Profecia de Daniel e as quatro bestas: por que o cristão não deve temer o fim do mundo?
Naquele tempo, Jesus contou-lhes uma parábola: “Olhai a figueira e todas as árvores; quando vedes que elas estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto. Vós também, quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o reino de Deus está perto. Em verdade eu vos digo, tudo isso vai acontecer antes que passe esta geração. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”.
Queridos irmãos e irmãs, nestes dias, estamos lendo a profecia de Daniel, chegando ao capítulo sétimo, o qual apresenta um pequeno apocalipse em Daniel.

O que você vai aprender nesta homilia?
1. O simbolismo histórico das quatro bestas
2. A leitura alegórica das Revoluções Modernas
3. A soberania Imutável de Deus
4. A esperança no Triunfo de Cristo
5. A postura do cristão diante do fim
O gênero apocalíptico e a ação de Deus
O termo “apocalipse” é uma palavra grega que significa revelação. É um gênero literário que utiliza imagens fortes e intensas, incluindo um bestiário – um conjunto de imagens de animais – para falar dos poderes e das autoridades que não podiam ser nomeados explicitamente. Este tipo de linguagem camuflada é utilizado quando a liberdade de expressão é prejudicada, como em regimes totalitários.
A importância desse pequeno apocalipse em Daniel reside no fato de que sua linguagem será reaproveitada quando São João for escrever o seu Apocalipse e também pelos autores dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), onde existem pequenos apocalipses.
A profecia começa com Daniel dizendo: “Eu, Daniel, tive uma visão durante a noite, e eis que os quatro ventos do céu revolviam o vasto mar”.
O vento de Deus sopra sobre o caos
Os “quatro ventos do céu” representam a ação de Deus. No livro do Gênesis, logo no início, é dito que o “vento de Deus, o espírito de Deus, a ruah de Deus soprava, ventava sobre as águas”. Aqui, temos o “vasto mar”, que é símbolo do mundo, mas também da destruição, da devastação e da desolação.
Deus está agindo sobre esse caos. Quantas vezes estamos na desolação, no deserto ou no caos, pensando que Deus não está agindo! A mensagem é que o espírito de Deus, o vento de Deus, está soprando sobre os nossos desertos e desolações. Deus está agindo mesmo no caos da história.
A leitura histórica das quatro bestas de Daniel
Do mar, que simboliza o mundo e a destruição, surgem quatro grandes bestas, animais diferentes uns dos outros.
A primeira besta: o leão da babilônia
O primeiro animal era semelhante a um leão e tinha asas de águia. Este é, historicamente, o símbolo da Babilônia, que era representada como um leão alado. A visão descreve que lhe foram arrancadas as asas, ele foi erguido da terra e posto em pé como um homem, e lhe foi dado um coração de homem. Isso se refere ao castigo que Nabucodonosor recebeu de Deus, perdendo a razão e comportando-se como um animal, e depois se humilhando e se arrependendo do seu orgulho.
O urso do império Medo-Persa
O segundo animal era semelhante a um urso, que estava erguido pela metade e tinha três costelas entre os dentes (“nas falsces”). Este representa o império medo-persa, que venceu o império babilônico. Ele é comparado a um urso por ser grande e ter um exército grande e pesado. As três costelas na boca simbolizam as três potências que o império conseguiu dominar: a Lídia, a Babilônia e o Egito. Ele é erguido pela metade porque a Pérsia era muito mais forte que a Média.
O leopardo de Alexandre, o Grande
O terceiro animal era semelhante a um leopardo, com quatro asas de ave no dorso e quatro cabeças. Este é o império de Alexandre, o Grande, o império macedônio. Ele é rápido como um leopardo. As quatro asas de ave representam os quatro generais do império macedônio—Ptolomeu, Lisímaco, Cassandro e Seleuco—que dividiriam o império entre si após a morte de Alexandre.
O quarto animal terrível: o poder do Império Romano
Em seguida, Daniel viu o quarto animal: terrível, estranho, extremamente forte, com dentuças de ferro, que tudo devorava e triturava, e era diferente dos outros, possuindo 10 chifres. Aqui está representado o Império Romano. Os 10 chifres indicam poder total, pois 10 é o número da totalidade.
Observando os chifres, surgiu um chifre pequeno, que tinha olhos, como olhos de homem, e uma boca que fazia ouvir uma fala muito forte. Esse pequeno chifre é uma imagem de Antíoco Epífanes, que assumiu o governo Seleucida, incluía a região de Judá, e é descrito no livro dos Macabeus como um homem blasfemo que se levantou contra Deus e colocou um ídolo no templo de Jerusalém.
Antíoco Epífanes é morto, e o seu império não prevalece. Aos restantes animais (os três primeiros impérios) foi prolongada a vida por certo tempo, indicando que o poder do Império Romano um dia cairá, mas a filosofia, política e crenças dos impérios anteriores continuam subsistindo de alguma maneira no Império Romano.
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A leitura alegórica: as quatro revoluções da história
Fazendo uma leitura alegórica do texto, as quatro bestas podem ser a imagem das quatro revoluções pelas quais passamos até o momento presente.
A revolução protestante (leão com asas)
A primeira revolução (leão com asas) é a revolução protestante, quando os homens tomam as Sagradas Escrituras, saem da tutela da Igreja e voam com as suas interpretações.
