Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!
É uma alegria imensa estarmos juntos neste acampamento, unidos no combate da oração. Quando partilhei o tema desta pregação com a Salete, que trabalha comigo lá no núcleo de casais — e que é minha chefe, inclusive —, eu disse: “Olha o tema que me passaram, não sei nem por onde começar!”. E ela, com muita sabedoria, respondeu: “Ouça o Espírito“. Passei a noite inteira fazendo exatamente isso: ouvindo o que Deus quer nos falar por meio destas palavras: Não abandoneis as vossas assembleias.
O que o Senhor deseja nos revelar hoje?

Acampamento “No Combate da Oração” 2026 – Foto: Bruno Marques
O contexto de Hebreus 10: perseverança em tempos de luta
Abramos a Palavra de Deus na Carta aos Hebreus, capítulo 10, a partir do versículo 23:
“Continuemos a afirmar a nossa esperança sem esmorecer, pois aquele que fez a promessa é fiel. Estejamos atentos uns aos outros para nos incentivar ao amor fraterno e às boas obras. Não abandonemos as nossas assembleias, como alguns costumam fazer. Antes, procuremos animar-nos mutuamente, tanto mais que vedes o dia aproximar-se.” (Hebreus 10,23-25)
Para compreendermos a profundidade dessa exortação, precisamos dar um salto com os olhos até o versículo 32:
“Lembrai-vos dos primeiros dias, quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas. Ora apresentados em espetáculo debaixo de injúrias e tribulações, ora solidários com os que assim eram tratados.” (Hebreus 10,32-33)
Quem escreveu essa carta? Embora muitos santos nos primeiros séculos a atribuíssem a São Paulo devido à semelhança de ideias, o consenso atual entre os estudiosos é de que o autor foi alguém muito próximo ao apóstolo, talvez um redator ou colaborador direto. Especula-se sobre nomes como São Barnabé ou São Lucas, mas o fato é que a autoria permanece anônima.
O autor era alguém profundamente alinhado com a sã doutrina dos apóstolos e com um vasto conhecimento do judaísmo, já que a carta se dedica a demonstrar a superioridade da Nova Aliança estabelecida no sangue de Jesus sobre a Antiga Aliança.
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Os destinatários originais eram judeus convertidos ao cristianismo que enfrentavam uma perseguição feroz por volta do ano 67 d.C., pouco antes da destruição do Templo de Jerusalém. Diante das ameaças do Império Romano, muitos cristãos estavam desanimados, cansados e tentados a desistir de tudo. Havia o “som da gaita” da tentação de voltar atrás, assim como a nossa irmã Rogerinha partilhou sobre a tentação que teve de largar a comunidade Canção Nova ao ouvir o som de uma gaita que a lembrava de seu pai.
Foi nesse cenário de dor e provação que o autor sagrado escreveu para reanimar a comunidade, exortando-os: “Não abandoneis as vossas assembleias, como alguns costumam fazer.”
O significado profundo de “assembleia”: qahal, eclésia e igreja
Mas o que significa, de fato, a palavra “assembleia”?
Na tradução grega do Antigo Testamento hebraico (a Septuaginta), passagens como Deuteronômio 4,10 e 10,4 utilizam a palavra hebraica “Qahal” para designar a reunião do povo de Deus no deserto. No grego, “Qahal” foi traduzida como “Eclésia” (ekklesia).
O Catecismo da Igreja Católica (números 751 e 752) nos ensina que a palavra “Igreja” vem do grego ekklesia, que deriva de ek-kalein (“chamar fora”). Significa, portanto, uma convocação. Designa as assembleias do povo, geralmente de caráter religioso. É a herdeira da assembleia do Sinai, onde Israel recebeu a Lei e foi constituído como povo santo de Deus.
Na linguagem cristã, a palavra “Igreja” tem três significados inseparáveis:
- A assembleia litúrgica (sobretudo a eucarística);
- A comunidade local;
- A comunidade universal dos crentes.
