Padre José Eduardo

O perigo das heresias

Abra a Bíblia comigo em Segunda Timóteo, capítulo 4, versículo 1:

“Eu te conjuro em presença de Deus e de Jesus Cristo que há de julgar os vivos e os mortos por sua aparição e por seu reino. Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir, porque virá tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação, levados pelas suas paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si, apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão à fábulas”.

Um padre católico (de batina preta e colarinho clerical branco) está em pé atrás de um púlpito de madeira, falando ao microfone com a mão direita levantada em gesto de ênfase. Ao fundo, em um grande telão, aparece o texto em português “O perigo das HERESIAS” em letras grandes e destacadas, com fundo laranja e vermelho. O ambiente parece ser uma palestra ou conferência religiosa em um auditório ou igreja.

Padre José Eduardo – Foto: Bruno Marques / Canção Nova

O que você vai aprender nesta pregação:

1. A origem da heresia: como um aspecto verdadeiro se torna um ídolo absoluto
2. O mecanismo psicológico do herege: cegueira, fanatismo e busca por segurança
3. Fé Dogmática vs. Ortopraxia: a importância da Fé Ortodoxa para a salvação
4. Heresias históricas e modernas: do arianismo ao perigo do pelagianismo
5. A imunidade contra o engano: permanecer alicerçado na Igreja

Esse trecho de São Paulo é muito importante para nós utilizarmos como início desta pregação sobre o perigo das heresias, justamente porque São Paulo mostra como a sã doutrina, a doutrina da salvação, incomoda. A doutrina da salvação nos tira do nosso lugar de conforto. A doutrina da salvação nos coloca numa posição de confronto diário do qual todos nós queremos arranjar um jeito de nos subtrair.

Então, nós queremos nos afastar; e muitos, ao invés de abandonarem a sã doutrina, tentam ajustar mestres para si, ou seja, tentam adaptar a doutrina às suas preferências. Esse é um padrão que nós encontramos na história da igreja, inclusive, até hoje em nossos dias. Por exemplo, em questões morais, a palavra de Deus é clara: isso é pecado, aquilo é pecado, isso outro é pecado. Mas sempre aparecerão mestres ensinando outra coisa, dizendo: “Olha, veja bem, não é bem assim etc.” Com palavras mais ou menos diplomáticas, eles tentam adaptar a Doutrina aos seus caprichos.

O que é heresia? O mecanismo psicológico do engano

A definição etimológica: escolha e seleção

O que é uma heresia? A definição de heresia vem do seu próprio significado etimológico. Heresia vem de aireses, palavra grega que significa escolha, seleção. Por quê? Porque, por uma heresia, o homem escolhe algo em que acreditar.

Vejam bem, nenhuma heresia nasce da mentira, porque a nossa inteligência repugna a mentira. Se eu chegar aqui dizendo para vocês que vou construir todo um sistema de pensamento a partir de uma mentira, ninguém vai levar aquilo a sério.

O nascimento da heresia

Então, toda a heresia nasce de um aspecto verdadeiro da realidade. E muitas vezes, nós tentamos vencer uma heresia negando o aspecto verdadeiro no qual ela está assentada, e isso nunca funciona. Aquele aspecto verdadeiro é verdadeiro; não tem como você desmenti-lo.

Porém, as heresias nascem de um aspecto que é um aspecto… Isso é muito interessante nós observarmos. É como se nós tivéssemos um poliedro, ou seja, uma figura geométrica com muitos lados, e nós fixássemos a nossa atenção apenas em um lado. Eu escolho olhar para esse lado, eu escolho privilegiar esse lado, e esse lado define tudo.

Aqui nós começamos a falar propriamente do mecanismo psicológico de uma heresia. Nós pegamos um aspecto da realidade, nós o valorizamos, nós o exageramos, nós o tornamos desproporcional, e aquele aspecto acabou ocupando toda a nossa atenção. Ele é um aspecto parcial, mas nós o elevamos à categoria de absoluto.

Quando uma parte é escolhida por nós como a parte mais importante, a tal ponto que ela se torne um princípio, a categoria suprema a partir da qual nós analisamos todas as demais coisas, então nós estamos no campo aberto de uma heresia. Qual que é o remédio contra isso? Eu já vou dizer logo no começo: o remédio contra isso é você nunca se contentar com uma parcela, você sempre se distanciar um pouco daquela parcela para enxergar um quadro mais amplo.

O que acontece é que toda a heresia produz cegueira e fanatismo. É aquilo que nós chamamos de espírito de engano. A pessoa fica completamente trancada naquele ângulo minúsculo da realidade e já não enxerga mais nada. Inclusive passa a ter ódio daquilo que ultrapassa aquele pequeno ângulo no qual ele se enclausurou.