A Revolução Francesa/Humanismo (urso)
O segundo animal, o urso poderoso e forte que traz as costelas entre os dentes, pode ser comparado à segunda revolução: a revolução do humanismo e a Revolução Francesa. Essa revolução tomou a Europa, destruindo as forças da Igreja através da exterminação sanguinária de discípulos do Senhor. As costelas na boca representam o clero, a nobreza e tantos fiéis que morreram dando testemunho.
A Revolução Comunista/Humanismo Ateu (leopardo)
O terceiro animal, o leopardo com quatro cabeças, é a revolução do humanismo ateu, a revolução comunista. Ela vem para dilacerar tudo com seu materialismo feroz, buscando um poder totalitário.
A Revolução Pós-Humana (quarta besta) e a imagem do anticristo
A quarta besta, que tem dentes de ferro, devora e tritura tudo, e possui 10 chifres (poder imenso), pode ser uma imagem perfeita da revolução pós-humana que começou com a revolução sexual em 68. Essa revolução busca destruir tudo: a família, as sociedades e até a identidade do ser humano (homem, mulher, filho, pai), triturando e calcando aos pés o que sobra.
Nesse cenário, surge o pequeno chifre, que muitos padres da Igreja entendiam ser uma imagem do anticristo, o homem da iniquidade, filho da perdição, segundo São Paulo na segunda carta aos Tessalonicenses.
A soberania do ancião de Dias e a esperança em Cristo
A mensagem principal do profeta é que todos esses impérios e revoluções vão acabar. Embora o quarto império seja extenso, forte, carregando o significado dos anteriores (as revoluções são cumulativas), nós não podemos esquecer que o vento de Deus continua soprando e que Deus continua sendo soberano.
Deus no trono: imutável e soberano
Daniel “continuava olhando até que foram postos uns tronos e um Ancião de Dias aí tomou lugar”.
Deus Pai está no seu trono. A sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça como lã pura. O trono tinha rodas, o que significa que Deus impera em todos os cantos da terra e não há nenhum lugar onde Ele não seja soberano.
Deus está no seu trono e dele não se ausenta. Ele é o Ancião de Dias, ou seja, Ele criou tudo, está fora do tempo, é eterno. Enquanto tudo que é criado é mutável e passível de mudanças, Deus não muda; Ele é sempre o mesmo. O salmista diz que Ele é “sempre idem”, e o autor da carta aos Hebreus diz que Ele é um fogo devorador. São Paulo diz aos Gálatas: “De Deus não se zomba”.
Deus onipotente zomba daqueles que se levantam contra Ele. A história inteira está sendo conduzida para uma direção que não é a direção que os impérios dessa terra perseguem.
O Messias, o Filho do Homem: reino eterno
Daniel viu um como Filho de Homem (nosso Senhor Jesus Cristo) vindo entre as nuvens do céu, aproximando-se do Ancião de muitos dias. Este é o Messias.
Foram-Lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviam. Seu poder é um poder eterno que não Lhe será tirado, e o Seu reino, um reino que não se dissolverá. O Filho do Homem vem do céu, e a esperança vem do céu. Ele retornará em glória e majestade.
A mensagem principal: coragem e fé na barca da Igreja
Estamos considerando a realidade do fim do mundo, mas não podemos ser pessoas que se impressionam, como há católicos assustados por aí.
Não se assuste: Deus não se ausenta
É preciso entender que Deus é o Ancião de dias; Ele já viu impérios se levantarem e caírem, e Ele estabelece o rei e também o faz cair. Ele é onipotente, pare de ser assustado. Não se assuste nem fique apavorado, nem se deixe levar por sensacionalismo. As revoluções vão passando, mas Deus é sempre o mesmo; Ele está sentado no seu trono.
O profeta insiste: “Eu continuava olhando… continue olhando, continue”. Mesmo que o cenário pareça devastador, continue na contemplação e na oração, firme, enxergando as coisas da perspectiva de Deus.
A vitória que vence o mundo é a nossa fé
A história inteira está sendo conduzida para o Cordeiro que foi imolado, mas que está de pé e ressurrecto; é Ele o vencedor.
São João disse: “Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé”. E mais: “Maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo”. A leitura apocalíptica não foi escrita para que tenhamos medo, mas para nos dar coragem. Você está do lado que vai vencer, que já venceu.
Permanecer na barca: o caminho da segurança
O mundo pode fazer parecer que a Igreja será sufocada, sepultada ou naufragada pelas forças do mar. A situação é comparável à época de São Paulo, quando seu barco começou a naufragar. O anjo que servia a Paulo lhe disse: “Todos os que ficarem na barca não perecerão”.
Esta barca é a Igreja de Deus. O chamado é: “quem estiver aqui dentro, não pule”. Pode ser tentador pular quando as forças do mar entram e tomam espaço, deixando as pessoas nervosas ou apavoradas. Não faça nada, fique apenas dentro da barca, fique ali.
As bestas vêm do mar, mas as bestas morrem. O único que não morre, que é Ancião de Dias, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, é Aquele que está sentado no trono e o Cordeiro. Essa é a nossa segurança.
Use a sua fé como escudo, como espada, como arma defensiva e ofensiva. Ore com força, como quem sabe que tudo depende de Deus. A promessa de Cristo é que as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Não duvide da promessa de Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.
A história vai se concluir não com a derrota de Deus, mas com a Jerusalém celeste. A solução para todos os problemas não vem do que é humano—política, economia, “essas porcarias todas”—mas vem do céu. A esperança vem do céu; só Jesus, no Seu retorno, vai consertar tudo.
Maranata! Vem, Senhor Jesus!
Transcrição e adaptação: Michelle Mimoso