Como o Catecismo aponta, a Igreja se realiza plenamente onde Deus reúne o Seu povo. Portanto, a assembleia (eclésia) não se refere primordialmente a um espaço físico, mas sim a pessoas. Trata-se de uma comunidade convocada por Deus.
Quando o autor de Hebreus diz para não abandonarmos as nossas assembleias, ele está nos dizendo: “Não abandoneis uns aos outros. Não abandoneis os vossos irmãos!” Abandonar a assembleia é afastar-se das pessoas, romper o vínculo de amor com a comunidade local, com a paróquia, com a pastoral ou com o grupo de oração.
O lamento de Paulo e o perigo do isolamento
O abandono da comunidade não é um problema moderno. Já na Igreja primitiva, havia quem fizesse disso um hábito. Na Segunda Carta a Timóteo (capítulo 4, versículo 9), São Paulo faz seu testamento espiritual na prisão e revela uma profunda tristeza pastoral:
“Apressa-te a vir ter comigo, pois Demas me abandonou por amor ao mundo presente e foi para Tessalônica.” (2 Timóteo 4,9-10)
Demas não abandonou apenas uma estrutura física; ele abandonou Paulo, abandonou a comunidade e, consequentemente, distanciou-se de Jesus Cristo. Quem se afasta do Corpo Místico de Cristo afasta-se da Cabeça, que é o próprio Senhor.
Nós não somos melhores do que aqueles que caíram ou que abandonaram a fé. Por isso, a advertência bíblica é clara: “Aquele que julga estar de pé, tome cuidado para não cair” (1 Coríntios 10,12). Precisamos vigiar constantemente para não nos tornarmos novos “Demas”.
A instrução da Igreja Primitiva: a Didascália dos Apóstolos
Desde os primeiros séculos, a Igreja estabeleceu normas claras para proteger os fiéis do isolamento. No século III, surgiu um importante tratado jurídico-pastoral chamado Didascalia Apostolorum (Didascália dos Apóstolos). Suas palavras ressoam com extrema atualidade:
“Já que sois membros de Cristo, não vos queirais separar da Igreja, faltando à reunião [à assembleia]. Tendo Cristo, a Cabeça, presente e em comunicação convosco, de acordo com a sua promessa, não vos tenhais em pouco a vós mesmos, nem queirais separar o Salvador dos seus membros, nem dividir ou espaçar o Seu corpo, nem preferir as necessidades da vossa vida à Palavra de Deus. Pelo contrário, ao domingo deixai tudo e acorrei à Igreja.” (Didascália dos Apóstolos)
Mesmo sob o risco de serem lançados aos leões no Coliseu ou queimados vivos, os primeiros cristãos compreendiam que o domingo era o dia de correr ao encontro do Senhor na assembleia litúrgica.
A parábola do vaso e as pedras grandes: qual é a sua prioridade?
Para ilustrar a importância das nossas prioridades, pensemos na conhecida história do professor e do vaso:
Um professor colocou um vaso de vidro vazio diante dos alunos e perguntou se estava cheio. Eles responderam que não. Ele então colocou pedras grandes dentro do vaso até a borda e perguntou novamente: “E agora, está cheio?”. Os alunos disseram que sim.
Em seguida, o professor pegou pedrinhas menores e as despejou no vaso. Elas se acomodaram nos vãos das pedras maiores. Perguntou se estava cheio, e alguns hesitaram, mas disseram que sim. Ele pegou então um balde de areia fina, que se infiltrou pelas menores brechas. Por fim, derramou um balde de água, preenchendo o vaso por completo.
A lição desse experimento é simples, mas profunda: a areia, as pedrinhas e a água só couberam no vaso porque as pedras grandes foram colocadas primeiro. Se tivéssemos começado pela areia ou pela água, não haveria espaço para as pedras grandes.
Na nossa vida, as pedras grandes representam as nossas prioridades e a pedra angular é Deus.
Muitas vezes dizemos que o domingo é dia de futebol, de churrasco, de shopping, de visitar a família ou de passear com o cachorro. Não há nada de errado em viver momentos de lazer e convivência familiar. No entanto, essas coisas são as “pedrinhas” e a “areia”. A pedra grande do nosso domingo deve ser Deus.