Insegurança e rigidez do herege

Aqui vai mais uma característica psicológica da heresia: por que uma pessoa é capaz de se aferrar tanto a uma heresia? Porque a heresia lhe dá segurança. Aquela sensação de que você está certo e está todo mundo errado. A sensação de que a verdade é para poucos. Se eu tenho que estar no número desses poucos, eu quero ter a segurança psicológica de que eu estou do lado certo. Mas são forças que brotam do quê? Da insegurança.

Por isso, todo herege é rígido, todo herege é de dura cerviz. Você não consegue fazê-lo pensar. Ele divide a humanidade em duas categorias: os que são contra e os que são a favor. O herege precisa criar fantasmagorias para se proteger na sua posição fanática. Para sair dela, ele precisaria ser muito humilde. A verdade, meus queridos, não precisa de tanto aparato pirotécnico assim.

Quando você precisa fazer algo parecer bom, você gasta tudo com marketing, com propaganda, com discursos higienizados, com embelezamentos retóricos, com lutas artificiais. Você tem que fazer isso, senão você não consegue fazer a heresia passar por verdade, uma vez que você tem que trancar todo mundo dentro daquele pequeno ângulo que você escolheu como lente absoluta.

A crise da fé ortodoxa na Igreja moderna

Quando nós falamos de fé, a maior parte das pessoas do nosso tempo pensa: por que fé é tão importante assim? Será que não basta eu crer em Deus com todo meu coração em Jesus? Por que que eu preciso crer, por exemplo, na virgindade perpétua de Maria? Por que que eu preciso crer na Eucaristia? Por que que eu preciso crer que a Igreja é uma instituição divinamente fundada e não é uma mera instituição humana, e, portanto, ela tem uma constituição divina criada por Cristo? Por que que eu tenho que crer em tantas coisas?

A palavra heresia saiu do vocabulário normal da Igreja. Você raramente vê alguém condenado por ser herege. Você vê pessoas sendo condenadas por abuso sexual, por má administração financeira, por escândalos de outro tipo, mas por heresia, raramente.

A priorização da ortopraxia

Isso começou com os teólogos alemães que passaram a dizer: não basta ter a ortodoxia (orto: reto; doxa: opinião), ou seja, não basta ter a opinião correta, a fé correta. Eu preciso ter a prática correta, a ortopraxia. Isso não está errado. Mas em que consiste uma heresia? Você pega uma parte e a absolutiza.

Então, o que que é mais importante dentro desse contexto é a práxis de Jesus, é a prática do Evangelho. Rapidamente, isso migra para um discurso social: a prática da justiça, a prática da libertação, etc. E a fé, a fé vai se tornando um elemento decorativo. E a fé ortodoxa, ou seja, a fé verdadeira, começa a se tornar desimportante dentro de um cenário que privilegia excessivamente a ortopraxia.

Só que as escrituras dizem que nós somos justificados pela fé. O profeta Habacuque, São Paulo, São Tiago mencionam a mesma ideia: O justo vive da fé. Jesus disse: “A obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou”. “Aquele que crê no filho tem a vida. Quem nele não crê, sobre ele cai a ira de Deus” (João 3,36). Quem nele crê será salvo, quem não crê será condenado.

As escrituras são claras acerca da importância da fé ortodoxa. Ou seja, você tem que varrer da sua mente todo tipo de doutrina incompatível com a fé católica. O católico precisa crescer em consciência doutrinal, porque sem fé é impossível agradar a Deus.

Fé dogmática vs. fé fiducial

Os protestantes tiveram que abandonar a noção católica de fé dogmática. A nossa noção católica é a de quem tem fé dogmática: eu creio naquilo que Deus revelou e foi estabelecido pela Igreja. Ponto.

Lutero tinha uma noção da fé enquanto uma confiança em Jesus, o que, na teologia luterana, acabou sendo chamado de fé fiducial. Tem muitos católicos que são católicos com fé fiducial, ou seja, uma confiança em Cristo, uma confiança na Igreja, uma confiança em Deus, que é importante, mas que é desprovida das verdades que Deus revelou.

Se eu não creio com fé dogmática, eu não tenho fé, eu tenho uma crença. Se eu não professo sobre Deus Pai, sobre o Espírito Santo, sobre a Igreja, sobre os sacramentos e tudo mais, eu não estou adorando a Deus, eu estou adorando um ídolo.

No Novo Testamento, nós somos alertados contra o espírito de engano, ou seja, os ídolos que são formados pelas ideias, ideias equivocadas acerca de quem é Deus.

