ROBERTO TANNUS

Não vos deixeis seduzir pelo Mal

O chamado à vitória pelo Bem

A Palavra de Deus na Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 12, versículos 17 a 21, nos ensina: “Não pagueis a ninguém o mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. Se for possível, quando depender de vós, vivei em paz com todos os homens. Não vos vingueis uns dos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: ‘A mim a vingança, a mim exercer a justiça, diz o Senhor. Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Procedendo assim, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem'”.

Roberto Tannus prega no Acampamento Cura e Libertação na Canção Nova em Cachoeira Paulista/SP

Roberto Tannus / Acampamento Cura e Libertação 2026 / Canção Nova – Foto: Isabele Domingues

A nossa vitória autêntica acontece exclusivamente através do bem. O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2845, reforça que o perdão dá testemunho ao nosso mundo de que o amor é mais forte do que o pecado. Como está escrito no Livro dos Cânticos (8,6): “O amor é mais forte do que a morte”. São João Paulo II, na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, ensina que Jesus é o modelo supremo da vitória com a força do bem. Se nós replicamos a agressão e pagamos na mesma moeda, duplicamos o mal e nos esquecemos de acionar a força vencedora. A força vencedora não consiste em revidar, mas em agir com amor.

Para compreender como essa graça opera na prática, analisaremos três exemplos bíblicos fundamentais:

  1. José do Egito;
  2. O profeta Eliseu (2 Reis 6);
  3. Jesus Cristo, o exemplo pleno e perfeito.

1. José do Egito e as cisternas de Dotaim

 A inveja como um poço seco

No livro do Gênesis, capítulo 37, a partir do versículo 17, conhecemos a história de José. Ele era o filho caçula de Jacó (a quem Deus renomeou como Israel) e, por ser o filho preferido, despertava o ódio e a inveja de seus irmãos. Com apenas 17 anos de idade, José foi enviado por seu pai para levar mantimentos aos irmãos que apascentavam o rebanho. Ele os encontrou em uma localidade chamada Dotaim.

Em hebraico, o termo Dotaim significa “duas cisternas” ou “dois poços”. Ao avistarem José de longe, antes mesmo que ele se aproximasse, os irmãos conspiraram para matá-lo, dizendo: “Eis o sonhador que chega. Vamos, matemo-lo e atiremos numa cisterna. Diremos depois que uma fera o devorou e então veremos para que lhe servem seus sonhos”. Rúben interveio para evitar o derramamento de sangue, e José acabou sendo despojado de suas vestes e lançado em uma cisterna vazia, sem água.

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Santo Agostinho ensina que a palavra inveja deriva do latim invidia, que significa “olhar com maus olhos”. Para Santo Agostinho, a inveja é a alegria sentida diante da desgraça alheia e o desgosto experimentado perante o sucesso do outro. José não havia feito nada para merecer o poço nem para ser vendido como escravo rumo ao Egito, assim como Abel nada fez contra Caim. A inveja é uma cisterna sem água, estéril e destrutiva. Toda vez que alimentamos a maldade, o egoísmo e o rancor, nos tornamos cisternas secas. Em Dotaim existem dois caminhos:

  • A cisterna sem água: representa o ódio, a vingança, o rancor e a inveja;
  • A cisterna com água: representa a misericórdia, o amor e o perdão.

O triunfo da Misericórdia sobre a vingança

José enfrentou a escravidão na casa de Putifar, manteve sua integridade ao recusar as investidas da mulher de seu senhor e acabou lançado injustamente na prisão. Ao interpretar os sonhos do Faraó, foi elevado a vice-rei do Egito aos 30 anos, após amargar 13 anos de sofrimento entre o cativeiro e a prisão. Contudo, essas provações não endureceram seu coração.

Quando a fome severa atingiu a região e seus irmãos foram ao Egito em busca de mantimentos, José os acolheu e proveu sustento para toda a sua família. Em Gênesis 50, após a morte de Jacó, os irmãos temeram que José se vingasse pelo mal que lhe haviam causado. Ao ouvir o pedido de perdão, José chorou ao recordar a dor dos anos de cárcere, mas declarou generosamente aos seus irmãos: “Não temais. Posso eu pôr-me no lugar de Deus? Vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem, para conservar a vida a um grande povo”.

Se José tivesse optado pela vingança, seu nome seria esquecido pela história. O que o tornou verdadeiramente grande foi a misericórdia. Devemos pedir a Deus a graça de sermos canais de misericórdia e bebermos sempre da fonte do amor divino.

2. O profeta Eliseu e o exército celestial em Dotaim

No Segundo Livro dos Reis, capítulo 6, a cidade de Dotaim reaparece como palco de uma demonstração de fé e perdão através do profeta Eliseu. O rei da Síria estava em guerra contra Israel, mas todos os seus planos estratégicos eram frustrados porque Eliseu alertava antecipadamente o rei de Israel. Ao descobrir que o profeta estava em Dotaim, o rei sírio enviou à noite um grande exército com cavalos e carros de guerra para cercar a cidade.

