PADRE SIDNEY DIAS

Não percas o ânimo, persevere na fé

O Senhor não nos esquece jamais

É uma alegria profunda poder olhar nos seus olhos e recordar uma verdade fundamental: Deus nos ama. Ele é o nosso companheiro fiel, Aquele que jamais nos deixa e nunca vai embora. Ainda que, por fraqueza, nós o deixemos em muitos momentos de nossa vida, Ele permanece firme ao nosso lado.

Padre Sidney Dias / Acampamento No Combate da Oração 2026 / Canção Nova – Foto: Reprodução Youtube / TV Canção Nova

O profeta Isaías já nos ensinava que, ainda que uma mãe pudesse se esquecer do filho que amamenta, o Senhor jamais se esqueceria de nós. Essa promessa deve ser o alimento diário do nosso coração. Afinal, não sabemos viver sem a presença de Deus. Mesmo quando nos faltam sentimentos, compreensões ou respostas para as complexidades da caminhada, a presença de Jesus é a fonte de toda a nossa força. Você não está sozinho.

O chamado à perseverança

Na Carta aos Hebreus (Hb 10, 32-39), o autor sagrado nos exorta a recordar os primeiros dias de nossa caminhada na fé:

“Lembrai-vos dos primeiros dias quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas… Não abandoneis, pois, a vossa coragem, que merece grande recompensa. De fato, é preciso que persevereis para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que Ele prometeu… O meu justo viverá pela fé; mas, se esmorecer, não me agradarei mais dele. Nós não somos desertores para a nossa perdição. Perseveramos na fé para preservar a vida.”

Como nos mostra o versículo final desse trecho, a nossa identidade está clara: não somos daqueles que retrocedem para a perdição, mas daqueles que têm fé para a salvação da alma. Esse chamado nos introduz diretamente no mistério do combate espiritual por meio da oração.

A oração como trato de amizade com Deus

Para compreender o combate da fé, é preciso antes compreender o que é a oração. Ela não é um monólogo frio, mas um diálogo vivo. Conforme a bela definição de Santa Teresa de Ávila:

“A oração é um trato de amizade com Aquele que eu sei que me ama.”

Se a oração é amizade, precisamos compreender a natureza do que significa ser amigo:

  • A amizade exige reciprocidade: Não há amizade unilateral. Se o Senhor deseja ser nosso amigo, nós também precisamos buscar ativamente essa relação.
  • A amizade não é interesseira: Muitos se aproximam de Deus apenas pelo que Ele pode dar — em busca de um milagre imediato quando as forças humanas falham. É legítimo pedir auxílio, mas a amizade verdadeira vai além do interesse. Ela é um abrigo seguro nas tempestades.
  • Amigos buscam o mesmo fim: Na arte, os pintores costumam retratar casais de namorados olhando um para o outro (enamorados). No entanto, ao retratarem a amizade, pintam os amigos olhando na mesma direção. Ser amigo de Deus significa amar o que Ele ama e buscar a Sua vontade, mesmo quando isso exige morrer para os nossos próprios desejos.

O desafio de continuar no caminho

Começar a caminhar com Deus é relativamente fácil. O verdadeiro desafio surge quando as respostas demoram, quando o caminho se prolonga e as dificuldades se repetem. É fácil rezar quando estamos consolados e sentimos a presença de Deus; o teste de fidelidade ocorre na aridez espiritual, quando não sentimos nada e as situações ao nosso redor parecem contrárias às nossas preces.

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Rezar não é uma fórmula mágica para obter conquistas imediatas. Rezar é ter a capacidade de se dobrar e dizer: “Senhor, eu não sei o que é melhor para mim, mas o meu Amigo sabe.”

As Escrituras não prometem que estaremos isentos de cansaço, lágrimas ou dúvidas. No entanto, elas nos garantem que não pertencemos ao grupo daqueles que fazem do desânimo uma decisão definitiva. O cristão pode cansar-se, mas não abandona o caminho; ele pode cair, mas se levanta através do sacramento da Reconciliação (o confessionário).

Leia mais:
.:Alegres e perseverantes na oração
.:Obediência por amor
.:Eu te perdoo

As três virtudes do combate espiritual (filhas da Fortaleza)

No combate espiritual, existem três virtudes fundamentais — consideradas pela teologia espiritual como “filhas” da virtude cardeal da Fortaleza — que nos impedem de desistir:

1. Longanimidade: A virtude de saber esperar

A longanimidade é a capacidade de esperar com paciência e esperança por um bem que demora a chegar. Como escreve Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein): “Quem não sabe esperar, não sabe possuir”.

A grande lição da longanimidade é não transformar a demora de Deus em ausência de Deus. Frequentemente confundimos três realidades distintas:

  1. Deus está demorando.
  2. Deus não me ouviu.
  3. Deus não vai fazer.

Na verdade, a demora pedagógica de Deus serve para amadurecer o nosso coração. Toda a história da salvação é marcada pela espera: Abraão esperou pela promessa; José do Egito passou pelo poço e pela prisão antes de ver seus sonhos realizados; Moisés passou anos no deserto; e Nossa Senhora esperou silenciosamente ao longo de toda a vida de Jesus até o pé da Cruz.

