Alexandre Oliveira e Beatriz Valdez

Que o Diabo não vos engane

Vencendo as tentações entre a divindade e a humanidade

Alexandre Oliveira: Abre aí a sua Bíblia em Mateus, capítulo 4, a partir do versículo primeiro. O tema desta pregação para você que está em casa — um bom dia para você também — é este: que o diabo não vos engane. Quero perguntar a você: quem aqui, nestes dias de rebanhão, sentiu muito forte o amor de Deus, a presença de Deus, a força do Espírito Santo?

O homem, de cabelos grisalhos e óculos, fala ao microfone enquanto gesticula sobre uma Bíblia no púlpito. Ao seu lado, a jovem de blusa vermelha observa atentamente.

Pregação do Alexandre Oliveira e Beatriz Valdez – Foto: Adailton Batista / Canção Nova

Quem aqui se emocionou, segurou as lágrimas, foi tocado profundamente? E quem aqui recebeu luz, orientação e sabedoria para saber o que fazer em determinada situação? Que bom! Quanta gente! São frutos maravilhosos. Mas agora vem a pergunta: o que você pretende fazer com tudo isso? Com toda essa paz, com todo esse fervor?

Vejamos Mateus 4, 1-11: Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito para ser posto à prova pelo diabo. Ele jejuou durante 40 dias e 40 noites. O tentador aproximou-se e disse: “Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Jesus respondeu: “Está escrito: Não se vive somente de pão, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. O diabo ainda o levou ao ponto mais alto do templo e a uma montanha muito alta, oferecendo-lhe reinos e riquezas se Ele o adorasse.

Jesus disse: “Vai embora, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor, teu Deus e só a ele prestarás culto.” Por fim, o diabo o deixou e os anjos se aproximaram para servi-lo. Palavra da Salvação! Aplauda a palavra de Deus!

O Messias que o mundo não esperava

Amanhã entramos na Quaresma, e o primeiro domingo já fala das tentações. Antes do capítulo 4, vem Mateus 3, 17, no batismo de Jesus, onde uma voz do céu diz: “Este é o meu filho amado, nele está o meu agrado”. Jesus ouviu isso. E o demônio vai exatamente querer mexer com essa identidade: “Se és o filho de Deus…”.

Ele tenta enganar Jesus na Sua missão. O Catecismo (nº 540) diz que a tentação manifesta a maneira de o Filho de Deus ser Messias, o oposto da que lhe propõe Satanás. O mundo esperava um Messias poderoso, um guerreiro. Mas chega o filho do carpinteiro falando de perdão e amor. O demônio quer o poder, o prazer, a grandeza.

O alvo do inimigo é a sua identidade de filho

Santo Ambrósio ensina que Jesus enfrentou o deserto como homem, usando os auxílios que Deus nos dá. Se vencesse apenas como Deus, que exemplo seria para nós? O demônio queria desviar Jesus da vontade do Pai e atingi-lo no Seu “eu”.

A tentação de ser como Deus

Beatriz Valdez:  Nós nos sentimos amados e o Senhor revelou que somos filhos amados, não é verdade? Deus fez o mesmo com você aqui: Ele disse “ela é minha filha amada, ele é meu filho amado”. Mas corremos o risco de achar que, porque agora sabemos disso, está tudo sob controle.

Quando Deus falou que Jesus era o filho amado, o diabo não foi embora; ele pensou: “Ah, é? Pois é bem disso que eu vou me usar”. Ele pega a identidade revelada e começa a testar: “Se tu és…”.

Muitas vezes, queremos dar conta de tudo. No meu ano de TCC e vocacional, eu comecei a surtar porque reconheci minha pequenez; vi que não dava conta de tudo e fiquei frustrada. Meu pai, me levando para o trabalho, disse algo que me marcou: “Filha, o ser humano quer ser como Deus, quer ter todas as respostas, o controle. Mas Deus quis se tornar como homem para mostrar ao ser humano que ele não precisa ser como Deus”. Isso foi uma facada no meu coração.

A futilidade que nos afasta da missão

O erro é achar que o diabo só quer nos desmerecer, mas às vezes ele quer nos fazer subir, saindo do nosso lugar de seres humanos para agir com prepotência. Ele quer “futilizar” o objetivo de Jesus e o nosso. Nós, católicos, temos vivido tempos de muita futilidade em nossas pautas, julgamentos e orações. O diabo quer futilizar sua identidade dentro da igreja.

Alexandre Oliveira: São Josemaría Escrivá diz para aprendermos com a atitude de Jesus, que, tendo direito a ser tratado como Deus, assumiu a forma de escravo (kenosis). Não podemos usar a grandeza do Evangelho para interesses e ambições humanas.

Precisamos nos colocar em nosso lugar, ou o demônio nos desvia da missão de esposo, pai, profissional, filho. Acorda, abençoado! O seu lugar é cumprir a missão que Deus te deu. A nossa humanidade é um dom, não apenas sinônimo de pecado. Deus abraçou o homem para que fôssemos divinizados sem perder a humanidade.

