Ariel Lazari

A bíblia não pode interpretar-se sozinha

A Bíblia interpreta a ela mesma? O que a Igreja diz

Eu quero começar com uma pergunta simples: você trouxe sua Bíblia hoje? É maravilhoso ver quando as pessoas se dispõem a manusear as Escrituras, pois nós só podemos amar aquilo que conhecemos. Hoje, quero mergulhar com você em um tema que gera muita confusão: será que a Bíblia interpreta a ela mesma? Talvez você já tenha ouvido que, como temos o Espírito Santo, não precisamos de ninguém para nos explicar a Bíblia. Essa é uma ideia comum no protestantismo e até no Islã, mas não foi o que Jesus ensinou, nem como os judeus viviam.

De Moisés a Jesus

Muitos pensam que a Bíblia caiu pronta do céu. Na verdade, na nossa fé, a única coisa que Deus escreveu diretamente foram os Dez Mandamentos nas tábuas de pedra. No entanto, o próprio Moisés deixou sacerdotes e juízes para interpretar essa lei, ordenando que o povo os obedecesse fielmente.

Quando olhamos para o Novo Testamento, a diferença é ainda mais profunda. Enquanto Moisés desceu da montanha com dez mandamentos escritos em pedra, Jesus desceu da montanha com doze apóstolos. No início da nossa Igreja, a primeira coisa que recebemos não foi um livro, mas alguém para nos guiar. Nós não somos a religião do livro; somos a religião da Pessoa de Jesus Cristo, que confiou Sua Palavra a pessoas vivas.

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A Palavra de Deus é apenas a Bíblia?

Um erro comum, muitas vezes por influência protestante, é achar que a Palavra de Deus se limita ao texto escrito. Mas veja o que Jesus diz em Lucas 10, 16: “Quem vos ouve, a mim ouve”. Ele estava falando aos apóstolos. Tudo o que a Igreja ensina, seja por escrito ou oralmente, é Palavra de Deus.

Eu gosto de lembrar o exemplo dos Tessalonicenses. Quando São Paulo escreveu a primeira carta a eles (o primeiro livro do Novo Testamento a ser escrito), ele agradeceu porque eles acolheram a pregação não como palavra humana, mas como Palavra de Deus. Naquele momento, não havia Evangelho de Mateus ou Lucas escrito; a Palavra de Deus era a pregação oral dos apóstolos. Isso é o que chamamos de Tradição Apostólica.

O perigo de interpretar a Bíblia sozinho

Se a Bíblia interpretasse a ela mesma, por que haveria tantas divisões? Logicamente, se o sentido fosse óbvio para qualquer um, existiria apenas uma denominação, e não as mais de 40.000 que vemos hoje no mundo protestante. A própria Bíblia alerta sobre isso. São Pedro diz que nas cartas de São Paulo existem coisas difíceis que pessoas sem instrução e vacilantes deformam para sua própria perdição. Se eu tentar interpretar a Bíblia sem ouvir o Papa e os bispos, eu corro o risco de me encrencar pelo meu próprio orgulho.

“Como poderia eu compreender, se ninguém me explica?”

Lembre-se da passagem de Atos 8, onde o eunuco etíope lia o profeta Isaías. Quando Filipe perguntou se ele entendia, a resposta foi clara: “Como poderia, se ninguém me explica?”. Ele não disse que a Bíblia se explicava sozinha; ele convidou Filipe para subir na carruagem e lhe ensinar. É exatamente isso que os bispos e o Papa fazem por nós hoje.

A autoridade do Magistério e os Concílios

No primeiro concílio da Igreja, em Jerusalém, a solução para a dúvida sobre a circuncisão não foi apenas citar textos, mas o envio de representantes com autoridade. Os apóstolos disseram: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”. Eles não se viam como leitores tentando adivinhar o sentido do texto, mas como ministros da Palavra, cujas bocas proferiam a própria vontade de Deus.

Eu entendo que passagens como 1 Coríntios 4, 6 (“não ir além do que está escrito”) ou o exemplo dos bereanos em Atos 17 são usados para tentar refutar isso. No entanto, quando olhamos o contexto, vemos que São Paulo falava sobre não julgar os bispos e que os bereanos verificavam as profecias que Paulo citava, mas também aceitavam a parte oral da pregação que não estava em lugar nenhum das escrituras antigas.

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Permanecer sob o amparo da Igreja

Para fechar, quero olhar para o Apocalipse 12, que nos mostra a mulher (a Igreja) recebendo duas asas para fugir do dragão no deserto. Essas asas podem ser vistas como a Tradição escrita (Bíblia) e a Tradição oral, que sustentam a Igreja contra as investidas do demônio.

Quem se afasta do abrigo do Papa e dos bispos fica vulnerável. Por isso, que eu e você nunca nos afastemos dessa guia segura. Se algo na Bíblia parecer difícil, não tente ser “inteligente” sozinho; confie na sabedoria milenar que Jesus deixou para nós através da Sua Igreja. Que Nossa Senhora nos mantenha sempre debaixo de seu manto e dentro da fidelidade à Igreja Católica. Amém.

Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin

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