Que alegria poder vir aqui, no Dia de Finados, falar deste livro que escrevi, intitulado “A Morte e a Vivência do Luto: Caminho de Dor e Esperança na Presença de Deus”. No sábado, participei da Santa Missa celebrada pelo Padre Cléberson, e ele dizia que nós tínhamos que falar sobre a morte com alegria. Então, é exatamente isso que eu quero trazer para vocês.
Mais do que todo o conteúdo presente neste meu livro, eu quero que vocês se sintam acolhidos. Pedi essa graça ao Senhor. Como uma irmã mais velha — que pode até ser mãe de alguns aqui —, quero acolher você hoje no coração de Jesus, a partir do meu coração. Para você que está vivendo o luto, quero proporcionar essa experiência, assim como fiz agora com a Marlene, quem conheço há muitos anos e é ministra da Eucaristia aqui, quando ela me deu um abraço.
Um abraço de aconchego, de amor; um abraço que expressa o amor de Deus. É assim que desejo que você se sinta neste momento em que falaremos sobre um assunto que, muitas vezes, é difícil para nós. Quero pedir essa graça de estarmos verdadeiramente unidos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. E façamos esta ejaculatória: “Vinde, Espírito Santo, vinde por meio da poderosa intercessão do Imaculado Coração de Maria, vossa amadíssima esposa”.
A alegria e o sentido da morte para os cristãos
Hoje, no Dia de Finados, a Igreja nos convida a olhar para essa palavra que muitos costumam evitar: a morte. Convido você a perguntar a quem está ao seu lado: “Você sabia que vai morrer? Você sabe, mas já tomou consciência sobre o que é a morte?” Pergunta a essa pessoa: “Você sabia que a morte é a nossa única certeza do amanhã?”

Marina Adamo / Acampamento Cura dos traumas da morte 2026 / Canção Nova – Foto: Reprodução Youtube / Canção Nova Play
Infelizmente, há pessoas que até batem na madeira ao ouvir falar da morte, mas, para nós católicos, ela é o sentido do nosso viver. A morte será o momento em que nos encontraremos com nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, é uma alegria vir falar para vocês sobre a morte.
Quero rezar mais uma vez e pedir que rezemos juntos a Ave-Maria. Muitas vezes, repetimos essa oração como papagaios, sem perceber e sem habitar naquilo que rezamos. Vamos rezar novamente:
“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém”.
Obrigada, Mãezinha, porque a Senhora nos ensina como devemos desejar a morte.
Ao meditarmos sobre os santos — e tive a graça de escrever um livro que será publicado no próximo ano pela editora, chamado “Mestras do Amor”, que conta a vida de santas que amaram intensamente a Jesus, a começar por Santa Maria Madalena, passando por Santa Teresa d’Ávila e outras —, nós pensamos: “Meu Deus, como eu gostaria de ser como esse santo ou essa santa, que deseja morrer para se encontrar com Jesus!”
O caminho de dor e esperança na presença de Deus
Quero mostrar este livro para você que está em casa. Ele traz uma caverna na capa porque muitas pessoas que perderam entes queridos — um esposo, uma esposa, um filho, uma filha, um amigo muito querido ou um pai espiritual, como nós, que recordamos sempre o Monsenhor Jonas Abib — acabam ficando um tempo como se estivessem trancadas dentro de uma caverna.
A psicologia indica que o luto considerado normal dura de um a dois anos, mas isso varia de pessoa para pessoa, pois o luto é cíclico. Quando a perda é recente, a pessoa vivencia dentro dessa caverna o estágio inicial da negação. Muitos não querem conversar com ninguém, nem mesmo se alimentar.
Entretanto, coloquei na capa uma luz que entra nessa caverna. Não podemos esquecer que, no meio da tristeza e do luto, o Senhor está conosco. Essa luz entra e vai curando todas as nossas feridas. Por isso o subfrasear do livro diz: é um “caminho de dor e esperança na presença de Deus”. É um caminho de dor, sim, não podemos negar; contudo, é vivido na presença de Deus.
Nós, católicos, não podemos esquecer que a morte é uma certeza do nosso amanhã. Às vezes não queremos nem pensar nisso. Eu mesma não queria pensar na morte da minha mãe, ocorrida em 2014, quando ela já tinha 89 anos. Mas o dia chega. O dia chega.
Entendendo as fases do luto segundo Elisabeth Kübler-Ross
Quando eu estava preparando esta pregação, lembrei-me de que o dia sempre chega. O Paulo, coordenador de eventos aqui, falou-me no início do ano que eu pregaria neste acampamento. Pensei que estava longe, mas fui criando expectativas. Como meu livro tem muito conteúdo, perguntei-me: “Sobre o que falarei? Falaria de como elaborar o luto? Dos estágios do luto? Sobre a cremação?” Claro que não daria tempo de abordar tudo, mas no livro consta o que a Igreja ensina sobre a cremação.