Não abandone no meio da espera aquilo que Deus lhe pediu no começo. A impaciência nos tenta a buscar atalhos e tentar “ajudar” a Deus com nossas próprias forças, o que costuma gerar escolhas desastrosas em nossos relacionamentos, finanças e vocação.

2. Perseverança: a espiritualidade do “mais um dia”

Enquanto a longanimidade olha para o bem que demora a chegar, a perseverança foca no caminho já iniciado e diz: “Eu vou continuar”. Ela é a capacidade de permanecer no bem apesar do desgaste do tempo e do cansaço.

Nós somos excelentes em começar projetos (dietas, leituras, orações, novenas), mas frequentemente falhamos em dar continuidade a eles. A santidade não é construída apenas por grandes decisões heroicas, mas por uma multidão de pequenos “sins” diários que se transformam em hábitos santos.

A perseverança é a espiritualidade do “mais um dia”:

  • Hoje eu rezo, amanhã eu rezo de novo.
  • Hoje eu perdoo, amanhã perdoarei novamente.
  • Hoje eu fujo da ocasião de pecado, amanhã farei o mesmo.

A verdadeira batalha espiritual começa quando os grandes eventos e retiros terminam e retornamos à rotina comum do lar e do trabalho, longe das luzes e da comoção coletiva.

3. Constância: resistir às pressões externas

Diferente da perseverança (que combate o desgaste do tempo), a constância enfrenta os obstáculos que vêm de fora e tentam nos desviar do rumo. Esses obstáculos incluem críticas, ironias de familiares ou colegas de trabalho, incompreensões e a ingratidão.

Se você decidir fazer o bem apenas quando for elogiado ou reconhecido, não permanecerá no caminho por muito tempo. A constância nos capacita a dizer: “Senhor, tudo o que eu faço, eu faço por amor a Ti”.

Alerta espiritual: perseverança x teimosia

É preciso diferenciar a constância da teimosia. Ambas as virtudes possuem vícios opostos:

  • Inconstância: Desistir facilmente ao menor sinal de dificuldade.
  • Teimosia (vício): Insistir obstinadamente em algo apenas porque foi decidido pela própria vontade, mesmo quando Deus claramente mostra, através das circunstâncias e do discernimento, que é hora de mudar de direção. Nem toda desistência é covardia; às vezes, redirecionar a rota é fruto de obediência a Deus.

Quatro meios práticos para crescer nas virtudes

Baseando-nos nos ensinamentos do renomado teólogo dominicano Antonio Royo Marín em seu tratado Teologia da Perfeição Cristã, podemos elencar quatro meios práticos para robustecer essas virtudes em nossa alma:

1. Peça constantemente a graça da perseverança

Não vencemos o combate espiritual apenas por força de vontade humana. Como nos disse Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer”. A nossa oração diária deve ser: “Senhor, dai-me a graça de não desistir”. Devemos pedir, de modo muito especial, a graça da perseverança final — a bênção de partirmos deste mundo na amizade com Deus.

2. Preveja as dificuldades e aceite-as antecipadamente

Entrar na vida espiritual sob a ilusão de que tudo será fácil é um erro grave. Estar com Deus não significa a ausência de lutas, mas sim a certeza de que não combateremos sozinhos. Ao iniciar qualquer propósito de conversão, considere de antemão: haverá dias de aridez, tentações fortes, diálogos dolorosos e resistências externas. Quando a dificuldade for prevista e aceita antecipadamente, ela não nos pegará de surpresa.

3. Abrace os pequenos incômodos diários

A santidade não se improvisa; ela é moldada no cotidiano. Numa cultura que idolatra o conforto absoluto, os pequenos incômodos — como as variações de temperatura, os atrasos ou o trânsito — funcionam como a “academia da alma”. Em vez de reclamar imediatamente, ofereça esses contratempos a Deus em espírito de reparação e penitência.

4. Fixe os olhos em Cristo crucificado

Quando o sofrimento e a espera parecerem longos demais, desvie o olhar de si mesmo e de suas próprias limitações e olhe para a Cruz de Jesus. Contemplar Aquele que nos amou primeiro, que suportou a traição, o abandono e a dor injusta, dá um sentido redentor ao nosso próprio sofrimento. Na Cruz de Cristo, as nossas dores e fraquezas são curadas e reconciliadas.

Oração de entrega

Senhor Jesus Cristo, sob o olhar da Virgem Maria e de toda a milícia celeste, nós te pedimos: derrama sobre nós a virtude da fortaleza e suas filhas espirituais — a longanimidade, a perseverança e a constância. Refaz as nossas forças e não permitas que desviemos o olhar da Tua Cruz Redentora. Queremos viver e morrer na Tua amizade. Amém.

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