Dom Falcão

Consciência moral e o martírio de São João Batista

Consciência moral e obediência na fé

Existe um velho ditado popular, frequentemente repetido no inconsciente coletivo, que diz: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. À primeira vista, a frase parece lógica, sedutora e indiscutível. Contudo, sob a ótica da fé e da moral cristã, ela carrega um vírus perigoso: o pressuposto de que qualquer ordem, pelo simples fato de vir de uma figura de autoridade, exige um acatamento cego, pronto e incondicional. Mas a Verdade não funciona assim.

A moral e os graus da consciência

Inspirados na rica tradição da Escola Moral de Santo Afonso Maria de Ligório — bispo, doutor da Igreja e um dos maiores moralistas da história —, compreendemos que a consciência moral é a instância íntima que regula nossos pensamentos, palavras, ações e omissões. Ela é a voz interna que, depois de Deus, julga nosso agir. Santo Afonso distingue com precisão quatro modalidades de consciência:

  • Consciência Reta: É aquela que nos leva a agir de acordo com a verdade objetiva — a Revelação, a Palavra de Deus, a Tradição e o Magistério da Igreja. Iluminada pela fé, conduz o homem à virtude e às obras meritórias do céu.
  • Consciência Errônea: Ocorre quando há uma inversão completa de valores. O bem é julgado como mal, e o mal como bem (cf. Is 5,20). É a “satanização do divino e a divinização do satânico”, um erro sutil que perverte a verdade.
  • Consciência Laxa: O tentador busca afrouxar o rigor moral. A consciência laxa aproxima o mal do bem, relativizando o pecado. O que era proibido e pecaminoso passa a ser permitido, aceito e até aplaudido por negligência ou permissividade.
  • Consciência Cauterizada: É o estado mais grave e trágico. Nela, os valores morais foram queimados e reduzidos a cinzas. A pessoa perdeu totalmente a noção do bem e do mal; matar, mentir ou roubar não significam mais nada. A vontade torna-se completamente fragilizada pela prática contínua e desimpedida do pecado.

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São João Batista e o profeta Jeremias

Em contraponto às consciências cauterizadas da história, as Sagradas Escrituras nos apresentam testemunhos heroicos de integridade moral. Diante de autoridades corrompidas e soberbas, o profeta Jeremias e São João Batista ergueram a voz em defesa da lei divina.

São João Batista nos dá o exemplo perfeito de uma consciência reta que jamais abdica dos seus princípios, mesmo sob ameaça de morte. Diante do tetrarca Herodes Antipas, que mantinha uma união ilícita com Herodíades (esposa de seu irmão Felipe), João não se calou e apontou diretamente a verdade: “Não te é permitido tê-la como esposa”.

Como ensinava São Pedro Crisólogo, aos escravizados pelo pecado, a liberdade e a integridade do justo tornam-se insuportáveis. A virtude incomoda o viciado; a castidade ameaça o impuro; a verdade enfurece o corrupto. João corrigiu por amor à lei, à justiça e às almas, mas o orgulho de Herodíades e de Herodes não suportou a correção.

A fama e o perigo do orgulho humano

O Evangelho relata que a fama de Jesus chegou aos ouvidos de Herodes. O próprio Cristo nos incentiva a deixar brilhar nossa luz diante dos homens para que vejam as nossas boas obras e glorifiquem o Pai (Mt 5,16). No entanto, adverte também para que não pratiquemos a justiça para sermos vistos e aplaudidos pelos homens (Mt 6,1).

“O cristão nasceu para brilhar, mas não para buscar o aplauso das pessoas. O brilho do cristão é para que os homens, vendo suas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus.”

Herodes, movido pelo remorso e pelo medo, temia a fama de Jesus, achando até mesmo que João Batista havia ressuscitado. Sua fraqueza moral o levou a manter João preso para agradar sua amante e, ao mesmo tempo, evitar uma revolta popular. Preso na fortaleza de Maquera, o Profeta do Altíssimo aguardava o desfecho do drama humano e divino.

A armadilha do juramento imprudente e a máfia do ódio

No aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou diante dos convidados. Seduzido e empolgado, o tetrarca fez um juramento imprudente e precipitado: prometeu dar à moça tudo o que ela pedisse. Aqui a Teologia Moral faz uma distinção crucial. O juramento, invocar a Deus como testemunha da verdade.

Herodes agiu sem discernimento e, por puro orgulho humano e medo de desmoronar diante de seus convidados, preferiu manter um juramento absurdo a retratar-se de um erro. Orientada por sua mãe, a jovem pediu a cabeça de João Batista num prato.  O rei ficou triste, uma tristeza segundo o mundo, que conduz à morte e à covardia. Mas mandou degolar o profeta no cárcere para preservar sua falsa reputação de “homem de palavra”. Promessa que exige a prática de um pecado ou de um crime nunca deve ser cumprida.

Obediência humana e a objeção de consciência

O soldado que cortou a cabeça de João Batista e a jovem que levou o prato à mãe exemplificam o perigo da obediência cega. O Catecismo da Igreja Católica e a Doutrina Social da Igreja são categóricos. A autoridade só se exerce legitimamente se buscar o bem comum e empregar meios moralmente lícitos (CIC 1903). Se os dirigentes promulgarem leis injustas ou contrárias à ordem moral, estas não obrigam a consciência do cidadão. A autoridade degenera em abuso de poder (Pacem in Terris, 51).

Existe o dever e o direito humano fundamental da objeção de consciência: diante do conflito entre a lei dos homens e a lei de Deus, “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5,29). Mães e pais também não têm o direito de envenenar o coração dos filhos contra o outro cônjuge ou induzi-los ao erro e ao pecado. Nenhum vínculo humano ou grau de parentesco autoriza a violação da lei divina.

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A obediência e a fé

Por isso, o ditado “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” não pode jamais ser evocado como uma máxima indiscutível e aplicável a todos os casos. A obediência do cristão é a obediência da fé (Rm 1,5). Portanto: Manda quem pode, obedece quem tem fé! É a nossa fé que vai regular, ponderar, refletir, analisar e pesar se uma ordem obriga em consciência ou não.

Diante das dificuldades, perseguições e incompreensões que enfrentamos neste “tempo favorável”, mantenhamos nossa consciência reta, iluminada pela Palavra de Deus. Reiteremos nosso compromisso de fidelidade e amor a Jesus, perante o qual iremos prestar contas e ser julgados ao final de nossa jornada.

Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin

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