Domingo é, acima de tudo, o dia de ir à Santa Missa, de nos alimentarmos da Palavra e da Eucaristia, e de nos encontrarmos com a comunidade paroquial. É preciso colocar a pedra grande no vaso primeiro.
A fé não é um ato isolado
O Catecismo da Igreja Católica (números 166 e 167) nos lembra de que a fé, embora seja uma resposta livre e pessoal do homem a Deus, não é um ato isolado:
“Ninguém pode crer sozinho, assim como ninguém pode viver sozinho. Ninguém deu a fé a si mesmo, assim como ninguém deu a vida a si mesmo. […] Cada crente é como um elo na grande corrente dos crentes. Não posso crer sem ser carregado pela fé dos outros e, pela minha fé, contribuo para carregar a fé dos outros.” (CIC 166)
No nosso Batismo, quando éramos bebês e sabíamos apenas chorar diante da água gelada, nossos pais e padrinhos professaram a fé da Igreja por nós. Naquele instante, o Espírito Santo passou a habitar em nossa alma.
Hoje, a nossa fé pessoal precisa caminhar de mãos dadas com a fé comunitária, o “nós cremos” da Igreja. A minha fé sustenta a sua nas horas de dor, e o seu testemunho carrega a minha fé quando me sinto fraco. É na assembleia litúrgica que essa grande corrente de intercessão e apoio mútuo se fortalece.
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Combatentes na Fé
Em seu livro Combatentes na Fé, o saudoso Padre Jonas Abib reflete sobre a Carta de São Tiago, lembrando que “a fé sem obras é morta” (Tiago 2,26). Ele explica que essas obras são as atitudes práticas de fé. Não basta crer de forma genérica que Jesus cura; é preciso aplicar essa fé na sua própria realidade: “É preciso acreditar que Jesus cura você”.
Muitas vezes, deixamo-nos paralisar por sentimentos de desânimo por acharmos que a nossa fé é insignificante. Mas o Evangelho nos garante que basta termos uma fé do tamanho de um grão de mostarda (Marcos 9,23; Lucas 17,6).
O Senhor nos treina no cotidiano. Nenhum de nós nasce um “gigante da fé”. Começamos pequenininhos, como um embrião microscópico no ventre materno que é sustentado e cresce até vir à luz. Assim é a nossa caminhada espiritual: somos formados nas provações e nos combates diários. E na assembleia, ao lado de outros que também possuem uma “fé pequenininha”, somos fortalecidos e crescemos juntos.
A comunidade como “leprosário”
Um dos maiores desafios para permanecer na assembleia é deparar-se com as fraquezas e imperfeições dos membros da comunidade. O próprio Padre Jonas Abib, em um documento interno escrito para nós da Canção Nova, usou uma metáfora forte: ele escreveu que a nossa comunidade é um “leprosário”.
Por trás dos sorrisos que você vê na televisão ou nos palcos, existem homens e mulheres feridos que estão lutando diariamente pela santidade. Quando o coração humano está machucado, ele muitas vezes oferece o pior de si: reações ásperas, incompreensões, fofocas e resistências, agindo como um animal ferido que tenta arranhar quem tenta se aproximar.
Quantas vezes idealizamos os padres, os coordenadores de pastorais ou os pregadores e, diante de uma primeira desilusão ou de uma palavra mais dura, decidimos ir embora e abandonar a Igreja?
O exemplo de fidelidade a Jesus
No início da minha caminhada, em um grupo de jovens muito fervoroso, o bispo decidiu transferir o nosso padre carismático para outra paróquia. A comunidade parecia um velório, todos choravam revoltados. Eu tocava violão naquelas missas e, ao final de uma celebração, o padre me disse que um grupo de paroquianos estava se organizando para acompanhá-lo até a nova cidade. Antes que ele terminasse a frase, eu respondi com firmeza: “Tudo bem, padre, mas eu não vou. Eu não estou aqui por causa do senhor, estou aqui por causa de Jesus.”
