Deixai vir a mim as criancinhas
O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós. Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus.
Naquele tempo, levaram as crianças a Jesus para que impusesse as mãos sobre elas e fizesse uma oração. Os discípulos, porém, as repreendiam. Então Jesus disse: “Deixai as crianças e não as proíbais de virem a mim, porque delas é o reino dos céus”. E depois de impor as mãos sobre elas, Jesus partiu dali. Palavra da Salvação.
O símbolo da criança e a história a ser escrita
Pedimos a Deus a graça de um coração puro. Isso nos faz lembrar as bem-aventuranças, quando Jesus diz: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. O Evangelho fala da criança, que carrega o simbolismo da pureza. A criança é uma história ainda a ser escrita.

Padre Fábio de Melo / Acampamento de Cura Interior – Foto: Bruno Marques
O amor que se descobre no olhar de um filho
Não há nada mais nobre do que ser pai e mãe. Na minha condição de sacerdote, por mais que eu queira saber o que é amar, eu correria o risco de morrer sem saber o que realmente era o amor. Sabe quando você ama de verdade? Quando você vê o rosto de um filho pela primeira vez; ali você descobre o que é amar. Deus lhe deu a oportunidade de construir uma história que não era mais a sua.
A nossa história é feita a muitas mãos. Quando você se recorda de seus antepassados, percebe presenças atuantes: pai, mãe, avós, tios ou irmãos. Se você quiser saber quem você é, precisa necessariamente “ressentir” — não no sentido de mágoa, mas de perceber o que cada pessoa deixou em você. Algumas coisas nós precisamos manter; outras, definitivamente, jogar fora. Cura é isso: ter um coração purificado e simplificado.
A cura da alma e o coração simplificado
Quando vivemos na perspectiva de um coração simplificado, não damos trabalho nem para nós, nem para os outros. Jesus, ao dizer “deixai vir a mim as criancinhas”, refere-se ao ser humano que podemos ser, mesmo aos 90 anos, se estivermos purificados.
A purificação necessária
Algo puro é aquilo de onde se extraiu tudo o que o poluía. Pense na água do Rio Tietê: poluída, ninguém a beberia. Mas, após passar pelo processo de purificação em São Paulo, nós a bebemos e não restam nem resquícios da história de poluição. É o que Deus faz conosco. Chegamos poluídos por sentimentos ruins e influências negativas, mas Deus nos limpa.
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Muitos de nós passamos a vida tentando ser aceitos e amados, sem filtros, por traumas da infância. Vivemos para agradar os outros e pedimos desculpas por existir. O convite de Jesus é para que optemos por viver as curas que nos tornam simples.
O perigo das mágoas e o valor do tempo
Viver deve ser um processo de soltar pesos e fardos. Não podemos nos acostumar com a poluição emocional do ódio, da mágoa e do ressentimento.
A diferença entre o ser humano e os animais no perdão
O ser humano é o único ser criado que guarda mágoa. Se você trancar sua esposa — ou seu marido — no porta-malas de um carro e voltar duas horas depois, terá um problema sério. Se fizer o mesmo com um cachorro, ele fará festa ao vê-lo. O animal, como a criança, não guarda mágoa.
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Nós perdemos um tempo precioso com picuinhas. Como dizia José Saramago, a coisa mais preciosa que podemos ganhar é o tempo. A mágoa nos faz desperdiçar o tempo, impede conversas e gera culpa, porque o rancor nunca vem sozinho; ele traz a tristeza e a murmuração.
Quem estará no seu calvário?
Com o tempo, o nosso círculo de pessoas diminui naturalmente; é o “funil do tempo”. Jesus entrou em Jerusalém aclamado por uma multidão; na última ceia, eram doze; no Calvário, restaram apenas três.
Se hoje fosse sua última ceia, quem seriam seus doze convidados? E se você tivesse que partir agora, quem seriam os três que ficariam no seu Calvário? A vida vai retirando nossos apoios e utilidades para nos mostrar quem realmente nos ama por quem somos, e não pelo que oferecemos.
Geralmente, as pessoas que mais maltratamos são as que nunca desistem de nós. Damos o melhor sorriso para os de fora e o nosso pior humor para quem divide a vida conosco. Não permita que você vá embora desta vida sem saber quem realmente você tem.
Dar toda a alma para viver
Ter um coração puro é não perder tempo com o que não edifica. Como disse o compositor Djavan: “Se eu tivesse mais alma para dar, eu daria”. Viver é isso: entregar-se por inteiro, sem arrependimentos de palavras não ditas ou perdões não concedidos.
Transcrição e adaptação Amanda Martins
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