Ao amanhecer, o servo de Eliseu viu o cerco e se desesperou: “Ai, meu senhor, que vamos fazer agora?”. Eliseu respondeu com firmeza: “Não temas. Os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles”. O profeta orou para que os olhos de seu servo fossem abertos, e o moço contemplou o monte repleto de cavalos e carros de fogo celestiais ao redor de Eliseu.

A pedido de Eliseu, Deus feriu o exército sírio com cegueira. Eliseu então guiou os soldados inimigos até a capital, Samaria, e pediu ao Senhor que lhes restaurasse a visão. Quando o rei de Israel perguntou se deveria matá-los, Eliseu ordenou: “Não! Dá-lhes pão e água para que restaurem as forças e voltem para o seu senhor”. Um grande banquete foi servido aos inimigos e, após serem libertados, as incursões sírias contra Israel cessaram. Eliseu recusou-se a ser uma cisterna seca; ele agiu como uma fonte transbordante de misericórdia.

3. Jesus Cristo e a restauração dos sonhos de Malco

A prisão no Jardim das Oliveiras

O exemplo supremo e perfeito de pagar o mal com o bem é demonstrado por Nosso Senhor Jesus Cristo. No Evangelho de São João, capítulo 18, vemos a chegada da guarda e dos fariseus armados para prender Jesus no Jardim das Oliveiras. Quando Jesus perguntou a quem buscavam e declarou “Sou eu”, a força de Sua palavra fez com que os soldados recuassem e caíssem por terra. Até o último momento, Jesus usou de misericórdia, oferecendo o pão embebido em vinho a Judas Iscariotes como um gesto de amizade e convite ao arrependimento.

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Durante a abordagem, Simão Pedro puxou de sua espada e decepou a orelha direita de Malco, servo do sumo sacerdote. Malco estava no local errado, com as intenções erradas e movido por hostilidade. No entanto, no Evangelho de São Lucas (capítulo 22, versículo 50), o evangelista — que era médico — destaca o gesto compassivo de Jesus.

O significado da unção e da restauração da orelha direita

Existe um significado teológico profundo na perda da orelha direita de Malco. Como servo do sumo sacerdote, Malco almejava exercer o sacerdócio. De acordo com o livro do Êxodo (capítulo 29, versículo 19), a consagração sacerdotal exigia que o sangue do cordeiro fosse aplicado na extremidade da orelha direita do ordinando. Além disso, o livro do Levítico (capítulo 21, versículo 16) determinava que qualquer pessoa com mutilação ou defeito físico estava impedida de oferecer as oferendas a Deus e exercer o sacerdócio.

A mutilação causada pela espada de Pedro destruiu sumariamente os sonhos e o futuro de Malco. Porém, Jesus, sendo a própria fonte da misericórdia, tocou a ferida de Malco, estancou a hemorragia e recolocou sua orelha no lugar. Ao curar um homem que o odiava, Jesus devolveu-lhe a integridade e os seus sonhos. Mesmo na cruz, perante a dor extrema, o Senhor perdoou Seus carrascos, acolheu o ladrão arrependeu-se e nos entregou Sua Santíssima Mãe.

Testemunho de fé: a defesa que vem de Deus

Para não nos deixarmos seduzir pelo mal em um mundo repleto de intolerância, precisamos acolher a força do bem. Palavras maldosas e calúnias costumam ferir profundamente. Em 1980, no início de meu ministério de pregação em Goiás, vivenciei grandes manifestações de milagres. Contudo, no ano seguinte, surgiram graves fofocas, mentiras e falsos testemunhos a meu respeito.

Convocado ao escritório do meu coordenador, preparei uma defesa minuciosa por escrito. Ao cruzar o portão, contudo, escutei a voz do Senhor em meu coração: “Não se defenda, faça silêncio”. Atendendo ao chamado divino, permaneci em silêncio e não apresentei defesas. Por conta disso, fui proibido de pregar e de rezar por cura e libertação durante dois anos e meio. A dor da obediência em silêncio foi intensa, mas mantive-me firme, sem pagar o mal com o mal e sem citar o nome de quem havia mentido.

Decorridos dois anos e meio, o coordenador convidou-me para pregar em um grande encontro no Ginásio Rio Vermelho. Ao término da pregação, ele me abraçou emocionado e revelou: “Eu sabia que eram maledicências, mas quis testá-lo. Jesus me disse que, se você obedecesse, seu ministério seria muito longo e fértil”. Após quase meio século de ministério evangelizador, aprendi que, diante das calúnias, o silêncio temente a Deus permite que o próprio Senhor tome a nossa defesa.

Escolha ser uma fonte de Misericórdia

Se você teve seus sonhos interrompidos pela dor, por incompreensões ou por atitudes invejosas, saiba que Jesus deseja restaurar a sua vida. Ele é o bem supremo que vence todo o mal.

Renove a sua fé, coloque-se na presença de Deus e permita que o Senhor transforme a sua história e a de sua família. A conversão pessoal é a chave para a transformação do lar. Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa sobre ele através do amor, da oração e da misericórdia. Deixe Deus sonhar em você!

Transcrição e adaptação Amanda Martins

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