Padre Mário Sartori

Acalmou-se a Vossa ira e enfim me consolastes

Acalmou-se e consolou o pecador

Um padre vestindo vestes litúrgicas vermelhas e brancas fala ao microfone ao lado de um ambão de madeira em um altar elevado.Ao fundo, uma grande assembleia de fiéis acompanha a celebração no interior de uma igreja ampla. Tema: "Acalmou-se a Vossa ira e enfim me consolastes"

Padre Mário Sartori / Acampamento de Cura Interior – Canção Nova – Foto: Daniel Xavier / Canção Nova

O salmista fez uma experiência: “Acalmou-se a vossa ira e enfim me consolastes.” Não é fácil a gente enfrentar alguém irado, ainda mais quando essa pessoa é mais alta, mais forte e mais poderosa do que nós. Agora, imagine Deus irado! Tem coisa que tira você do sério e o faz perder o rumo. Hoje, eu fico assim quando vejo gente mascando chiclete na missa. Eu estava olhando o Frei Bernardo, sei que lá na Irlanda não tem, mas aqui, quando contei a 20ª pessoa mascando chiclete, falei: “Para de contar”.

O salmista sentia Deus chateado, magoado e irado. Mas Deus revela a nós a sua dor e o seu queixume para o nosso coração de pedra justamente para nos despertar. Aí o salmista fez a experiência completa do ciclo que o pecador tem que viver: “Acalmou-se a vossa ira e enfim me consolastes.” Deus é consolo e vai te consolar!

Por quais motivos sentimos Deus irado?

Por quais motivos será que muitos de nós chegamos e experimentamos a sensação de que Deus está irado ou magoado conosco? A Primeira Leitura e o Evangelho nos dão os motivos:

  • A soberba do povo: Na primeira leitura, o povo ficou soberbo, de narizinho empinado, e virou as costas para Deus.
  • A questão do matrimônio: No evangelho, temos a questão do matrimônio, do adultério, do divórcio e do coração que se endurece contra a esposa ou contra o marido.

São vários os motivos pelos quais tropeçamos na vida e podemos chegar num lugar tão santo como o Santuário Pai das Misericórdias, na Canção Nova, nos sentindo desconectados. Às vezes, as pessoas ao lado estão cantando, saboreando, realizando o sonho de estar aqui, conhecendo o Padre Fábio de Melo, o Padre Zandoná… Mas o seu sorriso é sem graça, a sua palma é fraquinha e há um aperto no peito. Por quê? Porque talvez o casamento não ande bem, porque o divórcio entrou na sua história, porque você está esperando uma nulidade matrimonial sair. Experimentamos essa descomunhão quando sentimos como se Deus estivesse irado conosco porque somos pecadores.

Receba conteúdos do Eventos Canção Nova no seu e-mail

Do abandono à soberba

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel está no exílio da Babilônia (cerca de 570 a 600 anos antes de Jesus). Ele relê a tragédia do povo que teve o templo de Salomão queimado pelos babilônios. À luz da infidelidade do povo, Deus fala através de Ezequiel sobre a nossa própria história:

Nós não éramos nada! Éramos como uma criança recém-nascida jogada fora no campo, sem ninguém para cortar o cordão umbilical, banhar ou ter dó. Mas o Senhor passou junto, nos viu debater no próprio sangue e disse: “Tu vives!” Deus nos fez crescer, nos banhou, cuidou de nós e nos revestiu. Esse cuidado de Deus está na nossa história desde a barriga da nossa mãe.

Porém, quando crescemos e prosperamos, quando saímos do “uninho mil” sem ar-condicionado para o carro híbrido, subimos nos tamancos. Colocamos nossa confiança não mais em Deus, mas na beleza, na fama e no ego, praticando a prostituição espiritual (quando algo ocupa o lugar de Jesus Cristo na nossa vida). Esquecemo-nos dos benefícios do Senhor e provocamos o Seu dessabor por ficarmos arrogantes.

Acalmou-se diante da contrição interior

Santidade não é um conjunto de coisas que temos que fazer como se fosse uma prova do Detran, um protocolo. Santidade brota de um desejo de querer amar a Deus de volta. E é tão bom quando sentimos a ira de Deus dentro do nosso coração através da contrição interior!

A contrição é uma profunda vergonha de si mesmo misturada com uma profunda esperança de ter uma segunda chance para fazer melhor. É diferente do sentimento de culpa doentio ou do remorso. Na contrição, existe um choro amargo de vergonha, mas também a certeza de ser profundamente amado, fazendo-nos dizer: “Jesus, se o Senhor me der uma chance, eu faço diferente.”

O testemunho de São Maximiliano Maria Kolbe

Eu mesmo senti a ira de Deus de forma marcante, um dia, ao olhar a contracapa de um livro sobre São Maximiliano Maria Kolbe. Senti a foto flutuar e me senti profundamente amado por ele. Mas, ao mesmo tempo, senti o santo bravo e triste olhando para mim, como uma mãe que coloca a mão na cintura. Chorei porque senti a ira e a mágoa de Deus dizendo: “Eita, Padre Mário…” Mas, ao revelar isso, Deus já consola e dá esperança.

