A raiz da fraternidade está na paternidade de Deus

Padre Adriano Zandoná
Foto: Natalino Ueda
“E vós todos sois irmãos. […] um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mateus 23,8-9).

Mensagem do Santo Padre Francisco para a celebração do XLVII Dia Mundial da Paz – 1º de janeiro de 2014 FRATERNIDADE, FUNDAMENTO E CAMINHO PARA A PAZ

«E vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8). […] Há um só Pai, que é Deus, vós sois todos irmãos (cf. Mt 23, 8-9). A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando é acolhido, torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das relações com o outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha ativa (n. 3*).

É o amor de Deus e a certeza de que somos queridos e aceitos por Ele que nos motiva e nos encaminha para o exercício da fraternidade. Ele é a própria Aliança, o espaço pessoal da reconciliação do homem com Deus e dos irmãos entre si. Na morte de Jesus na cruz, ficou superada também a separação entre os povos (…). Como se lê na Carta aos Efésios, Jesus Cristo é Aquele que reconcilia em Si todos os homens. Ele é a paz, porque, dos dois povos, fez um só, derrubando o muro de separação que os dividia, ou seja, a inimizade. Criou em Si mesmo um só povo, um só homem novo, uma só humanidade nova (cf. 2,14-16). (n. 3*).

A partir da compreensão de nossa filiação divina por intermédio de Cristo, toda divisão e inimizade precisam ser desterradas de nosso coração e história. N’Ele nosso coração precisa aprender a construir uma cultura de fraternidade: em nossas casas, famílias, relacionamentos, ambientes de trabalho, entre outros. Esse é o "X da questão": colocar um fim nas picuinhas e desentendimentos e criar uma cultura de fraternidade! É nisso que tem insistido o Papa Francisco. 

O homem reconciliado vê em Deus o Pai de todos e, consequentemente, é solicitado a viver uma fraternidade aberta a todos. Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo.

Na família de Deus, na qual todos são filhos dum mesmo Pai e porque são enxertados em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas descartáveis». Todos gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo. (n. 3*).

A fraternidade gerada pela compreensão da paternidade de Deus nos faz ressaltar e defender a dignidade de todo e qualquer ser humano, que é um irmão – filho do mesmo Pai – e jamais um inimigo ou uma matéria descartável, por isso passível de ser eliminada. A compreensão de que somos, em Cristo, filhos do Pai e amados por Ele, faz nascer em nós o desejo da bondade: esse é um desejo natural, que brota da contemplação do Filho, que deseja reproduzir em sua história o que vê o Pai fazer.

"Permita-se ser conduzido pela graça de Deus", nos convida padre Adriano
Foto: Natalino Ueda
O termo "bondade" será para nós um sinônimo de fraternidade, e até maisque isso, visto que ela [bondade] é o impulso que gera e move a fraternidade. Bondade é a compreensão de que somos infinitamente amados pelo Pai, e a consequente capacidade de aos outros amar impulsionados por este paterno amor. Contudo, essa bondade presente no Criador, não está pronta e acabada em nós, sendo que só seremos capazes de protagonizá-la à medida que soubermos fazê-la crescer em nós.

Catecismo da Igreja Católica § 302 – A criação tem sua bondade e sua perfeição próprias, mas não saiu completamente acabada das mãos do Criador. Ela é criada "em estado de caminhada" ("in status viae") para uma perfeição última a ser ainda atingida, para a qual Deus a destinou. Por isso, é preciso trilhar um caminho de constante aperfeiçoamento da “bondade da criação”, dessa bondade presente em nós, adentrando constantemente na escola da bondade, virtude essa que precisa ser perenemente bem apreendida por nossa mente e coração.

“Me esforço para ser melhor a cada dia, pois compreendi que bondade também se aprende" (Cora Coralina).
   

BONDADE
Ninguém nasce odiando outra pessoa
pela cor de sua pele,
ou por sua origem, ou sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender,
e se elas aprendem a odiar,
podem também ser ensinadas a amar,
pois o amor chega mais naturalmente
ao coração humano do que o seu oposto.
A bondade humana é uma chama que pode ser até ocultada, mas, jamais plenamente extinta.
(Nelson Mandela)

Você consegue hoje perceber o que o barra no aprendizado da bondade? Você consegue contemplar o que o impede de crescer e avançar nessa virtude? A bondade, que gera a fraternidade, é realidade que deve ser aprimorada, contudo, para isso, precisaremos identificar o que nos trava no seu exercício. Alguém, por exemplo, que não investiu na travessia da própria cura afetiva e emocional e que vive refém de medos e traumas, que são as feridas do passado, não será capaz de bem amar e de aprimorar em si a bondade.

Aqui quero falar da realidade dos afetos e emoções e da necessidade da devida cura e equilíbrio dessa dimensão, temática de meu segundo livro, visto que se não “investirmos” em tal realidade, não conseguiremos avançar no aprendizado da bondade nem conseguiremos construir as condições necessárias para uma vida mais feliz e sem conflitos desnecessários.

Bondade atrai bondade e gera, em todos os aspectos, uma vida mais feliz e saudável, pois a cultura da fraternidade atrai a felicidade. Contudo, a pessoa ferida em seus afetos e emoções, inevitavelmente, se torna imatura, sendo escrava do egoísmo e não conseguindo construir uma cultura de solidariedade. Por essa razão, para se viver a bondade, que gera a fraternidade, será preciso investir na cura das próprias feridas afetivas e emocionais presentes no solo de nossa história, e isso a partir do grande amor do Pai, que tudo pode curar e transformar.

Muitas vezes, o que não nos deixa ser bons nem é tanto a maldade, mas sim a falta de cura e equilíbrio em nossos afetos e emoções, ou seja, a falta de uma forte e concreta experiência com a paternidade do Pai. Deus Pai hoje quer curar e equilibrar, com o Seu divino amor, os nossos afetos e emoções, para que possamos exercer a bondade e assim construir uma cultura de fraternidade, o que resultará em uma vida mais feliz para nós e para aqueles que conosco convivem.

 
 

Padre Adriano Zandoná


Sacerdote da Comunidade Canção Nova

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