A armadilha de “subir” e a perda do olhar de Deus

Beatriz Valdez: Se você não tem clareza do seu lugar, você é facilmente tirado dele. Achamos que, quanto mais subimos, mais perto de Deus estamos. Mas Deus quer nos encontrar aqui embaixo. Vamos fazer um “teatrinho” aqui na frente.

 

No centro, uma jovem de cabelos ondulados, vestindo uma blusa vermelha e calça clara, está em pé sobre uma cadeira de plástico branca. Ela segura um microfone e gesticula com a mão aberta. Ao lado dela, um homem de óculos e camiseta cinza observa a cena segurando outro microfone estando abaixo da jovem.

Pregação do Alexandre Oliveira e Beatriz Valdez – Foto: Adailton Batista / Canção Nova

Beatriz Valdez: A gente cai na enganação de subir e subir. “Agora sou filho amado, vou subir! Agora sou pregador, vou subir!”. E perdemos o olhar de Deus de vista. Não porque Ele ficou para baixo, mas porque Ele está abaixado ao nosso encontro.
Beatriz Valdez: Eu sou Deus, estou acima. Ele [Alexandre] é o ser humano, está abaixo. (Para Alexandre) Ele começa a sentir Deus e vai se levantando, se levantando… chega um ponto em que ele passa de mim e perde o meu olhar.

Ficou claro que Deus está no alto, mas se abaixa para te olhar nos olhos? O diabo futiliza a nossa igreja colocando pautas fúteis. O que importa mais no grupo de oração? A roupa curta da pessoa que chegou ou acolhê-la enquanto Deus muda o interior dela? Queremos ser católicos de “checklist” de santidade, de nariz em pé, ou católicos com identidade firmada em Deus?

Alexandre Oliveira: (Invertendo a dinâmica na cadeira) Agora eu me elevei! “Obrigado, Senhor, porque não sou pecador como eles, porque pago o dízimo, porque sou da Canção Nova, porque não estou nos blocos de carnaval!”.  Ou então o contrário: “Eu sou um lixo, não mereço misericórdia”. Mas a relação com Deus é olho no olho. Jesus se fez homem para isso.

Recuperando a humanidade na santidade

Quero contar a história de Francine Christophe, uma francesa que viveu o Holocausto. No campo de concentração, a mãe dela levou duas barras de chocolate, que eram sua sobrevivência. Francine, com 10 anos, viu uma mulher em trabalho de parto, sem forças. Ela deu seu último pedaço de chocolate para aquela mulher. O açúcar deu forças, o bebê nasceu.

Anos depois, em uma palestra, uma mulher chamada Yvonne se aproximou de Francine e colocou um chocolate em sua mão, dizendo no ouvido: “Eu sou o bebê”. Yvonne viveu porque uma criança decidiu ser humana no meio do inferno.

Nós temos mais que uma barra de chocolate. Ao voltar para suas cidades, vocês encontrarão pessoas difíceis. Vocês não terão chocolate, mas terão um sorriso, um abraço, um olhar de quem conheceu Jesus. Minha filha Beatriz viveu algo forte ontem.

Descer para encontrar o Cristo no próximo

Beatriz Valdez: Eu estava me sentindo um “lixo” porque não tinha saído em missão como os outros. Estava em casa limpando panelas. Ontem, encontrei uma moradora de rua, a Kelly. Ela pediu um salgado e uma Coca-Cola.

Eu e meu namorado, Daniel, compramos e sentimos de rezar por ela e pelo Frederico. No meio da rodoviária, impusemos as mãos e rezamos. Ela disse que os demônios se acalmaram porque viram que eu era cheia do Espírito Santo.

Voltei para casa chorando sem parar. Eu disse aos meus pais: “Eu queria que eles encontrassem Jesus, mas fui eu que O encontrei”. Eu estava querendo subir, ser missionária de palco, de microfone, e Jesus estava abaixado com aqueles moradores. Ele me disse: “Desce! O meu olhar está aqui”.

Deus não te trouxe aqui para te colocar numa bolha intocável. Ele quer te tornar acessível. Jesus foi humano porque enxugou lágrimas e limpou feridas. Eu beijei a testa daquela mulher e senti que beijei o Cristo Crucificado. Precisamos recuperar a humanidade na nossa santidade.

O que você vai fazer com o que recebeu?

Alexandre Oliveira: Que linda missão! Ela fez o que Pedro e João fizeram em Atos: “Ouro e prata não tenho, mas o que tenho te dou”. Meu irmão, volte para sua cidade e ame! Beije a careca do seu pai, a bochecha da sua mãe, saia do celular e brinque com seus filhos! Seja gente!

Padre Jonas Abib dizia que nossa missão é evangelizar, mas evangelizar é o Senhor agir em nós. Ele perguntava: “Nos expomos ou nos omitimos?”. O que você vai fazer com tudo o que recebeu aqui? Vai viver como um “abençoado omisso” ou vai expor o Espírito Santo?
Fica de pé! Peça coragem para ser testemunha. Sua cidade é o “confim da terra”.

Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin

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