O perigo do anarquismo eclesiológico

Se eu não tenho a fé ortodoxa, eu não creio no Deus verdadeiro; e se eu não creio no Deus verdadeiro, eu não sou membro do corpo de Cristo. O Papa Pio X, na encíclica Mystici Corporis, diz que nem todos os pecados são tão graves que apartem o homem da Igreja de Cristo como os pecados da heresia, da apostasia e do cisma.

Por exemplo, tem católicos que acham que a Igreja acabou e que para você ir na verdadeira Igreja você tem que pegar um avião, um ônibus, um Uber, um jumento. E quando você chega lá naquele lugarejo, então, lá está a Igreja de Deus verdadeira – ali, só ali. Escuta: isso não faz o mínimo sentido! Porque se Jesus morreu na cruz para produzir isso aí, significa que Ele fracassou.

Ultimamente, eu tenho falado muito sobre as heresias eclesiológicas que, por exemplo, acreditam que a igreja subsiste em grupos à margem da hierarquia eclesiástica ou que a hierarquia eclesiástica do Papa até o último padre se corrompeu. E agora, o que tem é uma espécie de movimento de livre e interpretação da tradição. Isso tudo é heresia.

Eles partem de uma verdade: “Estamos no tempo de crise”. Você absolutiza essa crise, transforma-a na lente pela qual você vai enxergar tudo mais, e assim você legitima todos os cismas, todas as divisões, todas as desobediências, todas as insubordinações, aderindo ao anarquismo eclesiológico revolucionário.

O arianismo e a natureza de Cristo

Este ano, nós estamos celebrando 1700 anos do Concílio de Niceia. O Concílio de Niceia enfrentou a maior heresia até então surgida na história da Igreja, que é o arianismo.

O arianismo surgiu num momento realmente adequado para ela, que foi quando acabaram as perseguições. Falar de um Deus que se fez carne, um Deus que foi humilhado, surrado, torturado, falar de um Deus nesses termos era repugnante para os pagãos. Os pagãos louvavam a grandeza, a grandiosidade, o homem forte, o homem que prevalece, o homem que vence.

Então, surge uma versão mais naturalista do cristianismo, que é o arianismo, que agradou muito o ouvido dos pagãos. O arianismo dizia o seguinte: não é que Jesus seja Deus de Deus, Deus mesmo, Deus da mesma substância de Deus. Jesus é a primeira criatura, é divino, mas não é Deus. Ele não tem a mesma substância de Deus, apenas uma substância semelhante a Ele.

Pelagianismo e a salvação pelo esforço

Notem, toda heresia dogmática produz uma heresia moral. Sempre é assim. Se Jesus foi rebaixado num nível naturalista, então você vai criar, associado a isso, uma doutrina moral que é o pelagianismo, que é uma versão moral do arianismo.

O pelagianismo diz: Jesus é o homem perfeito, Jesus é o exemplo perfeito. Ninguém é melhor do que ele. Porém, ele nos deixou apenas um exemplo. Não tem esse negócio de que a gente tem que pedir a graça de Deus. Assuma a sua responsabilidade e seja um homem inteiro. Imite a Jesus Cristo com teu esforço, porque o que salva é o esforço. Tem nada a ver com a graça de Deus. É heresia pelagiana, e ela decorre da heresia ariana.

Quando o Concílio de Niceia condenou o arianismo, logo surgiu o semiarianismo, que reduzia Cristo a uma semelhança muito próxima de Deus Pai, mas ainda não era Deus mesmo.

O semiarianismo também vai produzir o semipelagianismo, que também foi condenado pela Igreja. Semipelagianismo é o que diz assim: “Sabe aquele versículo que não existe, mas que o pessoal vive citando por aí: faz a tua parte que eu te ajudarei?” Não existe esse versículo.

A Doutrina católica não ensina isso. A Doutrina católica ensina que até o nosso esforço é produzido pela graça de Deus. Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor senão pelo Espírito Santo. Você é salvo no batismo pela graça de maneira unilateral, e você passa a vida inteira correspondendo à graça com a ajuda da graça. A graça da perseverança final é dom de Deus e também é só pela graça. Essa é a Doutrina católica: você tem graça em cima, graça embaixo, graça do lado, graça do outro, e a nossa colaboração é muito desproporcional com a graça de Deus.

Heresias contemporâneas: Jesus terapeuta e sentimentalismo

As heresias continuam aí. Jesus como um terapeuta: Quantas vezes você já viu falar de Jesus como um líder moral, um revolucionário, um guerrilheiro, ou Jesus como um terapeuta, que você vai lá na Igreja e tem um pastor falando bonitinho, afagando o teu ego, dando-lhe informações positivas. É o Jesus humanizado na boca de um coach que o faz se sentir melhor. Isso é pelagianismo.