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Este livro nasceu de um trabalho científico durante minha pós-graduação em counseling (aconselhamento). Enquanto vivia o luto pela minha mãe, em uma aula sobre o tema, decidi escrever sobre aquilo que estava experimentando. Contudo, como um trabalho acadêmico não comporta a dimensão espiritual, adicionei a espiritualidade e o ensinamento dos santos sobre a morte.
O dia da pregação parecia distante, mas chegou. O dia preparado por Deus para estarmos aqui chegou. Meus irmãos e minhas irmãs, o dia da nossa morte vai chegar. O dia de partirem as pessoas que tanto amamos — e sem as quais parece que não conseguiremos viver — também vai chegar. E nós, católicos, precisamos assumir que este é um caminho de dor, mas também de esperança na presença de Deus.
Na contracapa do livro, faço a seguinte reflexão:
“A morte é uma certeza da nossa vida. Sabemos que um dia ela chegará. Entretanto, a civilização ocidental moderna tem nos levado a não pensar e nem falar nesse momento, não é mesmo? Poucas pessoas sabem o que dizer para alguém que perdeu um ente querido. Neste livro, ofereço uma visão profundamente pessoal para ajudar a entender o que você, seu familiar ou amigo pode estar enfrentando ou mantendo trancado durante o luto.”
A Palavra de Deus que enxuga as lágrimas
Precisamos assumir a palavra que está em Apocalipse 21, 4:
“Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. Já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.”
O Senhor quer enxugar as suas lágrimas. Você que está aqui no Rincão do Meu Senhor ou você que está em casa chorando com a dor do luto: o Senhor diz isso a você hoje. Esta é a palavra certa na hora certa. Em grego, a palavra oportuna enviada por Deus para o momento presente chama-se rêma. Este é o rêma para você hoje.
Repita comigo:
“Enxugará toda lágrima dos seus olhos. E já não haverá morte, nem luto,nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição”.
Enxugue suas lágrimas! A Palavra de Deus tem o poder de curar, restaurar e transformar até o sentimento mais doloroso.
A esperança cristã segundo São Paulo (1 Tessalonicenses 4, 13)
Na Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses (4, 13), encontramos este ensinamento:
“Não vos entristeçais como os outros homens que não têm esperança.”
Por isso, hoje não é um dia de desespero. Podemos sentir tristeza, mas não devemos dizer que é o dia mais triste da nossa vida, pois assumimos a fé na Palavra.
Quando recebemos a notícia da morte de alguém amado, parece que o mundo para. A vida continua ao nosso redor, as pessoas seguem seus compromissos, mas dentro de nós algo muda profundamente. A perda pode provocar tristeza, revolta, solidão e perda de sentido.
A fé não significa ausência de sofrimento, mas significa não sofrer sem esperança. Talvez você tenha chegado a este acampamento carregando uma saudade que poucas pessoas compreendem. Quando não damos nome ao que sentimos, fica muito mais difícil enfrentar e superar a dor.
Como canta o diácono Nelsinho Corrêa, meu afilhado e compadre:
“Só se tem saudade do que é bom. Se eu amei, se eu chorei, foi mais importante do que tudo isso.”
Seguimos com saudade, contudo com a certeza de que reencontraremos nossos amados no céu, pois cremos na comunhão dos santos.
Processo de cura interior
A vivência do luto é pessoal e cada relacionamento é único. A psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, em sua obra *Sobre a Morte e o Morrer*, identifica cinco estágios do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Nem todas as pessoas vivenciam esses estágios de forma linear, pois o processo é cíclico. Mesmo quando nos sentimos curados, datas comemorativas ou lembranças podem trazer a tristeza de volta.
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A perda do pai na infância e o impacto do trauma
Compartilho com vocês um trecho da minha história. Perdi meu pai quando tinha apenas 6 anos de idade. Meu pai tinha 38 anos e minha mãe, 36; éramos seis filhos. Em um domingo de manhã, meu pai foi a uma romaria da paróquia. Eu e meu irmão de 4 anos nos levantamos cedo para dar-lhe o último beijo e abraço. Ele era compositor de música sertaneja, fazia parte de uma dupla caipira chamada “Pedrinho e Pederneiras” e era muito alegre.
Naquele mesmo domingo, ele voltou dentro de um caixão. Lembro-me do sofrimento dos meus irmãos mais velhos e da minha mãe, que precisou ser medicada. Guardei por muitos anos a imagem do caixão saindo a pé da sala de nossa casa em São Paulo.
