Padre Fábio de Melo

As febres que nos privam de conhecer a verdade

As febres que nos distanciam da cura interior

Fábio de Melo aparece de perfil em um altar, vestindo camisa clerical preta e óculos, enquanto segura um microfone e gesticula com a mão aberta.Ao fundo, desfocado, vê-se um crucifixo de madeira em destaque sobre um painel escuro. Tema: "As febres que nos privam de conhecer a verdade"

Padre Fábio de Melo/ Acampamento de Cura Interior – Canção Nova – Foto: Bruno Marques / Canção Nova

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra. Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos sempre da sua consolação. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

Que alegria imensa estar aqui com vocês hoje. Eu estava dizendo para a Luzia Santiago [cofundadora da Canção Nova] que nós iniciamos, na Canção Nova, uma tradição muito especial. Quero, todos os anos, estar presente no Acampamento de Cura Interior e Libertação. Estou profundamente feliz!

Todos vocês sabem que o grande pregador, Padre Léo, passou por este lugar fazendo um bem inestimável a tanta gente através do seu ministério de cura e libertação. Por isso eu pergunto a você: quem quer a ação do Espírito Santo? E mais do que querer, quem precisa d’Ele? Nem sempre aquilo de que precisamos é o que realmente queremos. Em muitos momentos, Deus não consegue agir na nossa vida porque a nossa necessidade ainda não se transformou em vontade.

As febres como herança espiritual e a cura interior

Já fazia tempo que eu desejava me firmar na dinâmica da cura interior, algo que também vivencio intensamente no programa Direção Espiritual. Por onde quer que eu vá, ouço depoimentos de pessoas dizendo como a iluminação divina as ajudou a se curarem de si mesmas e a reinterpretarem a história de suas próprias famílias.

Cura é encontrar um caminho diferente
daquele que trilhamos até o dia de hoje.

A cura interior é a própria dinâmica da vida cristã. Sem exceção, todos nós carregamos feridas emocionais resultantes da nossa história vivida. São as febres que nos privam de conhecer a verdade e que travam o nosso crescimento espiritual e humano. A psicologia nos ajuda a entender que a ferida emocional dificulta o nosso ser pessoa. Quando somos comandados pelos nossos traumas e por essas febres emocionais, nos tornamos pesados para nós mesmos e, consequentemente, pesados para os outros.

Regra da vida: Quando sou pesado para você, pode ter certeza de que sou o inferno para mim mesmo. Nós só damos aos outros aquilo que temos o hábito de entregar a nós mesmos diariamente.

Jesus Cristo como nosso referencial humano

Para nos libertarmos dessas febres, precisamos olhar para Jesus a partir da antropologia cristã, o ramo da teologia que estuda a nossa relação humana com Deus. Pilatos, ao entregar Jesus, proferiu a célebre frase: “Eis o homem”. Não disse “eis mais um homem”, mas destacou a singularidade de Cristo. Jesus é o nosso referencial humano perfeito.

Ele não era um homem ferido. Jesus foi um homem plenamente curado. Se Jesus fosse somente Deus, nós teríamos a desculpa perfeita para dizer que não conseguimos amar ou dar a outra face. Contudo, Ele foi verdadeiramente homem.

Humanamente, Jesus nos ensinou:

  • A humildade nas relações interpessoais;
  • A coragem diante das injustiças e perseguições;
  • A disciplina e a fidelidade ao Pai até o fim.

Até mesmo o medo Ele experimentou. A Eucaristia nasce do medo supremo de Jesus na Última Ceia, na véspera de Sua morte, quando Ele quis reunir Seus amigos. Quando procuramos a Eucaristia, temos o direito de levar os nossos medos, pois ela nasceu também no momento em que o Cristo homem sentiu a angústia da morte.

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Superando as febres e feridas

A nossa história de vida molda as nossas facilidades ou dificuldades em viver a proposta de Jesus. Eu compartilho com vocês a minha própria trajetória: nasci em extrema pobreza. Passávamos semanas comendo canjiquinha com taioba. Vivi de perto a dor de ver o álcool destruir a credibilidade do meu pai, um pedreiro honrado que viu sua vida moral ser corroída pelo vício.

Lembro-me de quando nos mudamos para Piauí em busca de vida nova. Eu tinha 13 anos e apanhava café das quatro da manhã às seis e meia da matina antes de ir para a escola. Certa vez, acompanhando minha mãe para comprar canjiquinha (o arroz quebrado que sobrava), o vendedor perguntou se era para dar aos porcos. Minha mãe, com profunda humildade, respondeu que era para o nosso consumo. Aquele homem se emocionou tanto, que misturou uma concha do arroz nobre no meio da nossa canjiquinha.

Quando a pobreza passou e minha vida começou a melhorar, o primeiro movimento da minha alma, afetada pela ferida emocional da escassez, foi o egoísmo. Tive que lutar longamente contra o egoísmo até permitir que a graça curasse a minha história.

A redenção e o perigo do moralismo

Sabe por que me tornei padre? Porque eu não merecia ser. Deus não me tratou de acordo com os meus merecimentos, mas de acordo com a minha necessidade. Se Jesus fosse um homem preconceituoso, talvez eu jamais tivesse sido acolhido, assim como Pedro, Tiago ou Zaqueu não o teriam sido.

Zaqueu vivia sob a lógica da lei judaica do seu tempo, que pregava que Deus só recompensa quem merece ou quem pode pagar sacrifícios caros no templo. Ele sabia que era miserável e não se julgava merecedor. Mas foi surpreendido pela misericórdia de Jesus. Se ficarmos presos às febres que nos privam de conhecer a verdade, corremos o risco de buscar uma “religião de pão e circo”: cheia de barulho, medalhas e camisetas, mas que foge da cruz e do compromisso de transformar o coração.

No Calvário, Jesus viveu a solidão. A multidão que o aclamava nos milagres desapareceu quando a proposta exigiu amar os inimigos e curar as dores do caráter. Se eu não buscar a cura das minhas feridas todos os dias, corro o risco de pregar um Deus cruel, à imagem do meu próprio coração ferido.

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Chamado ao itinerário de cura interior

O saudoso Padre Léo me disse um dia, nos bastidores deste lugar: “Você ainda vai pregar muito aqui”. Recentemente, tive um sonho lindo em que ele estava paramentado, sorria para mim e dizia que pregaria comigo. Tenho a profunda convicção de que ele está presente espiritualmente conosco neste acampamento.

Foi com o Padre Léo que aprendi uma verdade fundamental: um homem ferido ou uma mulher ferida não podem servir plenamente ao Evangelho. Precisamos, primeiro, alcançar as virtudes humanas de Jesus para, então, sermos capacitados a viver Suas virtudes sobrenaturais. Hoje, iniciamos um itinerário de cura. O primeiro passo é colocar-se em estado de prontidão e declarar: “Eu estou aqui. Eu aceito o desafio de ser curado para viver como Jesus viveu.”

Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin

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