Pe. Fábio de Melo

Pela verdade sereis curados

Pela verdade torneis discípulos amados

Padre Fábio de Melo aparece em um plano fechado de perfil, olhando para baixo com expressão serena enquanto segura um microfone. Tema: "Pela verdade sereis curados"

Pe. Fábio de Melo/ Acampamento de Cura Interior – Canção Nova – Foto: Bruno Marques / Canção Nova

Meus irmãos e minhas irmãs, o que Jesus pede de nós não é nada sobrenatural. O verdadeiro seguimento de Jesus consiste, simples e profundamente, em viver humanamente como Ele viveu. A dimensão sobrenatural dessa caminhada é o auxílio maravilhoso que o Espírito Santo nos concede por meio da graça. É a graça de Deus atuando sobre o nosso ser que nos dá condições reais de ter as atitudes de Jesus, as palavras de Jesus e as ações de Jesus no nosso dia a dia.

No Evangelho, vemos que Jesus foi à casa de Pedro, cuja sogra estava de cama, queimando em febre. Ele tomou-lhe a mão e a febre a deixou; imediatamente, ela se levantou e pôs-se a servi-los. Quero propor a vocês uma reflexão muito sincera: precisamos pensar as dimensões da cura interior a partir da cura das febres emocionais que trazemos no peito.

As febres emocionais

Quando você enfrenta uma febre alta no corpo, o que acontece? Além da indisposição generalizada, a febre tira o seu apetite, você não consegue parar em pé, sente uma dor terrível no corpo e um cansaço avassalador. A febre é a alteração da temperatura corporal provocada por uma infecção ou processo inflamado. E quando ela se eleva demais, causa até mesmo confusão mental e delírio.

Eu me lembro perfeitamente de uma ocasião em que voltei extremamente doente de uma peregrinação. Não sei se era Covid, malária ou outra infecção severa; só sei que no voo de volta, de Lisboa a São Paulo, eu vim queimando em febre. Fiquei tão desorientado que esqueci meus pertences no avião, inclusive um anelzinho que uso para monitorar o sono e a pressão arterial. Custei a passar pela imigração, custei a pegar minha mala e cheguei em casa num estado deplorável.

Tomei um banho para tentar baixar a temperatura e me deitei. Quem estava comigo achou que era apenas cansaço. Fiquei das nove da manhã até as cinco da tarde largado, num delírio terrível, levantando e indo ao corredor gritar por socorro sem que ninguém me ouvisse. Foi uma tarde angustiante! E foi a partir dessa experiência dolorosa que passei a ler o Evangelho da cura da sogra de Pedro de uma forma inteiramente nova.

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As febres da alma

Se você fica sem comer por dois dias, seu corpo grita. Se fica sem água, a sede se torna insuportável. Mas com as feridas emocionais e espirituais é diferente: a alma resiste por muito mais tempo na secura, e a gente vai se acostumando com os desconfortos até chegar ao fundo do poço.

Temos uma rotina emocional desgastante. Para ser quem você é, você engole sapos, aguenta brigas, desrespeitos e carrega a responsabilidade de ser o “arrimo” emocional ou financeiro da família. Todo mundo recorre a você na hora do desespero. Mas quem cuida de você? Deus cuida, sim, mas Ele envia mensageiros humanos. Para que a cura emocional aconteça pela verdade, precisamos encarar quais são as febres que nos paralisam e nos impedem de levantar da cama e servir.

A vaidade e a arrogância que nos afasta de Deus

Ao olhar para a nossa vida e para a nossa caminhada de fé, identifiquei febres graves que têm adoecido o nosso coração e das quais precisamos ser libertados com urgência. O livro do Eclesiástico nos ensina com clareza: “Tudo o que se faz debaixo do sol é vaidade e vento que passa” (Ecl 1,14). A vaidade mata a nossa estrutura espiritual. A pior vaidade é me sentir superior a alguém por aquilo que sou, faço ou estudo. Eu sou apenas um homem que, todo santo dia, precisa pedir a Deus o auxílio da graça para não sucumbir nos piores pecados da terra.

Onde existe arrogância, existe fragilidade oculta por trás dos panos. Quem reconhece o seu próprio valor não precisa fazer propaganda de si. Quantas vezes vemos inclusive a vaidade espiritual? Pessoas que, por terem feito uma experiência com Deus, olham para o outro com o nariz empinado. Quando ouvimos sobre a queda ou o pecado de alguém, fazemos aquela “cara de espanto” hipócrita para fingir aos outros que seríamos incapazes do mesmo erro. Pecado é pecado! Não use réguas vaidosas para condenar os erros alheios enquanto esconde os seus.

A sabedoria da vida consiste em compreender que tudo passa. Papéis passam, cargos passam, a juventude passa e o corpo envelhece. Apegos desordenados aos filhos, ao status ou a cargos pastorais só geram sofrimento. Quando compreendemos que tudo passa, aprendemos a desfrutar o amor verdadeiro e simples.

Viver uma falsa espiritualidade

Jesus nos alerta severamente em Mateus 7,21: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor!’ entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai”. Aprendi na minha congregação uma máxima libertadora: Deus não pode fazer nada com as nossas obras se antes Ele não possuir o nosso coração.

Vivemos tempos de espiritualidade por conveniência, sem compromisso e sem exigência de transformação de vida. De nada adianta passar novenas rezando e chorando se o coração continua egoísta e vaidoso. Qualquer devoção aos santos deve nos conduzir diretamente ao centro: Jesus Cristo. Chega de um cristianismo “gourmet” e sem cruz! O Evangelho não é discurso de autoajuda, não é promessa de riqueza nem de sucesso humano; o Evangelho é promessa de renúncia, de conversão e de santidade.

Pela Verdade sereis libertados

No Evangelho de São João, Jesus nos faz a promessa definitiva: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos. Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,31-32).

É pela verdade que o nosso coração é restaurado.

Não há atalhos. Ou seguimos a Jesus com o pacote completo, ou não o seguimos. E o que Ele exige de nós é a prática das virtudes humanas: solidariedade, amor, perdão e rejeição absoluta ao ódio. O ódio é fruto de feridas emocionais não curadas. Quando o amor se ausenta, a sombra do ódio se instala.

A febre do ódio e das contendas

Olhem para o mundo de hoje: redes sociais transformadas em tribunais horrorosos, famílias destruídas por contendas políticas e grupos de mensagens cheios de ofensas. Jesus nos ensinou que, se chamarmos nosso irmão de “idiota”, cometemos um assassinato no coração. Quando retribuímos o mal com o mal, destruímos a vida cristã em nós.

Quando atacarem você, peça a Deus a graça da mansidão. Perdoe. Jesus foi achincalhado e humilhado, mas no alto da cruz intercedeu: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem”. Se alguém humilha você, perceba que isso só dói onde ainda existe a vaidade não curada dentro de você. Onde há verdadeira humildade, a humilhação do outro não encontra espaço para ferir.

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Se tornar um Discípulo Amado pela verdade

Meus irmãos, não vamos nos acomodar com um cristianismo morno. Se reconhecemos que o nosso temperamento é explosivo como o de São João, que era chamado de “filho do trovão” , saibamos que a graça de Deus pode nos transformar. Pela convivência íntima com Jesus e pela aceitação da Sua verdade, o “filho do trovão” tornou-se o Discípulo Amado.

Embora a virtude exigida seja humana, o recurso que recebemos do céu é inteiramente sobrenatural. Vamos abrir o nosso coração neste dia, entregar cada febre emocional e espiritual nas mãos do Senhor e permitir que pela verdade sejamos plenamente curados e libertados. Amém!

Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin

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