Psicologismo e meios humanos: Quanto neopelagianismo existe hoje! Às vezes, até padres mesmo dizem: “Não, isso aqui é uma questão de psicologia, você tem que ir lá fazer a terapia que você vai melhorar”. Ok! Terapia ajuda muito, mas não resolve. Sem a graça de Deus, você não vai conseguir nem aplicar o que o terapeuta está falando.

Virtudes sobrenaturais como a castidade você não consegue com meios humanos. É pela fé, pela oração, pelos sacramentos, por uma vida intensa com Deus. Técnicas espirituais, técnicas de oração: “Vou lhe ensinar um jeito, vou lhe ensinar uma técnica, um modo…” Isso é pelagismo.

Fé genérica e sentimentalismo: o protestantismo com essa fé fiducial: “Ah, eu posso ter fé sem credo. O importante é o que eu sinto por Deus”. Quantas pessoas já te falaram: “Não, para mim Deus é uma energia superior…”. Ou seja, é uma fé que não pousa. Uma fé genérica não é fé nenhuma, é só uma crença.

Sentimentalismo: “Ah, o importante é amar. A doutrina a gente vê depois. Nós temos que nos amar, nós temos que ser irmãos que nos amam”. Tem muita Igreja que é assim, que todo mundo é grande amigo de churrasco, mas ninguém é amigo de Jesus.

A idolatria do ego e a semente cartesiana

A idolatria do ego: “Ai, o que eu sinto, a minha opinião, o meu gosto. Ai, mas eu não concordo com isso”. É uma desgraça isso daí que entrou na modernidade com um filósofo chamado Descartes. Descartes diz que o princípio da filosofia é o pensamento humano: Cogito ergo sum (penso, logo existo). Ele troca o conhecimento do objeto (o Ser) para fazer o homem voltar para si mesmo, para o seu próprio pensamento.

Dessa praga vai sair todo o ateísmo contemporâneo. Por quê? Se o ser é infinito, o meu ego é finito, é parcial, é uma partícula, inclusive é fugaz. Isso que vai fazer o homem se trancar na finitude até que ele vai esquecer Deus.

Ora, existe um modo cartesiano de se relacionar com a Bíblia. Esse modo chama-se protestantismo. Eu leio a Bíblia e eu interpreto. Existe um modo cartesiano de lidar com a tradição da Igreja. Eu leio a Tradição e eu a interpreto. O nome disso é tradicionalismo. Hoje, o culto à subjetividade moderna está por baixo de praticamente todo engano, que é a terra fértil, para que se semeiem heresias das mais descabidas.

O remédio: permanecer firme na coluna da verdade

Nós precisamos, queridos irmãos, nestes 1700 anos de Niceia, voltar à fonte da Divina Revelação. Nós precisamos voltar àquilo que diziam os santos padres, os doutores da Igreja.

Sim, é verdade: pode ser que a tua paróquia, a tua Igreja local, esteja infectada de muitos erros. Mas nós precisamos, queridos irmãos, voltar à simplicidade do ser católico, conservando a doutrina, não à margem da Igreja, mas dentro dela.

Toda narrativa antieclesiástica consiste em pegar pequenos escândalos e jogar na internet. Aconteceu um escândalo, corrige-se. Mas com uma meta narrativa: “A igreja acabou e agora é com a gente. Sigam-me os bons”. Só que se a Igreja se reduz a isso, então Jesus Cristo fracassou.

Nós não podemos correr o risco de aderir a nenhuma heresia, de aderir a nenhum cisma, porque o cisma não é um remédio contra a heresia. O cisma, pelo contrário, agrava, e a própria heresia tem natureza cismática. Para você sustentar doutrinalmente um cisma, você vai ter que ser herege.

A verdadeira Igreja na imperfeição

Lembrem-se da grande ironia do nosso tempo, como na história do policial federal com o falso padre. O policial disse: “Isso está perfeito demais para ser um padre”.

É na imperfeição, é na acidentalidade, é no dilema, na ambivalência, na dificuldade, na provação, no desencontro, é aí que está a verdadeira Igreja de Cristo. Muita coisa que era bonitinha aqui vai se mostrar muito feia do lado de lá, e muita coisa que você achava que era feia aqui, o céu olha e diz: “Ó, eu tenho prazer com esse coração, com essa alma”.

Não se deixem enganar por miragens. Jesus disse no seu sermão escatológico, em Mateus 24, versículo 12: “Cuidem para que ninguém vos engane”.

Leve isso muito a sério e saiba, meu querido, que só existe uma imunidade contra a heresia: é permanecer firmemente alicerçado na igreja, a quem São Paulo chamou de coluna e fundamento da verdade.

Deus os abençoe!

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