Muitos foram com ele. Um novo sacerdote chegou à nossa paróquia antiga e, de início, cortou os grupos de oração, colocou cadeados nas salas e proibiu diversas atividades carismáticas. As pessoas começaram a falar mal dele. No entanto, tomei uma decisão diante do sacrário: “Jesus, eu estou aqui por Sua causa, e vou dar o melhor de mim para apoiar este padre.”
Fui obediente e passei a amá-lo. Com o tempo, conquistei a sua confiança. Aquele sacerdote, tido por muitos como ranzinza e chato, abriu o coração para mim, segurou minha mão e partilhou suas dores e sofrimentos. Como o Padre Jonas nos ensinava: as pessoas se conquistam a partir do positivo e através do amor.
Jesus e Sua esposa, a Igreja
Falar que ama a Deus, mas que não precisa da Igreja devido aos pecados dos seus membros, é uma incoerência profunda.
Imagine que alguém chegue para um homem casado e diga: “Você é um cara fantástico, muito gente boa, mas a sua esposa não vale nada, eu não a suporto!”. Certamente, esse marido exigiria respeito imediato pela sua esposa.
A Igreja é a Esposa Mística de Cristo. Jesus deu a vida por ela na Cruz. Como podemos chegar diante do Senhor em oração e dizer: “Jesus, eu Te amo, mas a Tua Esposa — a Igreja — não serve para mim, não quero saber dela”?
É preciso criar vergonha na cara, vencer a preguiça espiritual e voltar para a Igreja. Não vá à Missa buscando uma homilia perfeita ou um ministério de música impecável; vá porque ali você está diante do Altar de Deus, onde o sacerdote atua in persona Christi (na pessoa de Cristo) para nos entregar o Seu Corpo e o Seu Sangue.
A parábola do carvão e do braseiro
Para concluir, partilho a história de um homem que se desiludiu com os pecados dos membros de seu grupo de oração e decidiu afastar-se, isolando-se em sua bela casa. O coordenador do grupo, preocupado com aquela ovelha perdida, foi visitá-lo em uma noite fria de inverno.
O homem o recebeu, mas avisou de imediato: “Não adianta falar nada, não volto mais para a igreja!”. O coordenador entrou em silêncio e sentou-se ao lado dele diante da lareira acesa. Os dois ficaram calados por um longo tempo, apenas observando o fogo.
De repente, o coordenador pegou uma tenaz, retirou uma brasa incandescente do meio do fogo e colocou-a isolada, no canto da lareira. Ele sentou-se novamente, ainda em silêncio.
Ambos observaram o carvão isolado. Sem o calor das outras brasas, aquela brasa vermelha foi perdendo o brilho, esfriando gradativamente, até apagar-se por completo, tornando-se apenas um pedaço de carvão preto e frio.
O coordenador então se levantou, pegou aquele carvão apagado com a tenaz e o devolveu ao meio do braseiro ardente. Em poucos instantes, em contato com as outras brasas, o carvão voltou a acender, ficando novamente incandescente e cheio de vida.
O homem, com lágrimas nos olhos, disse: “Obrigado. Eu entendi a mensagem. Eu sou essa brasa e preciso do braseiro. Esta semana mesmo eu voltarei para a Igreja.”
Nós somos brasas que só manterão o fogo do Espírito Santo aceso se permanecermos unidos no braseiro chamado Eclésia, a nossa amada Igreja.
Oração de compromisso
Se você andava desanimado, cansado, amargurado e tentado a jogar a toalha ou a abandonar a sua comunidade paroquial, coloque a mão no coração agora e faça esta oração:
“Senhor, aquece e abrasa o meu coração. Enche-me com o Teu Espírito Santo. Eu compreendi que sou Igreja e que o meu lugar é no braseiro da comunidade. Dá-me a graça da fidelidade. Não permitirei que as imperfeições humanas me afastem do Teu Altar. Meus olhos estão fixos em Ti, Senhor. É por Ti que permaneço. Amém!”
Transcrição e adaptação Amanda Martins
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