogar com a tentação e a alimentá-la;
- Consentimento: Justificamos o erro em nossa mente;
- Pecado: O ato interior transforma-se em ação concreta;
- Morte: A consequência final do pecado, que mata a vida da graça no alma.
Foi exatamente assim que a tentação agiu na história bíblica. Eva não caiu apenas quando comeu do fruto, mas no momento em que abriu concessão para dialogar com a serpente. Sansão não perdeu sua força de repente; ele cedeu gradativamente aos desejos alimentados no coração até adormecer nos joelhos de Dalila e ter sua vida destruída. Não brinque com aquilo que tem o poder de destruí-lo.
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A santidade é construída nas pequenas fidelidades
O Catecismo da Igreja Católica nos lembra que o pecado é uma falta contra a razão, a verdade e a consciência reta (Art. 1849). Quando repetimos atitudes erradas por meio de concessões, nossa consciência vai perdendo a sensibilidade espiritual. No início, o erro incomoda; depois, passa a ser tolerado e, por fim, torna-se “normal”.
Uma pequena rachadura não reparada pode derrubar um edifício inteiro. Da mesma forma, uma pequena concessão cultivada abre espaço para a ruína espiritual. Para interromper esse ciclo, precisamos tomar atitudes concretas:
- Se um pensamento ruim vier, corte-o imediatamente e não dialogue com ele.
- Se uma conversa ou ambiente enfraquece a sua fé, estabeleça limites e afaste-se.
- Se perceber um hábito ruim crescendo (como conteúdos inadequados no celular ou pequenos desvios de conduta), renuncie agora mesmo.
- Se caiu, não permaneça no chão: recorra de imediato ao sacramento da Confissão com um coração verdadeiramente arrependido.
Assim como pequenas concessões podem levá-lo a grandes quedas, são as pequenas fidelidades diárias que constroem a verdadeira santidade. Uma oração sincera ao acordar, uma renúncia silenciosa, a frequência aos sacramentos e a intimidade com a Palavra de Deus e com o nosso Anjo da Guarda sustentam a nossa vida.
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Decidir perseverar com fidelidade
Coloque a mão no seu coração e escute o que o Senhor lhe diz hoje: Ele quer preservar o seu coração. Não espere a queda para perceber o perigo. Não espere perder para dar valor. Não espere a corrente ficar forte demais para tentar quebrá-la.
Hoje é o dia de abandonar as pequenas concessões! Hoje é o dia de escolher novamente a fidelidade, a liberdade e a paz que vêm de Deus. Ouça a promessa que Jesus faz aos que permanecem firmes: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel no pouco, eu te confiarei muito mais.” (Mt 25, 21).
Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin
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