A vida de São Maximiliano também foi marcada por isso. Quando menino (seu nome era Raimundo), ele era peralta e desobediente. Sua mãe lhe disse: “Raimundinho, meu filho, o que vai ser de você?” Assustado, ele foi rezar diante da imagem de Nossa Senhora e perguntou o que seria dele. Nossa Senhora apareceu a ele com duas coroas nas mãos: a branca (castidade e pureza) e a vermelha (martírio). Ele respondeu: “Eu quero as duas!”

“Ele não, eu vou no lugar dele”

Anos mais tarde, já frade franciscano conventual e grande evangelizador pelos meios de comunicação, São Maximiliano foi preso pelos nazistas e levado para o campo de concentração de Auschwitz. Quando um prisioneiro fugiu, os soldados escolheram homens para morrer de fome no bunker. Um dos escolhidos caiu de joelhos chorando: “Por favor, não! Eu tenho mulher e filhos, sou esposo e pai!”

O Frei Maximiliano deu um passo à frente e disse: “Ele não, eu vou no lugar dele, porque ele é marido e pai.” O padre reconheceu a grandeza de um homem receber de Deus a missão de ser esposo e pai. No bunker da morte, após quase duas semanas rezando e cantando Ave-Marias, ele recebeu uma injeção de ácido e entregou sua vida no dia 14 de agosto, véspera da Assunção de Maria. Seu corpo virou cinzas, cumprindo o seu desejo escrito em diário: ser reduzido a pó por amor a Jesus, a Virgem Maria e à Igreja.

Matrimônio, divórcio e “volta ao princípio”

No Evangelho, os fariseus fazem uma pergunta diabólica para tentar Jesus: “É permitido ao homem despedir sua esposa por qual motivo?” Havia duas correntes rabínicas na época: uma que só permitia o divórcio por pecado sexual grave, e outra que permitia por qualquer motivo fútil (até se a mulher deixasse o arroz queimar). Jesus não entra nessa discussão fútil. Ele vai na raiz, no princípio das coisas:

“Nunca lestes que o Criador, desde o início, os fez homem e mulher e disse: ‘Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne’? Portanto, o que Deus uniu o homem não separe.” (Mateus 19,4-6)

De onde estamos aprendendo o que é casamento? De refrões de música de corno? De conversas de academia ou de futebol? Ou da Palavra de Deus? Moisés permitiu a carta de divórcio por causa da dureza do coração (no grego, escleriocardia, coração esclerosado, ressecado e endurecido). Mas no princípio não era assim!

As lições de Jesus para a família

  • O homem deixará pai e mãe
  • Serão uma só carne
  • O cônjuge é Sacramento

O homem deixará pai e mãe. O casamento exige maturidade. A característica do homem e da mulher maduros é a capacidade de deixar tudo por algo, inclusive pai e mãe. Meninos e meninonas precisam desmamar para construir sua própria história sem a interferência ou o sufocamento dos pais.

Serão uma só carne. A união sexual e a amizade íntima são reservadas exclusivamente para o matrimônio. É preciso voltar ao princípio, onde havia fé, carinho, oração, atenção, paciência e respeito mútuo. O cônjuge é Sacramento. No casamento, não há pão, vinho ou água; o noivo e a noiva são a matéria do sacramento. O marido e a esposa transformam-se em sinal sensível e visível que comunica a graça de Deus um ao outro.

Conversão para acolher a cura interior

Jesus disse que nem todos são capazes de entender (guardar/dar lugar em si) essa palavra, a não ser aqueles a quem ela é concedida. Não existe cura sem conversão! Para a novidade curativa do Evangelho entrar, precisamos jogar fora o orgulho, a arrogância, o ressentimento e tudo o que entope o nosso coração.

Nascemos para essa aventura e grandeza: amar até o fim,
com flores e espinhos, com glória e com cruz.

Podemos ser sacramentos de Deus na vida dos nossos filhos e cônjuges, assim como o pequeno José Lucas, de 10 anos, que, ao ver o pai doente pregar sobre a cruz, quis fazer sua primeira pregação para as crianças dizendo: “Mamãe, eu quero pregar igual ao meu pai!”

Leia mais
::A continuidade do poder de Cristo através dos Sacramentos!
::A bíblia não pode interpretar-se sozinha
::Consciência moral e o martírio de São João Batista

Oração de clamor pela família

Erga os seus braços, pense na sua casa, no seu casamento e nos seus sonhos. Clamemos juntos: “Restaura a nossa casa, Senhor! Tua bênção derrama aqui. Nossa casa vem reconstruir! E pela intercessão de São Maximiliano Maria Kolbe, derrama o Teu Espírito Santo sobre o coração que está seco, duro e esclerosado. Amém!”

Transcrição e adaptação Jaqueline Scarpin

Receba as informações sobre os Eventos por WhatsApp e Telegram.

Inscreva-se hoje mesmo em nossos canais gratuitos:

HOSPEDAGEM | CAMPING | REGULAMENTO DO CAMPING | ALIMENTAÇÃO | CURSOS

Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.