Há 45 anos, ao participar da Renovação Carismática Católica, recebi o Batismo no Espírito Santo. A partir dali, iniciei um processo de cura interior. A cura interior acontece quando Jesus retorna ao momento exato do trauma vivido e realiza a cura das feridas emocionais. Como ensinava o Padre Rufus, feridas causadas na primeira infância (do ventre aos 7 anos) exigem profunda oração de cura.
O encontro pessoal com Jesus e a revelação do Amor do Pai
Aos 18 anos, no encontro de jovens Maranatá, tive um encontro pessoal com Jesus sob a pregação “Ideal de Vida: Jesus Cristo”. A partir daquele dia, minha vida mudou radicalmente.
Anos mais tarde, em 1991, durante um retiro em Queluz enquanto vivia o luto pela morte de uma grande amiga, a Isabel Cortez, passei por uma forte experiência de oração. Durante um repouso no Espírito, 30 anos após a morte do meu pai, consegui perdoar a Deus Pai por tê-lo levado tão cedo. A partir daquele momento, passei a ter uma experiência profunda com o Amor do Pai, sendo curada da autopiedade e capacitando-me a pregar sobre a paternidade divina.
Monsenhor Jonas Abib e a paternidade espiritual
Quando a morte do meu pai completou 18 anos, participei de uma missa em Lorena celebrada pelo Padre Jonas Abib. Ao abraçá-lo no momento da paz, ouvi o Senhor me dizer no coração: *”Estou te dando um novo pai espiritual.”* Anos depois, o Monsenhor Jonas me acolheu na comunidade Canção Nova, onde entrei com meu marido Vinícius e nosso filho Felipe no dia 8 de dezembro de 1992.
O luto silencioso e incompreendido
A perda gestacional e a resposta ao chamado missionário
Ao entrarmos na Canção Nova, desejávamos ter mais filhos. O Padre Jonas orientou-nos a ter fé, a exemplo de Sara. Em 25 de março de 1993, concebi por milagre meu filho André. No entanto, a gestação era gemelar e o outro bebê, a quem dei em oração o nome de João Paulo, faleceu ainda no ventre.
Com apenas 13 dias de vida do André, a cofundadora Luzia nos consultou sobre ir em missão para Londrina. Eu chorava muito sem compreender que estava vivenciando o luto pela perda do bebê na gestação. Ao rezar pedindo uma confirmação a Deus, recebi a passagem de Isaías: “A quem enviarei? Eis-me aqui, enviai-me.” Naquela noite, sonhei com Jesus me dizendo: “O missionário não anda com os pés fincados na terra; o missionário sempre anda com os pés fincados na areia.” No dia seguinte, partimos para a missão.
O luto na criança: a cura do pequeno André
Tempos depois, percebemos que o pequeno André também manifestava os efeitos do luto pela perda do irmão gêmeo, apresentando irritabilidade extrema. Ao levá-lo à psicologia e receber orientação para realizar orações de amorização durante o seu sono, ele foi curado do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e recuperou a serenidade.
Veja também:
.:Você não é a sua dor: como recomeçar após o luto
.:A dor da saudade x o desespero da perda
.:”A Esperança que Não Decepciona” (Rm 5,5)
Muitas mães vivenciam o luto silencioso de filhos perdidos no ventre e precisam de tempo e espaço para elaborar essa dor. Durante a pandemia de COVID-19, muitos também não puderam realizar rituais de despedida de seus entes queridos. Precisamos resgatar o acolhimento e a empatia para com aqueles que choram suas perdas.
A esperança da Vida Eterna e o exemplo dos santos
Poema de Santa Teresa D’Ávila: “Que Morro de Não Morrer”
Santa Teresa d’Ávila perdeu a mãe aos 13 anos e pediu a Nossa Senhora que assumisse sua maternidade. Após uma profunda conversão diante de Jesus Crucificado, fundou o Carmelo Descalço e legou-nos um poema célebre que expressa o desejo ardente do Céu:
Vivo sem em mim viver,
e tão alta vida espero,
que morro de não morrer.
Vivo já fora de mim,
desde que morro de amor;
porque vivo no Senhor,
que me escolheu para si;
quando o coração lhe dei,
com terno amor lhe gravei:
que morro de não morrer.
Esta divina prisão
do amor em que eu vivo,
fez a Deus ser meu cativo
e livre meu coração;
e causa em mim tal paixão
ser eu de Deus a prisão,
que morro de não morrer.
O exemplo de São Domingos Sávio
São Domingo Sávio, quando questionado por Dom Bosco sobre o que faria se soubesse que morreria em meia hora, respondeu que continuaria brincando, pois vivia com o coração voltado para o Céu.
Encerremos renovando nossa entrega por meio da oração da Ave-Maria:
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.
Transcrição e adaptação Amanda Martins
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