Dom José Falcão

Dar a Deus o que é de Deus

Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus

Bispo de veste verde e mitra ornamentada a discursar num púlpito de madeira trabalhada. Ele gesticula com as mãos enquanto fala para um microfone posicionado à sua frente. Tema: "Dar a Deus o que é de Deus"

Dom José Falcão / Acampamento Cura e Libertação 2026 / Canção Nova – Foto: Guilherme Costa / Canção Nova

Naquele tempo, os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. Mandaram seus discípulos junto com os do partido de Herodes para armar-Lhe uma cilada sobre o pagamento de impostos a César. Diante da falsidade daqueles homens, o Senhor deu uma resposta sábia que ressoa ao longo dos séculos: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

A autoridade de Deus

Deus é um, mas não é solitário; subsiste em três Pessoas. Onde está o homem, aí está a sociedade. Para que a vida comunitária transcorra com ordem, o próprio Deus estabeleceu e delegou o exercício da autoridade. No entanto, qual é a origem, o alcance e o limite do poder humano? Deus possui a autoridade em absoluto e a delega ao homem em ambiente familiar e para além das quatro paredes de sua casa.

A autoridade na história

Ao longo da História Sagrada, o Senhor conduz os acontecimentos e escolheu Seus ungidos até mesmo fora dos limites de Israel. Deus utilizou-se de governantes e nações pagãs para a realização dos Seus desígnios:

  • Ciro, rei da Pérsia: Embora fosse um rei pagão que não conhecia o Deus de Israel, foi chamado pelo próprio Deus de “ungido” (Christos). O Senhor o tomou pela mão para derrotar a Babilônia, libertar o povo hebreu do cativeiro e permitir o retorno a Jerusalém e a reconstrução do Templo.

Em outros momentos, o Senhor permitiu que governantes agissem sobre o povo eleito como instrumento de correção pedagógica diante das infidelidades do povo. Como ensina o apóstolo Paulo em Gálatas, o que o homem semear, isso também colherá.

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Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus

Os fariseus, que odiavam os herodianos, aliaram-se a eles por mero oportunismo para colocar Jesus em maus lençóis. Eles se aproximaram com elogios cínicos, dizendo que Jesus ensinava o caminho de Deus com verdade e não julgava pelas aparências.

Perguntaram se era lícito ou não pagar o imposto a César. Se Jesus dissesse que sim, seria acusado de traição ao povo de Israel e apoio aos invasores romanos. Se dissesse que não, os herodianos Lhe dariam ordem de prisão por rebelião contra a autoridade do imperador Tibério.

A resposta aos hipócritas

Percebendo a maldade, Jesus respondeu: “Hipócritas, por que me preparais uma armadilha? Mostrai-me a moeda do imposto… De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” Eles trouxeram um denário e responderam: “De César”. Na moeda, a inscrição trazia o título atribuindo caráter divino ao imperador romano (“filho do divino Augusto”).

Ao declarar “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, Jesus deixou claro que o imperador não é Deus. Como ensina Santo Hilário de Poitiers, a moeda de César traz a efígie do imperador em ouro, mas a moeda de Deus é o próprio homem, em quem está figurada a imagem e semelhança do Criador. Entregam-se as riquezas a César, mas guarda-se a consciência e a inocência para Deus.

Submissão e autoridade

A Carta aos Romanos (Rm 13,1-5) orienta que cada qual seja submisso às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus. A autoridade deve ser um instrumento do bem para fazer justiça. O cristão obedece às leis civis legítimas por dever de consciência. Porém, quando a autoridade se autodiviniza ou exige atos contrários à lei de Deus, aplica-se o que ensina o Catecismo da Igreja Católica (n. 2242) e o exemplo de São Pedro “Importa obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29).

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Direito à objeção de consciência

O cidadão tem o direito e o dever de recusar ordens civis que obriguem a agir contra os preceitos morais e o respeito à vida humana. A própria Constituição garante que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou convicção política.

O cristão não aceita o ditado “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. O cristão afirma: “Manda quem pode nos limites da sua autoridade, e obedece quem tem fé”.

Como recordou São João Paulo II, Jesus nunca quis se envolver em movimentos de libertação política nem prometeu poder terreno, mas veio oferecer a libertação espiritual do pecado e chamar todos ao Reino de Deus, servindo com humildade.

Ao proclamar “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, o Senhor nos ensina a agir no mundo como cidadãos conscientes e cumpridores de nossos deveres, mas sem jamais entregar nossa alma, nossa fé ou nossa consciência a qualquer poder temporal. As chaves da história pertencem unicamente a Deus.

Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin

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